BipReverbe
18/03/2015
por Luiza Rezende
Categorias: Crônica
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Bip, Bip

Bip, Bip

Bernardo Feitosa nos lembra da importância de abrir aquele espaço saudável à nossa sensibilidade para que os infinitos ângulos de possibilidades interpretativas de cada acontecimento - por vezes em lugares improváveis - nos acorde com suas mais sinceras miudezas. É preciso estar sempre de olhos abertos para os encantos dos segundos - e que assim surjam as melhores narrativas. - Luiza Rezende

“Isso aqui é um bar de boêmio, mas, acima de tudo, é um bar social”.

Quando o assunto é Rio de Janeiro, posso afirmar categoricamente que existem duas funções que exigem enorme responsabilidade: exercer um cargo público e escrever sobre algum bar dessa cidade. Sim, mais do que TER um, dissertar, informar ou avaliar um bar requer pesquisa, frequência e, mais do que tudo, imparcialidade. Por se tratar de um local sagrado para muitos, bares são palcos de emoções, histórias e, para alguns de seus frequentadores, territórios de uma fidelidade ímpar, dessa que deixaria muitos líderes religiosos com inveja.

Sempre que vou a um bar costumo relevar alguns quesitos e fatores que no final de tudo, serão transformados em uma “rigorosa” avaliação final. O ponto de partida não poderia ser outro senãoa temperatura da cerveja. Em segundo lugar coloco o atendimento. Por último o ambiente. Pois é o Bip-Bip o lugar onde, por mais que tudo conspire contra, você encontra tudo isso. E é exatamente isso que faz de lá um local tão incrível e singular.

É com a frase do título que começamos a falar sobre esse santuário. Localizado em um dos muitos corações de Copacabana – RJ, o bar foi fundado em 1969 e conta com várias particularidades. Em primeiro lugar vale citar a pluralidade de nacionalidades ali presente. Não se espante se em uma quarta-feira de samba você se sentir em uma legítima Torre de Babel, dividindo mesas com pessoas que podem vir da vizinha Argentina ou da longínqua Escócia. Todos – sem exceção! – ficam boquiabertos com a qualidade musical, o clima familiar e ambiente inigualável.

Pode-se dizer que uma ida ao Bip-Bip exige sentidos aguçadíssimos. Sim, começando pelo mais necessário deles: a audição. Com músicos tocando e cantando sem auxílio de amplificadores e microfones, sentir cada uma das notas e partituras entrando de maneira doce nos ouvidos exige grande habilidade, ainda que o silêncio dos espectadores seja garantido pelo Alfredinho (calma, eu ainda chego nele). Entenda que podem ser cantores da nova geração do samba carioca ou simplesmente o Milton Nascimento, que resolveu “dar uma passadinha por lá”.

Um outro ponto fundamental está na riqueza de cada um dos detalhes da decoração. De fotos históricas a camisetas expostas para serem vendidas, cada elemento é capaz de despertar o charme de um Rio que não existe mais ao espectador.

Sendo assim, aí vai uma dica: olhos bem abertos!

Por fim, falamos sobre aquele que talvez seja o mais importante deles, literal e metaforicamente falando: o tato. Imagine que você está em um bar e, por um minutinho de distração, fale um pouco mais alto com o seu amigo. Normal, certo? Não se você estiver dividindo o mesmo espaço que o Alfredinho, o dono do bar. Se você tiver a sorte dele não escutar esse “disparate”, agradeça ao Deus dono da sua devoção e não repita mais essa atitude. Mas se ele ouvir, se prepare para uma demonstração do mau-humor quase caricato de uma entidade do samba carioca, traduzido em um discurso de aproximadamente 3 minutos, explicando que ali é bar para escutar samba e dedicar respeito aos músicos. Metaforicamente falando, é ou não é mais do que necessária toda a sensibilidade do mundo em uma situação como essa? Mas não se assuste, pois não passa de pura fachada. Mais certos que os esporros de Alfredinho, são os abraços dados no Alfredinho; adorado por clientes, músicos, trabalhadores da reciclagem e tantos outros. Ah, claro! Sobre a parte literal, lembre-se de treinar o seu tato indo até o freezer para buscar a sua própria cerveja gelada, já que no “Bip” (carinhoso apelido usado pelos frequentadores) é você quem busca sua própria lata.

Quando fui indicado por amigos e cheguei pela primeira vez ao bar, me lembro de ter sido tomado por uma sensação de conforto e acolhimento. Nunca entendi ou procurei entender o real motivo de me sentir tão bem. Hoje, depois de tantas idas, posso dizer, inspirado no tratamento recebido pelo Alfredinho e por boa parte dos seus frequentadores: o Bip-Bip é um abraço.

Foto: Luciana Pereira

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