Empréstimos eficientes

O tema da vez não é acaso, mas falar a partir dessa ótica de trabalho em busca de oportunidade é tão pertinente quanto o tema em si. Estamos falando de empréstimos, de oportunidade, de transitar entre diversas áreas do conhecimento e de nos apropriar do que for necessário para que o relacionamento com o mundo possa ser construído com outras possibilidades. No encontro de número 5 da imersão em processo criativo na Biblioteca Pública de Niterói, falamos justamente sobre essa temática dos empréstimos, ou melhor das exaptações, como apresentado, em 1971, por Elisabeth Vrba e Stephen Jay Gould, pesquisadores e paleontólogos americanos em seu ensaio “Exaptation – a missing term in the science of form”. Um exemplo que se tornou um clássico foram as penas das aves, onde os estudos dizem que foram desenvolvidas para regular a temperatura dos corpos dos dinossauros não voadores no período Cretáceo. Porém, quando alguns dos seus descendentes começaram a fazer experiências com voos as penas se revelaram úteis para controlar o fluxo do ar sobre a superfície das asas, permitindo assim as primeiras aves a plainar. Outro grande exemplo foi a construção da prensa tipográfica de Gutenberg, que não foi uma grande invenção, mas sim uma grande junção de partes já existentes como papiro, prensa de uvas e os tipos chineses que foram adaptados em um novo uso. Ou até mesmo o caça inglês Harrier, que é capaz de parar no ar como se tivesse freios. Esse trânsito de funções emprestadas são tão eficientes nessas novas funções quanto em seus objetivos iniciais. A questão agora é se as ideias tem esse mesmo comportamento. Será que estamos aplicando as nossas ideais no lugar certo? Ou melhor, da melhor maneira?

Esses foram alguns dos pontos onde construímos as provocações para que o papo fluísse pelas cabeças dos presentes no último encontro. A ideia é que cada um desses conceitos seja construído a partir das percepções do grupo, de tal forma que cada um seja dono de sua própria verdade, do seu próprio processo, e a coletividade consiga dar forma a esses conceitos de maneira acessível e realmente influente em seu cotidiano. A ideia que foi fisgada sobre exaptação foi de um empréstimo, algo que é apropriado e se desenvolve a partir desse gesto.

Haviam cerca de 30 integrantes nesse dia, entre brasileiros e argentinos, de 20 a 60 anos, de áreas completamente diferentes, um real grupo de diversidade que se propunha discutir e construir conceitos, dedicar algumas horas em mergulhar em um só tema e se aproximar dele para o melhor uso no seu processo, assim como as asas em certo momento serviram para voar. Mas o grupo de estudos não se limita somente as provocações, tivemos o “No Break” com a Catarina e a Chali Bijalba e seus cookies e café, que conseguiram roubar mais atenção do que qualquer dinossauro que poderia passar pela janela da BPN. A pausa foi levada pela ideia de um grande acaso, como a história do surgimento dos cookies e de futuras histórias que essas duas podem vir a contar – mas isso já é um especulação/desejo da nossa parte.

Como esse grupo é parte do Sopa, não poderíamos deixar de engrossar o caldo. O convidado ao papo do dia foi o Rafael Franco, que é, entre muitas funções, o biólogo marinho chefe do AquaRio. Ele falou por quase uma hora sobre a experiência da construção de um aquário tão grande quanto o do AquaRio, e de como o termo exaptação está presente em seu cotidiano, tanto em ideias quanto em práticas biólogas. O papo foi rico de minúcias e de uma motivação incrível ao percebermos o quanto estar conectado com o que gostamos pode nos levar a milhões de outros lugares. Foi nesse clima de conexão com o fazer e o pensar que Rafael nos deixa um alerta para os corais, que estão morrendo por toda parte e que nós podemos, sim, fazer algo para melhorar essa questão se pensarmos criativamente.

E foi mais ou menos assim que o tema exaptação foi discutido, propondo ideias e sugerindo reações. No próximo encontro, dia 12 de dezembro, o tema será experimentação e o convidado da vez é o artista plástico Tito Senna. Estamos aprontado uma novidade e esperamos vocês por lá.

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Obras e códigos

Um pouco depois do evento, conversei com o Christiano e com a Laura sobre os pedidos para que divulgasse a bibliografia da palestra que apresentei no segundo encontro do grupo de estudos sobre processo criativo na Biblioteca Pública de Niterói, dia 8/8. Como foram de fato muitos autores, alguns com a intenção de destacar seus comentários teóricos e outros pelos seus trabalhos literários, decidimos compartilhar a lista de autores e obras através deste post.

Fiz uma divisão deste modo: primeiro os autores cujas teorias foram discutidas, depois outro grupo com aqueles que desenvolveram obras voltadas para suas experiências durante o processo criativo, e, por fim, um terceiro grupo com autores que nos serviram de exemplos literários.

Separei em três tópicos essa bibliografia, considerando que apresentei apenas os nomes dos autores do grupo de literatura para que façam seus próprios percursos dentro da obra de cada um.

 

Autores (teoria):

Tzvetan Todorov – Introdução à Literatura Fantástica;

Jean-Paul Sartre – Situações I – Críticas Literárias;

Fayga Ostrower – Criatividade e Processo de Criação;

Vilém Flusser – O Mundo Codificado;

Mikhail Bakhtin – Estética da Criação Verbal;

Roland Barthes – O Rumor da Língua (discutimos o texto “A Morte do Autor”);

Paul Valéry – Variedades (discutimos o ensaio “Poesia e Pensamento Abstrato”).

 

Autores e o processo criativo:

Rainer Maria Rilke – Cartas a um jovem poeta;

Virginia Woolf – Um teto todo seu;

James Joyce – Retrato do artista quando jovem;

Henry Miller – A sabedoria do coração (discutimos o texto “Reflexões sobre a arte de escrever”).

 

Autores (literatura):

E. T. A. Hoffmann;

Nikolai Gogol;

Edgar Allan Poe;

Henry James;

Fiódor Dostoiévski;

Gabriel García Marquez;

Mia Couto;

Jorge Luis Borges;

Julio Cortázar;

Machado de Assis;

Murilo Rubião;

Carlos Trigueiro;

Guimarães Rosa;

José Cândido de Carvalho;

Manoel de Barros.

 

Então, lembrando que refletimos os caminhos da literatura fantástica, o que evidenciei com os autores, romances, contos e novelas mencionados. Mas chegamos também em assuntos que apontam para teorias literárias, além dos processos criativos de autores que pouco se limitam ao gênero fantástico.

Que estas leituras abram seus olhares para novas percepções dos códigos.

Dia Nacional do Escritor

Sina soez

Que sorte a dele. Com aqueles olhos suplicando um cinza remexido pelos dias do ano. Velho, pesado dentro daquele corpo que dizia muita coisa sem que soubesse as conjunções apropriadas. Um homem manchado em sua cor de terra, os cabelos afetados pelos pronomes do giz. Passou a vida toda olhando as ondas daquela baía, desmanchando seu tempo num banco que lhe dava algumas poucas histórias para ler no mundo. Sorte, pode-se dizer. Que prazer este senhor deve ter de tocar a comida com pouco caso, porque é a mesma de ontem e de dez anos atrás, feita em sua própria cozinha. Sentia o paladar de qualquer jeito, sem que tivesse o desprazer de comer ovos querendo algo mais enriquecido; se soubesse entender a palavra “enriquecido”, ao menos.

Andava pela praça, de tarde, falando pouca coisa aos vizinhos, ignorando as estruturas programadas daqueles padrões dos últimos dias: coisas sobre gastar dinheiro, ter uma profissão, uma avidez por conhecer algum outro país que não aquele de insultos políticos e morais onde vivia. Mas tinha sorte, não entendia dessas coisas. Apenas lhe agradava o costume de ver a tarde nadar pelas cores e dominar as próprias despedidas. Via isso mesmo; era poeta no estômago. Sentia calafrios toda vez que percebia o sol esbarrar numa nuvem mais clara, manchando umas tintas vermelhas com outras azuis. Gostava quando era espontâneo o momento de um pescador jogar uma rede ao mesmo tempo que os pássaros voejavam juntos do asfalto para o céu, mexendo com as estruturas do dia contado por horas. Via os esforços de uma vida entre seus pés dentro daquelas formigas espremidas sob as folhas que arrastavam. Sorria para o molejo dos barcos, apertando os dedos contra o fígado que doía todos os dias no mesmo horário, às duas e quarenta e sete. Piorava se fosse terça, que era dia mais bonito. Se chovesse, o velho abria a janela de casa e ficava de lá mesmo, revirando os olhos para o retrato empoeirado da senhora de branco. Eram belezas equivalentes, todas fenecidas ao fim do dia, despedidas para que houvesse validez no sustento do tempo e das coisas que nele se perdem e morrem. Lembrou ainda daquele seu cachorro, um homem forte – era um homem aquele cachorro – que certa vez salvou um rapaz das maldades de outro homem – esse sim era bicho – que ninguém sabia de onde havia chegado, mas que havia vindo pra furar a prosperidade de uma gente boa que tentava viver por ali quase que escondida. Justo naquele bairro, que nem a chuva fazia maldade. Mas era sortudo o homem. Tinha ternura nas águas dentro da vista, e nem dava importância aos problemas. Os poucos dentes que resistiram às cachaças ainda abriam uma graça ou outra pelos sorrisos. Isso quando ria, que era mais difícil a cada mês. Lembrava talvez com mais ternura que todas as demais lembranças do nascimento daquele filho de cabeça chata e olhos de jabuticaba, como os da moça no retrato. E toda vez que o mar remexia quando alongava as horas no banco da rua, emergia na memória aquele parto que vasculhou o canto apertado de sua mulher. Foram vinte horas de agonia. O dia que o cinza de seus olhos empalideceram, assim como a pele daquela dama de branco, da mesma fotografia, mulher e dona do filho ali vivo, diferente dela. Um ano difícil foi aquele, perdido entre os papéis que foram muitos, mais do que todos os outros. E não sabia mais se aquela recordação era triste ou feliz, mas nunca a perdia pelos escombros sujos do cérebro. Ficava sempre ali provocando os dias calmos.

Criou o menino no meio de peixe e saveiro. Ele gostava de catar os tatuís das praias, e aprendeu cedo a fazer nós complicados daquele pescadores obcecados pela maresia. Mas aprendeu por aprender, porque fazia pouco de pescar como os outros. Gostava mesmo do chão, de fazer correr carrinhos de rolimã e de catar sucata pra montar objetos de mentira. Uma vez inventou um telefone com um pedaço de tubo velho que haviam descartado e alguns cadarços esquecidos na gaveta. Passava o dia todo falando no instrumento de mentira. O pai achava graça, pensava que aquilo dizia alguma felicidade sobre o futuro daquele cabeça chata com olhos frutíferos. Até deu frutos; mas levou com ele. Aos dezoito o menino, diferente dele, sentiu a coceira de olhar a vida pelo outro lado da terra. Mudou-se para uma cidade cujo nome pouco fazia diferença e nunca mais deu sinal de respirar, nem mesmo pelo telefone. Mas tinha sorte o homem, porque aquilo lhe parecia ser coisa comum de acontecer. Filho, quando vira gente, deixa de ter apegos e vai embora mesmo…que esteja com a vida boa, a barriga cheia e acompanhado por alguma mulher que tire de si uns filhos; mais de quatro, pensava, mais do que aquele único que ele teve e não tinha mais. Só que pouco lhe apertava o peito toda essa história, e preferia desse jeito, embora o silêncio da tristeza operasse em si como um gás danoso que se espalha sem que seja visto, cobrindo o seu corpo com uma cor azulada de quem morre ainda vivo. Percebeu durante um dos campeonatos de damas na praça que estava surdo de um pulmão; sentia ainda, por vezes, uns músculos dos olhos remexerem com ansiedade, e acostumou-se com aquela secura falando na boca. A crise maior foi quando chegou no bairro um pipoqueiro que lia as verdades do futuro nos caminhos de restos de milho. Era um homem simples,  acumulando idade pelos cabelos brancos. Tinha a coluna curvada e um nariz saliente que lhe ofereciam propriedade e aparência de mago, vidente entre as sobras de milho e sal. Ficava na mesma praça do campeonato, e fazia pouco tempo desde que havia chegado quando inquietou a concentração dos homens naquele dia. Ofereceu um pequeno pacote a cada um e disse que levassem para que ele lesse as migalhas depois. Não pareceu ser muita coisa o que disse aos demais jogadores, ou talvez tenha sido a sensibilidade daquelas recorrentes poesias no estômago do velho que fez com que vibrasse mais do que as demais aquela história que o pipoqueiro leu em seus vestígios: disse ver uma sorte intocada, mas não intocada de prosperidade, e sim por jamais ter sido descoberta, como um presente que nunca foi aberto. O milho sozinho circulado pelo rastro de sal é excesso de mudez, e os restos nessa mancha maior de gordura são desperdícios da sorte: o que sua boca não diz e sua mente não pensa viram calos nos nervos, estalos no fígado e essa silenciosa morte do coração. Depois desse dia que as rugas do velho se esticaram da testa até as orelhas e suas mãos passaram a tremer mesmo depois do frio. Ficava repetindo a si mesmo aquela predição que parecia invalidar o pouco caso que dava para os percursos do futuro. Não entendia muito dessas coisas enigmáticas, mas era verdade que o peito doída mais com o passar dos aniversários que chagavam a contragosto.

Também contra a sua vontade chegou aquele mês frio que fez a dor piorar e se despedir do seu banco de sempre até o hospital público. Sentia lá dentro que a dor parecia encontrar seu bafejo e doer mais ainda. O velho chegou apontando de onde vinham as agulhadas para um enfermeiro que pouco ligou e mandou que sentasse. Por falta de mar para olhar e desconforto do assento, distraiu-se contando o tempo espalhado no relógio da parede; passava em círculos como aquelas voltas que a brisa dava na sujeira das folhas no chão da rua. As horas chegavam acompanhadas por pessoas diferentes; crianças aos prantos e outros velhos que, como ele, chegavam sozinhos segurando as dores por debaixo da roupa, como se pudessem tocar suas partes mais ocultas. E foi naquela reflexão sobre dores encafuadas que se deu conta da vigésima hora de espera. O número chegava já abrasando suas lembranças com a força daquelas pontadas no peito, e junto com elas o chamado do médico. Pelo o exame dos olhos, boca, nariz e joelhos, o doutor interpretava o que diziam as escrituras do seu corpo. Você tem insipiência, desgraça que reflete no coração. Precisa ficar de repouso por alguns dias, comer bem e mastigar melhor os acontecimentos, e leve esse remédio aqui. Mas tinha a sorte de pouco entender de doenças. Nem sabia o que significava aquela, o que fez com que desse pouca importância; até porque se fosse doença de matar, não teria levantado com tanta rapidez. Ordenou os dias seguintes no repouso indicado, comendo cumbucas fundas de feijão preto e tomando o tal remédio. O complicado foi mastigar acontecimentos, já que não sabia como fazer aquilo e tampouco quis perguntar como era. Parecia difícil. Pensou que talvez fosse pra refletir sobre o desperdício da sorte contada pelo pipoqueiro, ou que pudesse ter alguma coisa a ver com a poética do seu estômago. Só que não lhe parecia ter muito o que mastigar, somente a vista de sempre, com a quitanda estendendo as caixas de fruta do lado de fora pela manhã, umas crianças correndo entre as amendoeiras, os jogadores de damas em suas posições de sempre. Decidiu ir para o seu banco e refletir durante o cheiro de marisco preparado ali na areia mesmo pelos pescadores. Por vezes o silêncio era invadido por risadas de passantes, e junto com eles o velho observava a chegada dos cachorros de rua manchados de solidão nas patas, vagando entre um carinho ou outro que garantisse a sonolência do dia. O velho se deu conta da poesia no pensamento que logo culpou o estômago, percebendo a chegada das dores que lhe diziam sobre ser refugado no mundo, o que pouco dava importância antes. E pela primeira vez, depois de anos de olhos jogados pelo marasmo da baía, sentiu dentro de si uma tempestade que alagou seu corpo todo, fazendo vazar água de seus olhos. Curvou-se no banco e ali despencou as vinte horas, os olhos de fruta, o homem em forma de cão. A madeira do banco exalava um cheiro adocicado pela água que dele escorria. Madrugou ali mesmo, naquele dia em que seus olhos cinza pálidos murcharam nos cantos, doendo a forma com manchas vermelhas que nunca mais deixaram aqueles contornos rentes aos cílios.

A claridade da manhã foi tomando seu rosto como um despertador barulhento. Chegavam ainda algumas vozes por perto. Uma menina mostrava à mãe o que havia encontrado pela rua: uma lagartixa que, para a sua professora, significava sorte. Para mãe pouco importava as simbologias daquele bicho, achava nojento de qualquer modo. Larga, menina! Tem coisa mais bonita que dá mais sorte do que isso aí. O velho só ouviu a palavra sorte, encarando a criatura deixada pela menina na calçada logo em frente ao banco. Foi então que sua memória trabalhou algo mais que as ruínas de sempre, remontando a frase sombria daquele pipoqueiro que disse sobre sorte intocada e nunca descoberta. Sentiu-se descobrindo-a; nunca pensou que seria capaz de ver aquilo com seus próprios olhos, um acontecimento que de jeito algum lhe coube entre os sonhos mais profundos, nem quando o estômago decantava versinhos. Prolongando mais ainda os conselhos dos últimos dias, deparou-se com a recomendação do médico para que mastigasse melhor os acontecimentos, e sentiu compreender o que deveria fazer agora. Catou o bicho do chão e ali mesmo o enfiou na boca. Sentiu a textura gelatinosa e fria da criatura vasculhar a mucosa de sua boca buscando uma saída dentro daquele breu, agitava suas patas contra as bochechas do velho, mordiscando o céu de sua boca como se tentasse furar a coragem do predador com vigor de onça. Mas o velho mastigou e mastigou com a intensidade da prescrição recomendada. E logo o bicho virou massa pastosa, coisa que fez a fome se dar conta de estar afoita. Engoliu com gosto, pensando ser a sorte elixir que se absorve pelo esôfago, matéria que se instala por dentro e ali vibra pelo tempo de todos os demais estados. Confortava-se com a ideia de ter garantido a sua sorte por dentro, o que durou alguns minutos até que sentisse o estômago revirar suas poesias, desta vez perambulando o desfalecimento das criaturas, falando sobre morte, a dama de branco, os olhos perpetuamente fechados. O velho sentia pulsar os desbraves daquela dor revistando sua história como se houvesse ali coisa bonita de se poetizar. Foi então que teve o despropósito de pensar na relação dos acontecimentos: havia matado a sorte pelos dentes, assim como as entranhas mataram a dama, e os homens matavam outros homens pelos cursos. Havia matado para tornar seu o que se pega emprestado do mundo, assim como se estraga água e se quebra a terra. Era sorte, mas estava morta, assim como tudo aquilo que fazia pouco caso de entender, mas, por um descuido, naquele momento entendia. Levantou-se trêmulo, parecendo visualizar aqueles desastres bem diante de si, estudando a crueldade dos fatos como se fosse história nova, nunca antes acontecida. Mas tinha sorte o homem, porque aquilo lhe parecia ser coisa da imaginação – podia até ser delírio. Ninguém mandou logo ele pensar demais. Comi a sorte, e daí? Outro descuido. As bondades do mundo duram o tempo de um grito. Pouco pensou pelo resto do dia, preferindo dormir já em sua casa. O dia seguinte era de campeonato de damas. Os homens arrumavam as peças quando o velho ouviu a voz do pipoqueiro sussurrar dentro do seu ouvido algo sobre a sorte que deveria encontrar. Foi então que suspirou, infiltrado em seu desperdício: a sorte está dentro de mim, só que morreu, porque o médico mandou mastigar bem e eu mastiguei.


Foto: Luiza Rezende

Um fenômeno chamado G.T.

Nem mesmo entre os armários da cozinha; no vão entre a poltrona e o sofá da sala; entre os cantos escuros dos azulejos do banheiro; pelas diversas gavetas da estante no escritório; dentro do emaranhado dos pêlos do cachorro; na dispensa, encolhido entre os sacos de feijão e farinha. Nada. Não estava nem onde poderia estar caso tivesse perdido pelo caminho de chegada em casa. Uns quatro passos após a porta de entrada, mais uns cinco até a cozinha, entre a geladeira e a pia, outro mais até a mesa de jantar. Havia sumido. Sentia a falta a qualquer momento asfixiando seu vocabulário sem que houvesse algo a ser feito. Seu início estava desaparecido, foragido sem que soubesse como fá-lo retornar. Evaporado entre as palavras, aquela letra seria um buraco exclamando para sempre uma ausência nas suas escrituras.

E mais do que isso! – um desespero lhe assustou o pulmão – justo com ela, professora de português há tantos anos contados por suas rugas. Alfabetizara muitos quando nova, as palavras frescas brotando entre seus galhos novos. Sentia a força das frases, a intensidade dos adjetivos. Tinha orgulho de trabalhar com os ornamentos do que se quer dizer. Mais adiante, lecionara para colégios exigentes, insistindo no bem entender dos versos alexandrinos que dizia Machado. E depois, no desmembramento das formas pelo bem da poética e dos instintos, foi que chegou a professora universitária, efetuando aulas meticulosas para se compreender a importância de cada letra expressiva nas palavras distribuídas pelos textos. E justo com ela aquele descuido.

Aconteceu logo naquela tarde, ou pelo menos foi quando se deu conta do tal sumiço. Fumava sentada no sofá com seu cachorro deitado no chão ao seu lado, mirando ela vez ou outra para verificar sua total concentração naquele livro chamado Dicionário. Rabiscava algumas notas num papel solto, e por vezes parava a leitura para dar mais um trago longo e mirar o que diziam as imagens na televisão configurada para o mudo. E novamente se preparava para voltar à leitura das palavras iniciadas por “C”, quando sentiu a luz se apequenar com lentidão até findar-se num estalo oco que parecia vir das quenturas das lâmpadas. Queimaram pela segunda vez naquela semana. Todas juntas, desgraça! Sentiu o breu estranhamente lhe invadir o escuro interno, parecendo farejar algo, não sabia exatamente o quê. Poderia também ser coisa da sua cabeça, um medo do escuro que por vezes a gente descobre. Trocou as lâmpadas queimadas e logo tudo estava iluminado. Seguiu, então, a leitura novamente pela letra “C”; foi quando viu a palavra adiante fatalmente descuidada, tremelicando um vazio pelas sílabas. Estava escrito “c b n ” onde deveria ser “cabana”, aquela ela já havia passado os olhos. Mais abaixo leu “c beç ” onde antes estava “cabeça”. Eram os “ás” – todos eles haviam sumido. Revirou as páginas do dicionário e nada via. O “a” havia sumido como se precisasse apenas de segundos para se extinguir, como se nunca tivesse existido. Mas ele estava logo ali um pouco antes, certeza que os vira. Não, não conseguia organizar os pensamentos. Um dicionário sem “a”; quanto descuido!

Preferia não insistir naquela confusão e foi até o banheiro jogar uma água no rosto, talvez escovar os dentes e se manter acordada, até porque podia ser o sono ou coisa do tipo. Mas ao pegar a escova no armário escondido detrás do espelho, desequilibrou-se acometida pela surpresa. Ali também havia espaços frios pelas palavras: ” gu  boric d ” ; “P st  de dente”; “S bonete”. O que será que tinha acontecido com a letra “a”? Silenciosa, refletindo a composição das palavras que avistava pelo caminho, destrinchando a morfologia do que sabia compreender do complexo português, foi percebendo que estava diante de um fenômeno raro que poucas vezes ouviu falar e jamais havia presenciado. Tratava-se do fenômeno de G.T., em que uma determinada letra parece sumir do vocabulário da pessoa, atingindo não somente os olhos, que não são mais capazes de a enxergar, mas voz, audição e escrita. Ainda que exista e que saiba da sua existência, o Fenômeno de G.T –  abreviação de Gira Trunco – impossibilita o contato da pessoa com aquela letra. Os casos mais frequentes acontecem com uma vogal, que deverá ser para sempre esquecida pelo vocabulário de quem outrora a conheceu. Identificando o caso, sentou-se no sofá fatigada. Seria o suficiente acomodar-se àquele “tarde demais” que a mente insistia? Talvez existisse um “a” ali num canto qualquer, como que caído pelo esquecimento de seus bolsos pequenos. Talvez o encontrasse. Nada teria a perder se ao menos vasculhasse os segredos daquele apartamento.

E não havia frase que dissesse qualquer auxílio para encontrar aquele “a”. Pela casa não estava, e o perdia mais ainda de seus últimos resquícios quando avistava as palavras tremelicando seus defeitos nos papéis distribuídos pela mesa. E, invadida por um descuido do desespero, seguiu até sua estante bufando o medo que permitia ser acomodado em suas têmporas, suando o calor daquele dia incomum e de poucas palavras. Jogava os livros no chão assim que percebia não existir um “a” sequer nem nos títulos, nem nas folhas de rosto. Por toda parte, nada restava daquela letra inaugural, da vogal que faz nascer as delongas do que se diz de mais simplório, de onomatopéia a substantivo. Suplicava a cada folha, gemia, insistia na possível forma daquele “a” escondido, talvez de cabeça para baixo, talvez entre uma folha e outra ou, isso!, na brochura! Mas nem que rasgasse todos aqueles livros o encontraria. Qualquer que fosse o “a”, ele estava tão perdido quanto o tempo contava novos minutos, que, prolongando-se, iam desabrochando novos efeitos daquele ruído G.T.. Foi o que compreendeu assim que arriscou um berro. Forçava gritar um “ahhhhhh” que expelisse de si o assombro daqueles instantes, mas tampouco isso. Já não conseguia dizer mais a letra nem que a infiltrasse secretamente entre os fonemas. Nada saía. Quando tentava, surgia sobre o som do que dizia um silêncio bizarro que parecia uma surdez momentânea, e logo em seguida compreendia os sons dos “vês”, “gês” e “erres”. O som piscava algumas palavras sem sentido. Teria que se readaptar ao que ouvia; acostumar-se a deduzir antes mesmo da palavra ser dita que, dentro dela, um “a” surdo se escondia. Inquietava-se. Por que com ela? Buliçosa por letras e palavras, pela construção e desconstrução do que se conta. Logo ela, amante do que diz e faz dizer. Perdia uma parte do que definia seus propósitos, um pedaço daquilo que queria ao menos ter a possibilidade de expressar.

E se escrevesse!? Supôs no pensamento entravado pela dúvida. Era uma possibilidade. Talvez redigido conseguiria avistar a vogal pela última vez. Poderia se despedir de seus contornos, ao menos. Olhava o tempo prevendo a morte quase completa daquele “a” que já pouco existia dentro dela, ainda que insistisse em rabiscar futuras esperanças. Suas mãos tremiam contra o papel, a caneta frouxa fazia riscos deslizando pelos dedos suados. Aquela era a sua última esperança. Augurava um “a” que fosse, ao menos um que a fizesse alumbrar o arrojo daquela letra que alenta alvores e adventos, ao menos um “a” que lhe acalmasse a angústia, a ausência do que jamais algum dia havia atentado o afastamento ou admitido o aniquilamento assim tão áspero e acabrunhado. Foi testando a caneta no papel, fez umas letras, uns rabiscos e pensou na própria assinatura – seu nome tinha o que procurava. Muito bem, escreveria Ágata na rapidez de sempre. Faria o primeiro “a” comprido, esbarrando nas linhas debaixo, do jeito que ficava mais bonito. Isso, faria assim. E fechou os olhos e fez. A assinatura durou o tempo habitual, já acostumado com o movimento da caneta. Sentia-se mais calma. Talvez não sofresse todos os sintomas. Este, ao menos, lhe parecia intacto. Sorria pelas mãos, pelos dedos dançando o trajeto do nome, divagava sobre a possibilidade de dar um jeito naquilo tudo. Abriu os olhos tranquila até ler seu nome com vazios decorados, o papel dizendo apenas ” g t ” no lugar de Ágata. G.T.. Lia e relia; não conseguia desgrudar os olhos arregalados da coincidência de possuir em seu nome, e desde sempre, o tal fenômeno engolidor de vogais. Transformara-se, chamaria-se G.T., um nome obtuso de forma e sentido. Não seria mais ela. Atestando o fato, faltou-lhe voz, sentiu a cabeça girar com dores agudas que apagavam suas esperanças uma por uma como velas equilibradas em seus instintos. Encolheu o corpo sobre a cadeira e chorou durante um tempo prolongado pelas conjunções imperfeitas.

Foi tomada pelo desespero sem que houvesse outro rumo. Compreendia o seu destino de ser incapaz de dizer o que lhe falam os “ás”. Nenhum mais. Sem que ao menos pudesse entender o que falaria o “a” dos outros. E seria complicado demais reformular uma maneira de ler, ouvir, dizer. Nada faria muito sentido nem mesmo aos artigos. Muito menos em suas aulas, ou nos textos lidos. Aposentaria, por certo; não haveria o que fazer senão isto. Teria que pensar em algo que a deixasse em funções mudas. Talvez uma produtora de dobraduras, pintora de insetos ou jardineira nas casas de pedra. Sentia-se pressionada por tantos pensamentos e tantos por vezes isentos de “ás”, o que lhe obrigava a revisar tudo que refletia diversas vezes, num processo novo e já cansativo. Estava tão angustiada com toda aquela mudança repentina que transformava seus morfemas e formigava em sua pele uma sensação de esquecimento das devidas pontuações. A solidão chegava em passos discretos, como nunca antes havia chegado. Pelo silêncio daquela deformação, a professora G.T. sentia invadir o que bem queria dizer, reprimindo não somente seus “ás” mas tudo aquilo que dizia ela ao seu redor, como os cômodos, móveis, plantas, luz. E pouco a pouco não sobrou um “a” sequer; pouco   pouco n o foi existindo m is um jeito de dizer seus intentos, seus entendimentos, n d . Tornou-se um descuido no meio de t ntos furos nos dizeres. Desisti , n o f l v  q se n d  j . Est v  t o  b tid  por n o  comp nh r  s t lh s  bob lh d s d s p l vr s que surgiu em si um silêncio revestido pelos prenúncios d  mudez, onde repousou seus chi dos pelos verbos seguintes.

10 de junho, Dia Internacional da Língua Portuguesa

Semana do Livro Infantil

- Agora eu vou ler o livro pra vocês enquanto ele vai passando naquela tela, ok?

Apresentavam-se diante de nós, na quarta-feira do dia 15 de abril, cerca de 200 crianças de dois colégios distintos, animadas com a curiosa leitura que fariam naquele lugar enorme, cheio de salas, estantes e pessoas de caras enfiadas em livros; os silêncios pedidos para serem guardados sempre nos bolsos, para que não atrapalhassem a concentração daquelas paredes compenetradas. A Biblioteca Parque de Niterói recebia a leitura do livro “Me dá um abraço?” da autora Clara Gavilan, leitura essa registrável como a primeira de um livro digital numa biblioteca pública. E talvez tenha sido esse o motivo para tanta curiosidade que vagava pelas bocas e ouvidos daqueles meninos e meninas já entendidos de seus próprios sonhos.

Preferiam sentar no chão, porque cadeiras atrapalham a sensibilidade – coisa que só criança pode concordar. Amontoados diante da autora, alguns olhares arregalavam-se ao ver diante deles uma autora a passar as páginas do livro pela tela do iPad, ao mesmo tempo em que a história se reproduzia na grande projeção com seus personagens numa floresta em movimento, com vento que desfolha árvores e desenrola brisa pelo cenário. Acontecia diante de nós uma pergunta nova, uma dúvida entre o que já existe e o que poderia cada vez mais existir: é também um livro a folha digital que pede o toque, a descoberta pelas páginas e a leitura interativa? Sentíamos o impulso do sim no silêncio do virar de cada página, nos diálogos enfeitando cada personagem de repente compreendido.

Ao final da história, aplausos de mãos pequenas; algumas pareciam querer a releitura, outras esperavam o que vinha adiante, naquele misterioso papel enfeitando a mesa da autora:

Já que o livro é digital, quero presentear vocês com um cartaz e uma ilustração do personagem que vocês mais gostaram. Quem quer!? Formem uma fila aqui na minha frente!

Um estalo e a fila já estava feita; e mais uma vez só crianças podem compreender o valor que existe em sentir-se eufórico com um papel enfeitado por dedicatória e desenhos, coisa boba essa animação que durante a vida deixamos que a água leve a cada banho. Mas não somente se entusiasmavam, como detinham nas mãos questionamentos justificáveis para a autora e para o Sopa: “Posso comprar o livro do meu celular?”; “Como faço para publicar um livro?”; “Você fez os desenhos com lápis ou foi no computador mesmo?”; “Um dia eu ainda vou escrever um livro!”, “Eu também!”.

De traços ligeiros, a autora entregava cada cartaz para uma nova criança ansiosa. O primeiro olhar sobre o presente dizia o carinho e a importância do que entendiam por leitura já tão cedo.

E para fechar o presente com a melhor cereja no bolo, Clara convidava cada criança a um agrado singelo de mesmo nome do livro: “Me dá um abraço?”.

Foram olhos deslumbrados e sorrisos largos, divididos entre cada um daqueles que pareciam infinitos abraços.

A mesma leitura aconteceu também sexta-feira, no Telecentro da Oficina do Parque de Niterói, para crianças do espaço e demais escolas e creches da comunidade do Maceió. De pés descalços e acomodadas num tapete emborrachado, os olhos dos pequenos eram sempre focados na televisão a passar a história acompanhada pela voz da Clara. Sentimos que o envolvimento da leitura foi além da intimidade que o ambiente conduzia, quando mais uma vez a fila para o cartaz logo se fez entre passos saltitantes; e não somente sobre cartazes que a fila crescia, mas também para pedir uma foto com a autora; um papo sobre outro livro que leu; uma história dividida; um abraço a mais. E depois foi um corre-corre, gargalhadas e brincadeiras para validar a euforia que dizia aquela tarde inserida na memória de cada uma deles, a vagar entre as lembranças infantis que gostamos tanto de, ora ou outra, saudar com um abraço.


Fotos na Biblioteca Pública de Niterói

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Fotos no Telecentro da Oficina do Parque de Niterói

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Fotos: Diego Mere e Luiza Rezende

Em memória de fogo e passarinho

O texto abaixo foi publicado neste zine buscando desbravar a construção da memória literária de Manoel de Barros e Eduardo Galeano, escritores apegados ao tema, que republicaremos hoje para avivar o que não pode ser esquecido.


 

Memória e suas criações exuberantes  

Uma viagem ao mundo das lembranças recordadas e reinventadas de Manoel de Barros e Eduardo Galeano: escritores quem veem na memória um prato cheio para a criação

‘’Recordar: Do latim re-cordis, voltar a passar pelo coração’’. Assim começa O Livro dos Abraços, de Eduardo Galeano, refletindo sobre o recordar, este ato por vezes silencioso que nos confidencia o que vemos e aprendemos ao longo dos dias. Uma capacidade inata e adquirida. Um substantivo abstrato como tantos outros que classifica aquilo que, acumulado na nossa mente, caminha sorrateiro. Muitas vezes esquecido, vive escondido entre os cantos escuros da mente até o dia em que decide ser aclamado e acordado pela nossa lembrança. Todos nós a temos e cultivamos inconscientemente, do mesmo modo que a usamos para nos entendermos e entendermos o mundo. Mais do que isso, a análise sobre registros da memória pode ser bem mais profunda quando pensamos sobre a origem das ideias, já que muitas vezes – na maioria delas – é na memória que se escondem as grandes criações. Seja através de uma história ou recordações da infância, uma descoberta ou um fato marcante durante a vida, todas as experiências acumuladas pelo homem vão para este mesmo ‘’lugar’’. Na associação dessas várias recordações surge, por vezes, a fala diferente e inovadora da criação.

Grandes representantes deste ato criativo de dialogar com as recordações marcaram a literatura latino-america do século XX com obras cujo principal aspecto é a descrição das lembranças guardadas na memória, sejam elas reais ou adaptadas. Autores como Eduardo Galeano e Manoel de Barros, um uruguaio polêmico e um brasileiro encantador, parecem não ter muita coisa em comum, embora sejam caçadores natos de recordações inspiradoras, que podem ser encontradas num prego estático na parede de uma casa velha ou na triste morte de um poeta espanhol.

Parecendo nos guiar até uma pequena casa escondida na última esquina do mundo, O Livro Sobre Nada, de Manoel de Barros, relata as mais sublimes minúcias dos nadas que, de acordo com a realidade inventada do autor, seriam flores, insetos, rios, pedras, animais, entre outras peças da natureza esquecidas dos olhos desligados e acomodados com a velocidade da rotina. ‘‘Inventar é uma coisa que serve para aumentar o mundo’’, explica. Sua literatura é uma viagem na desconstrução da realidade a fim de renovar o olhar acostumado do leitor. Os fatos contados em poemas e textos breves parecem mais reflexões infantis e despropositais; lembranças de um verão qualquer rabiscadas num papel. É inventor de palavras e de todo o idioleto manoelês, classificado por ele como o dialeto que os idiotas usam para falar com paredes e moscas, além de estudioso do nada e da essência das coisas. Manoel recria o mundo com palavras a fim de provocar algo novo, uma percepção alternativa do real; ‘’Não quero dar informações, quero dar encantamento’’. Consagrado como um dos maiores poetas brasileiros, Barros descreve pequenos detalhes em torno de si como se os olhasse pela primeira vez, com olhos curiosos e infantis.

“Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo’’ – Manoel de Barros 

No documentário de Pedro Cezar sobre a vida e obra do poeta, Só Dez Por Cento é Mentira, Manoel confessa resgatar nas memórias da sua infância as lembranças para criar toda a essência de sua poesia. Ele conta que o livro ‘’Poemas Rupestres’’ fala sobre um lugar bucólico e afastado de tudo, onde não tinha nada. Lugar este inspirado na região onde o próprio autor foi criado quando criança, onde não tinha televisão, rádio e nem mesmo vizinhos. Neste lugar vazio e sem assunto, as pessoas eram obrigadas a criar histórias e inventar coisas. ‘’A poesia nasce do não existir. Você tem que inventar’’.

Sei que meus desenhos verbais nada significamNadaMas se o nada desaparecer, a poesia acaba. Eu sei. Sobre o nada eu tenho profundidades.” – Manoel de Barros

Para o poeta não há fonte mais rica em poesia do que a infância. Considera tudo que escreve como resquícios de sua visão infantil, onde as frases são desconstruídas e palavras são inventadas, trocando e renovando sentidos. Deslumbrado com esse olhar de criança, Manoel conta em Só Dez Por Cento é Mentira que, instigado pela fala criativa da criança, colocava seu filho no colo e o fazia perguntas com um bloquinho em mãos. O contato diário entre pai e filho deu origem ao livro Poeminhas pescados numa fala de João, repleto de relatos sobre o mundo a partir do olhar e do entendimento ingênuo do seu filho. Fabricar brinquedo com palavras é seu lema e sair do lugar-comum com encantamento é sua aventura favorita:

‘’Carrego meus primórdios num andor.
Minha voz tem um vício de fontes.
Eu queria avançar para o começo.
Chegar ao criançamento das palavras.
Lá onde elas ainda urinam na perna.
Antes mesmo que sejam modeladas pelas mãos.
Quando a criança garatuja o verbo para falar o que não tem.
Pegar no estame do som.
Ser a voz de um lagarto escurecido.
Abrir um descortínio para o arcano’’

Trecho do Livro Sobre nada.

Mais que um inventor, Manoel de Barros é também uma grande inspiração para os diversos criativos cativados pela sua poesia. Paulo, que trabalha consertando eletrodomésticos, aparece no documentário contando que, após ler a obra de Manoel, se viu inspirado pelas suas expressões profundas e surreais. Decidiu, então, materializá-las criando aparelhos que completam o universo do autor, como o ‘’Prego que Farfalha’’, o ‘’Esticador de Horizontes’’ e o ‘’Aparelho de Ser Inútil’’. Este constante diálogo entre obra e leitor resulta em diversas interpretações e reações, sendo indiscutível a propriedade inspiradora da relação entre obras prontas e o processo criativo de outras, como o caso do próprio Manoel, que foi alimentado criativamente pela obra do Padre Antônio Vieira.

Manuel

Outro inspirador de criadores ambulantes é o uruguaio Eduardo Galeano, consagrado pelo polêmico livro Veias Abertas da América Latina que discute de maneira crítica e polêmica a história da América Latina desde o colonialismo ao século XX. Escritor e jornalista, Galeano foi alvo incontestável no período da ditadura e golpes na américa, o que resultou em exílios sucessivos. Sua agitada história de vida estimulada pelo seu ativismo moral contribuiu para o acúmulo de lembranças intensas e sua verbalização através de uma temática crítica e reflexiva. Em O Livro dos Abraços, o autor relata alguns acontecimentos políticos, sociais, místicos, cotidianos e pessoais que, aparentemente, assistiu com os próprios olhos e foi capaz de descrevê-los graças à memória, apropriando a elas o tom lúdico e fabuloso.

“Como trágica ladainha, a memória boba se repete. A memória viva, porém, nasce a cada dia, porque ela vem do que foi e é contra o que foi. ’’ – Eduardo Galeano 

Para Galeano, não basta recordar os acontecimentos, é preciso que eles cortem; que fira, inspire e estimule algo diferente dentro de cada um. Algumas histórias presentes no livro apresentam inicialmente uma temática triste – sobre mortes, pobreza e depressão – , contudo, num súbito momento, a leitura parece seguir para uma reviravolta destes sentimentos através de sensações mais suaves, como encantamento, amor e fé. Sua reflexão não somente aponta para uma perspectiva positiva, de quem tem prazer em viver buscando a constante reversão do que não está bom, como metaforiza perfeitamente o desenvolvimento do processo criativo, sempre denso, intenso e trabalhoso, mas, ainda assim, produtivo e válido. Desse modo, a obra de Galeano sugere que é preciso entender os dois lados da história: bater e abraçar, lembrar e esquecer, sentir raiva e amor, para, enfim, ser capaz de modificar comportamentos, concepções e costumes. Em entrevista ao programa Sangue Latino, do Canal Brasil, Galeano afirma que ‘’são as histórias que a gente conta, escuta, recria e multiplica que permitem transformar o passado em presente e que também permitem transformar o distante em próximo, possível e visível’’.

Aproxima-se de Manoel de Barros quando certa vez declarou, também durante a entrevista, apreciar o dom poético e ingênuo das crianças. Aproveita o assunto para fazer uma amarga crítica sobre a incorreta concepção de evolução de uma sociedade já habituada a uma realidade confusa, que converte e distorce a criativa e deslumbrada mente infantil durante seu amadurecimento. ‘’Quando criança somos todos pagãos, e, nessa idade, somos todos poetas. Depois o mundo se ocupa de apequenar nossa alma. Isso que chamamos de crescimento e desenvolvimento’’.

Dialogam ainda mais quando buscam a simplicidade narrativa para alcançar reflexões além do próprio tema. Ambos preocupam-se com pequenezas cujo valor invade espaços com pouca voz e muito o que ser dito. Manoel de Barros aproveita seus nadas de insignificâncias abrangentes para saltar sobre nós a importância de perceber no vazio de pedras, galhos, rios e passarinhos, profundezas da natureza que insistem em dialogar com nossos instintos. Do mesmo modo, Eduardo Galeano revive povos antigos já silenciados pelo tempo e acende na memória as pequenas mensagem de pessoas afundadas por injustiças e descasos que atravessam a história. Manoel e Eduardo falam sobre o mesmo pequeno enorme assunto, o mesmo fato escondido entre as beiradas dos nossos olhos, mas ainda assim tão evidentes e prestes a gritar intentos e virtudes.

Mas, em toda a obra de Galeano, talvez, mais importante do que a memória seja a desmemória dos fatos. Suas reflexões sobre os mais variados temas apontam para um assunto em comum: o acordar das lembranças. Galeano nos alerta para alguns acontecimentos históricos e sociais de suma importância para a sociedade que foram esquecidos, jogados para baixo do tapete da nossa reflexão. Assuntos como guerra, escravidão, colonialismo, exploração de povos, raças e classes sociais, e outros temas mais recentes com intensas críticas à qualidade da educação, saúde e voz popular, recheiam seu material literário como se fossem grandes exclamações na folha de papel. Seu apelo é para que não seja esquecido aquilo que de fato importa. Sua observação faz com que o leitor abra os olhos para o que não deve jamais ser esquecido, seja um importante acontecimento de sua vida ou aquilo que algum dia viu, leu e aprendeu; convida a prática da recordação, o registro dos fatos cotidianos, seus valores culturais, morais, inspiradores e filosóficos, para que seja descoberto, assim, a grande ideia escondida na desmemória da mente.

“Na minha escrita quero ser capaz de olhar o que não se olha, mas que merece ser olhado. As pequenas, as minúsculas coisas de gente anônima, da gente que os intelectuais costumam desprezar. […]’’ – Eduardo Galeano

Bip, Bip

“Isso aqui é um bar de boêmio, mas, acima de tudo, é um bar social”.

Quando o assunto é Rio de Janeiro, posso afirmar categoricamente que existem duas funções que exigem enorme responsabilidade: exercer um cargo público e escrever sobre algum bar dessa cidade. Sim, mais do que TER um, dissertar, informar ou avaliar um bar requer pesquisa, frequência e, mais do que tudo, imparcialidade. Por se tratar de um local sagrado para muitos, bares são palcos de emoções, histórias e, para alguns de seus frequentadores, territórios de uma fidelidade ímpar, dessa que deixaria muitos líderes religiosos com inveja.

Sempre que vou a um bar costumo relevar alguns quesitos e fatores que no final de tudo, serão transformados em uma “rigorosa” avaliação final. O ponto de partida não poderia ser outro senãoa temperatura da cerveja. Em segundo lugar coloco o atendimento. Por último o ambiente. Pois é o Bip-Bip o lugar onde, por mais que tudo conspire contra, você encontra tudo isso. E é exatamente isso que faz de lá um local tão incrível e singular.

É com a frase do título que começamos a falar sobre esse santuário. Localizado em um dos muitos corações de Copacabana – RJ, o bar foi fundado em 1969 e conta com várias particularidades. Em primeiro lugar vale citar a pluralidade de nacionalidades ali presente. Não se espante se em uma quarta-feira de samba você se sentir em uma legítima Torre de Babel, dividindo mesas com pessoas que podem vir da vizinha Argentina ou da longínqua Escócia. Todos – sem exceção! – ficam boquiabertos com a qualidade musical, o clima familiar e ambiente inigualável.

Pode-se dizer que uma ida ao Bip-Bip exige sentidos aguçadíssimos. Sim, começando pelo mais necessário deles: a audição. Com músicos tocando e cantando sem auxílio de amplificadores e microfones, sentir cada uma das notas e partituras entrando de maneira doce nos ouvidos exige grande habilidade, ainda que o silêncio dos espectadores seja garantido pelo Alfredinho (calma, eu ainda chego nele). Entenda que podem ser cantores da nova geração do samba carioca ou simplesmente o Milton Nascimento, que resolveu “dar uma passadinha por lá”.

Um outro ponto fundamental está na riqueza de cada um dos detalhes da decoração. De fotos históricas a camisetas expostas para serem vendidas, cada elemento é capaz de despertar o charme de um Rio que não existe mais ao espectador.

Sendo assim, aí vai uma dica: olhos bem abertos!

Por fim, falamos sobre aquele que talvez seja o mais importante deles, literal e metaforicamente falando: o tato. Imagine que você está em um bar e, por um minutinho de distração, fale um pouco mais alto com o seu amigo. Normal, certo? Não se você estiver dividindo o mesmo espaço que o Alfredinho, o dono do bar. Se você tiver a sorte dele não escutar esse “disparate”, agradeça ao Deus dono da sua devoção e não repita mais essa atitude. Mas se ele ouvir, se prepare para uma demonstração do mau-humor quase caricato de uma entidade do samba carioca, traduzido em um discurso de aproximadamente 3 minutos, explicando que ali é bar para escutar samba e dedicar respeito aos músicos. Metaforicamente falando, é ou não é mais do que necessária toda a sensibilidade do mundo em uma situação como essa? Mas não se assuste, pois não passa de pura fachada. Mais certos que os esporros de Alfredinho, são os abraços dados no Alfredinho; adorado por clientes, músicos, trabalhadores da reciclagem e tantos outros. Ah, claro! Sobre a parte literal, lembre-se de treinar o seu tato indo até o freezer para buscar a sua própria cerveja gelada, já que no “Bip” (carinhoso apelido usado pelos frequentadores) é você quem busca sua própria lata.

Quando fui indicado por amigos e cheguei pela primeira vez ao bar, me lembro de ter sido tomado por uma sensação de conforto e acolhimento. Nunca entendi ou procurei entender o real motivo de me sentir tão bem. Hoje, depois de tantas idas, posso dizer, inspirado no tratamento recebido pelo Alfredinho e por boa parte dos seus frequentadores: o Bip-Bip é um abraço.

Foto: Luciana Pereira

Um papo com Otto

 

Falar sobre a revista a Alazã é voltar no tempo e na história que o Sopa vem construindo, ainda mais quando os papos que tecemos por aqui ficam mais intrigantes quando “envelhecidos” pelo tempo (ainda que curto!). A revista Alazã foi um dos primeiros projetos do Sopa e, assim como toda primeira manobra, teve a vida curta, mas deixou alguns ensinamentos que nos possibilitam resgatar bons insights.


 Otto fala sobre o clipe “O Que Dirá o Mundo”, onde representa um cavalo e a sua relação com a música.

Sopa: No clipe da sua música “O Que Dirá o Mundo”, você aparece nu, preso em um estábulo, de joelhos e se contorce ao receber uma rajada de água. Qual o significado dessa representação?

Otto: O cavalo representa o homem e o homem, o cavalo. A questão do paralelo é denunciar a forma como tratamos animais e pessoas; porque não deve existir diferenças neste tratamento. A falta de respeito com o animal reflete diretamente na falta de respeito com nós mesmos. Devemos refletir sobre a vida, sobre a importância de respeitar todos os seres vivos. Existe alma em todo ser; existem sentimentos.

Sopa: Você fala nas suas músicas sobre diversos temas atuais, sempre com o objetivo de informar, transmitir alguma mensagem que possa resultar numa atitude positiva. De onde veio essa vontade de propor uma reflexão acerca dos assuntos que rodeiam o mundo?

Otto: Acho que esse é meu dever como artista, sabe? Antecipar, digerir e informar através da arte minha visão sobre as questões do mundo. Tenho uma mente inquieta e vivo dos meus pensamentos; amplifico as vozes populares. Penso em manifestar através da minha arte os desejos humanos e contribuir, assim, pra o futuro, de forma otimista, esperançosa e humana. É deste modo que construo meu discurso, meus versos: no amor e na convivência…Quero o melhor para o meu mundo; quero harmonia!

Sopa: A letra da faixa “O Que Dirá o Mundo” critica o caos urbano e passa o sentimento da “vida de cavalo” de uma cidade grande. O que realmente você quis metaforizar e que forma encontrou para dizer e mostrar isso?

Otto: A relação vem do grande escritor russo Liev Tolstói, no seu conto “Khostolme: a história de um cavalo”, sobre um equino de nome Khostolme relatando a sua vida: desde puro sangue, corredor, depois um belo reprodutor, até ficar velho, arrastando uma carroça na fazenda. É uma comparação com a vida humana. Um conto fantástico! E tive a ideia de virar um cavalo no clipe para levantar essa crítica, essa relação. Sem contar que o universo dos cavalos é extraordinário, vigoroso. Adoro a plástica do cavalo.

Sopa: Nos seus shows você se abre para o público e extravasa suas aflições de forma catártica. Como é estar no palco?

Otto: Cara, arte pra mim são todos os sentidos reunidos pela inspiração, pela pulsação dos sentimentos, pela interpretação. No palco eu me sinto perto de Deus, perto da minha alma. Nele eu sinto equilíbrio, esforço e perfeição natural. É como se entregar à luz, à verdade.

Sopa: Na letra da música “O Que Dirá o Mundo”, você fala que divide a angústia e o pão. Que divisão é essa e com quem está sendo feita? Com o mundo, com a cidade, com as pessoas, com os animais?

Otto: Quando falo sobre dividir a angústia e o pão, quero apontar para a importância de sermos gente, de estarmos abertos para compreendermos as certezas e incertezas do estado humano, seus amores e dores; estamos aqui pra tudo isso! E temos que aprender a dividir, suportar e nos alimentar, porque viver é um exercício de muita paciência e compreensão, que mesmo nas adversidades precisamos estar prontos para reagir, ajudar e apoiar o que é importante. Não está escrito em nenhum lugar que a vida é perfeita, pelo contrário. A vida é pra ser vivida e evoluída.

Sopa: Essa mistura de sons e ritmos com que você convive, com um pouco de drum and bass (ritmo eletrônico) misturado ao maracatu e ao samba, é uma das suas características mais marcantes. Como você explica esse seu estilo próprio?

Otto: Meu estilo é um pouco das coisas que ouvi. Sou um homem contemporâneo, que busca viver o mundo de hoje e absorver o novo. Posso dizer que tenho uma música muito original, e sempre cobro o novo na minha alma. Gosto de misturar o desconhecido, aquilo que faz meu mundo e minha música avançar, com as tradições regionais: Pernambuco, nordeste e Brasil.

Sopa: Acontece durante o clipe a transição entre o homem e o cavalo. Você não começa sendo um cavalo e nem termina sendo um, mas passa por este momento cavalo. Como foi essa construção na narrativa da música?

Otto: Estes animais nos ensinam o tempo todo. Interagir com eles foi uma experiência inesquecível. A energia do momento da roda em que eles rodam ao meu comando me mostrou a grandeza que eles possuem e afabilidade que sentimos diante de tanta perfeição. Os cavalos realmente ajudaram muito o homem durante a história, como máquinas de guerra e transporte; o cavalo realmente é o símbolo ideal da força e do equilíbrio.

Sopa: Pensamos que o momento da dança no seu clipe seria aquele de maior entendimento do homem, já que dançar é uma característica humana – emocional e racional. Porém, você só consegue chegar nessa fase depois de passar pelo momento cavalo (animal). Qual ideia você estava querendo propagar ali?

Otto: Quando danço homenageio Lars von Trier, o grande cineasta dinamarquês, e seu filme “Melancolia”, que retrata o fim do mundo. Penso que dançar é uma afirmação de entrega ao momento presente e que o vive até o fim. É isso! Tolstói, Lars von Trier, cavalos e dança. O começo meio e fim de um pensamento sobre a eternidade.

Fronteiras Vivas

1.333km seriam desfilados do lado de fora do carro em direção às fronteiras vivas. Em linha reta o mundo parece organizado. A ordem das cenas por vezes se perde quando acumulamos fatos. Deslizar por aqueles pedaços de terra provocou um descolamento da alma, de onde quer que ela estivesse colada. Invadimos vias e veias com o único intuito de chegar. A sensação de perceber o corpo em movimentos fez um sorriso discreto na avidez de cada um. Éramos 13, plantados na curva da vida às cinco horas da manhã, dialogando com o breu daquele início de viagem. Acordadas as ruas sonolentas, costuramos a estrada com pernas livres.

O céu ascendia devagar; contornava a estrada com pequenos pedaços de plenitude. O tempo estava bom para decifrar nuvens e invadir montanhas com olhos de fotografia. E pelo sopro de poucas curvas, tínhamos a leve sensação de que aquela viagem guardava mensagens nas sombras. Oscilando entre os ventos enfileirados, percebemos entre nós o impulso de uma discreta euforia. O momento indicava o início da natureza absoluta; era mais Sul a cada quilômetro azulado. O tempo abria caminho até um silêncio que nos recebia com sede.

A primeira parada foi o Vale Lagaver, um lugar isolado e de brisa espontânea que brotava pelos ângulos dos olhos. Ficamos guardados entre paredes de pedras; até a cachoeira, bastavam 325 passos exatos de pés médios. Acampamos perto de uma casa de madeira com caminhos de musgos na entrada. Quando vista de longe, parecia um grande animal confortavelmente deitado sobre um cobertor, com um sono que deslizava a consciência até um estado sublime rodeado por pequenos segundos de paz. Por vezes, descobríamos vagalumes guardados nos bolsos como se fossem ouro bruto cintilando sua raridade prestes a voar.

No quintal da casa havia o bosque dos labirintos, onde era possível avistar um caminho em cada extremidade, todos idênticos. Os gatos que por ali passavam voltavam duplicados. Ao indagarmos sobre o fato aos moradores da região, disseram se tratar de um espelho que ficava bem no meio do labirinto, capaz de duplicar mistérios; e assim cada gato ganhava um novo ele que, ainda que vinculado ao original, vagava como sendo vivo. “Foi daí que surgiu a lenda das sete vidas dos gatos”, esclareceu um senhor. Os duplicados pareciam redescobrir o mundo pelas frestas, deslumbravam-se estáticos observando as folhas menearem pelo ar.

Talvez ninguém quisesse nunca mais sair de Lagaver, mas era preciso. No dia seguinte andamos mais 440km numa estrada vazia por mais umas oito horas. Saímos no horário do almoço, sonolentos por causa do peso do sol. A luz invadia o carro esquentando os incômodos e desvirtuando a nossa visão granulada. Clareava o percurso pintando de branco cercas e flores; ao longe, as casas pareciam manchadas de grandes doses de leite derramadas por jatos que vinham do céu. Comprometidos pelos olhos cansados e acabrunhados pela fome mastigando os desejos, paramos no posto logo em frente.

Por termos falado alto ou simplesmente porque éramos muitos, ali sentados como itinerantes e dispersos no mundo, foi atraído até nós um homem grande e bem gordo, carregando consigo uma grande garrafa de cachaça e um cigarro de palha bambeando na boca. Seu chapéu ocre parecia maltratado pelas estradas fronteiriças. Os olhos amarelados e seu perfume de tabaco lhe davam um aspecto de homem sem lugar, gasto pela melancolia dos faróis mudos. Chegou até nós projetando uma tosse enfestada de pigarro que silenciou nossa conversa. “Vão pra fronteira do Sul?”, invadiu, “Fica mais rápido cruzar pelo atalho. Economiza gastos e ainda pega a costa até as terras invadidas pela grama selvagem. Vocês já ouviram falar de Mosfrágum? É lá. Coberta pelo incômodo discreto da natureza. É triste de olhar, mas bonito quando realmente se vê, um lugar imperdível. Eu sou caminhoneiro, passo sempre por lá e vejo cada coisa que me arrepia as angustias; essas estradas são um calabouço aberto”.

Estremecidos pela curiosidade que a alma diagnosticava, decidimos ir pelas ruínas de grama da tal cidade cujo nome nos sumia da lembrança a todo tempo. Mosfrácio, Mostrátum, Mosfrá..gum! Em linha reta, a cor do dia descamava no horizonte. Sentíamos o cheiro da maresia cada vez mais próximo, e era curioso perceber que perdíamos a companhia de outros carros. Éramos nós com menos destinos, o mar projetando sua imensidão monocromática e vazia em nossa consciência. Era uma paz costurada; ouvíamos nela uma serenidade que a estremecia, pois, sendo só, tinha uma plenitude solitária.

Placas quase ilegíveis diziam a curva e última entrada. Despejados numa estrada de cantos curtos, nossa estrada agora parecia infinita graças ao silêncio que todas aquelas plantas empurravam sobre nós. Dois horizontes de grama, um de cada lado, encaravam nossos carros como se fôssemos intrusos numa terra vazia. Não se via um único ser vivo, de modo que saltávamos para desviar de um buraco ou outro que aquele asfalto velho acumulara no tempo de poucas visitas. Mas uma virada brusca no volante nos garantiu que o desvio dessa vez não era por conta dos buracos, mas sim de um gambá, mesclando sua forma com a das crateras escuras do percurso. Foi quando vimos surgir cada vez mais animais pelo andar da estrada: vacas, bois, ovelhas, bodes, capivaras, patos. Uma terra de animais, supusemos, decorada com tantas criaturas que quase parávamos de tão lentos, distraídos com a profunda beleza da paz monótona dos bichos. Ali pausamos no tempo fracionado. Sentíamos como se o mundo tivesse ido embora de nós – a liberdade nos assaltara.

“Olha só aquela casa!”, avistamos ao longe, perdida entre o mar de verde, um casebre que parecia possuir apenas um quarto de tão pequeno. Tinha cor de terra seca e murchava uma existência envelhecida, engolido quase que completamente pela grama. As janelas perdiam a forma para as plantas, parecendo ele todo uma ruína mumificada. Vivas mesmo talvez fossem apenas as árvores, cujos tamanhos eram ridiculamente desproporcionais, também quase completamente engolidas pelo mato. Era a confirmação de que havíamos chegado em Mosfrágum, um lugar que desconhecia os motivos das iras naturais, e que, engolido por elas, permaneceu estático; os animais camuflados pelos troncos, alguns opacos e dispersos como pedras – trocados de lugar pela vaidade gramínea.

Mosfrágum passou cortando todos os olhos, que mesmo vidrados pela catástofe curiosa, sua presença arfava sombria. A vista nos fez chegar ao fim daquela cidade com a alma gasta, exaustos. Era ali a cidade mais próxima da fronteira. Chamava-se Julão, apenas, uma cidade enferrujada. As casas pareciam perdidas no tempo, assim como o chão que acumulava histórias de faroestes, o que justificava o fato de todas as ruas formarem diagonais compridas, cheias de desvios entre ruelas e cachorros abandonados no meio das ventanias de areia que ora ou outra surgiam.

O lugar espantava a tranquilidade e nossa noite acumulou pesadelos em todas as cabeças. Curioso mesmo foi juntar as histórias e perceber que, misteriosamente, encaixadas faziam uma saga única de um tal rapaz que, montado num cavalo negro, apresentava-se como Craustin, cavalgando pelas ruas de Julão até o fim da cidade, onde lançava três disparos para o céu com a sombra das árvores malhando o rosto sisudo. Os homens da cidade explicaram ser ele o protetor da região que por muitos anos se apresentava em sonho aos viajantes atraídos pelas fronteiras mais vivas do Sul. Alguns deixavam presentes na praça; chapéus, esporas, charutos e botas pareciam brotar do solo com as raízes ainda firmes na terra. Escutamos vazios de respostas, os pulmões arrepiaram quando sentimos a ventania de areia mais uma vez espirrar em nossos olhos.

Mais 423km e chegaríamos na fronteira. Seguimos logo pela manhã com a ansiedade já salivando o momento. E recebidos pelo túnel de eucaliptos, cruzamos uma cidade confusa de nome, língua e povo. As casas trocavam as telhas e costumes; plantas decoravam uma vegetação já exclamando aspas estrangeiras; as enormes plantações que desenhavam as beiradas da estrada comprovavam presença e cuidado humano. Grandes piscinas naturais surgiam ao longe emolduradas por oratórios de pinheiros. Faziam ali o desfecho triunfal daquela terra em despedida.

Já avistávamos uma dobra singela na paisagem separando verdes de outros verdes. Agitava o peito, e perto demais do crível nos infiltramos nas fronteiras vivas, ali respirando pelas bocas do vento, deitadas ao lado do sono manso das vias, rasgadas pelas rodas, decoradas pela audácia grudada em nossos peitos. A mudez do sorriso de cada um sublimou a descoberta fronteiriça ali viva, afastada e firme em sua imensidão que tocava as beiradas de cada terra em silêncio, pulsando aquilo que ferve quando o momento encontra, embasbacado, a descoberta.


Foto: Luiza Rezende.

 

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