Pode tocar na obra

A ideia de digital pode ser atrelada aos grandes eventos de inovação, tanto tecnológicos quanto sociais, comportamentais e por aí vai. Tudo que conhecemos pela natureza de suas formas, peso e lugar vem se configurando para uma existência menos palpável, em um processo de reorganização de suas “funções” e presença em nosso cotidiano. Já falamos sobre isso no post Entre triângulos e planos há algum tempo, porém retomar o assunto hoje é, de alguma forma, relembrar onde estávamos naquele momento e onde estamos agora: com novas questões sobre lugar e tempo. Esse tempo que construímos ao mesmo tempo em que vivemos.

Começo esse texto considerando alguns pontos, e acredito que você já tenha se deparado com essas questões ou escutado por aí algumas indagações neste sentido, mas de toda forma, tento, mesmo que sutilmente, encostar no último fio da meada e retomar a discussão sobre o que está acontecendo com os meios de produção de conteúdo. Digo conteúdo como algo não restritamente escrito, mas todas as cifras que o tempo exapta para contar sua história.

É evidente que os filmes, fotos, teatros, músicas e livros não são mais os mesmos. Talvez, nós também não sejamos mais como antes, talvez a forma que processamos o conteúdo tenha alterado em sua formação genética para algo híbrido, trans, que solicita novas fronteiras do existir. Dessa maneira, a reflexão que pede uma observação honesta dos nossos atos pode dar dicas do que está acontecendo com a natureza dos objetos que nos cercam. Como, por exemplo, o ingresso do cinema ou a música nos celulares.

Um outro exemplo dessa reconfiguração é a produção de filmes que vão além das críticas construídas. Para os novos filmes que se propõem a investigar a maneira de narrar não-histórias que não sejam mais interpretadas por atores, mas sim a construção de obras, vetores particulares únicos que utilizam dos suportes convencionais para deslocar seus atos em busca de outras consequências. Outro ponto de vista pode ser o uso dos livros digitais, que estão inaugurando outros lugares do imaginativo. Onde os recursos, que a cada dia abrem espaço para novas APIs, alteram como mutações a sua construção literária. Não mais desejamos estar nos mesmos lugares cognitivos do passado, é possível explorar novos campos da imaginação, é possível pensar algo que jamais pensaríamos antes na relação com o conteúdo. O poder dessa forma de pensar é de tal proporção que nos permite repensar em como construir outras formas de existência ao defender ideias e apresentar pontos, transitando por configurações e funções objetivas e subjetivas do conhecimento. Nada mais do que a convergência de texto, som, imagem, vídeo e toque em sua forma ampliada de existir.

O desbravar de outros espaços também implica em novas responsabilidades e novos saberes, mas mais do que isso, representa o reconhecer nossa trajetória não linear na construção de nós mesmos. Assim, abre um discurso sobre tecnologias digitais e seus recursos, e também a capacidade “horizontalizante” que temos em mãos. Talvez o exercício de construírmos esse lugar seja o mesmo de olharmos nosso entorno em busca de respostas que nos potencializem em mais propostas e consciências do devir.

 


 

Foto: Diego Mere; Obra da série Transparentes Brancos de Christiano Mere

 

Subjetivação da rampa

Impondo-se sobe as águas, o MAC flutua como quem procura novos ares. Se enche do novo a cada movimento. Movimento esse que traça a partir dos nossos olhos em um caminhar sinuoso e quase circular as suas formas e espaços, encontrando assim outro ponto de vista mais carregado de surpresa, que faz presente seu domínio (território) e, no mesmo instante, a abrangência de quem não possui fronteiras. Assim, expande a ideia de presença e sua ubiqüidade no recorte, uma estrutura que se faz física e metafísica em nossa subjetividade.

Discutir sobre suas formas e sua construção é perceber suas relações e provocações mais básicas com o espaço. Porém, é na rampa que Niemeyer concentra grande parte da força de subjetivação que a estrutura impregna no entorno. Não é correto de nossa parte precisar que esse seja um discurso de concepção, mas que de fato as estruturas nos levam a perceber questões, isso não podemos negar. A rampa, que a grosso modo nos leva para entrar no “raio” do museu, guarda em suas curvas questões muito interessantes.

Ao figurar a rampa como sujeito que nos conduz ao movimento de zig-zag, percorremos a distância não objetiva entre o pátio e a entrada, em círculos ascendentes que nos levam ao ponto de acesso. Os movimentos revelam novos olhares sobre as estruturas do prédio, quando do seu entorno sugere que a relação com a cidade não está somente no branco de suas paredes, nem com o negro espelhado dos vidros, mas sim com o momento presente do MAC e a sua capacidade subliminar de se situar no contemporâneo. Ao perceber que não percorremos a menor distância entre a entrada e o pátio, a seguinte pergunta se constrói: quando e onde começa a experiência de chegada?

Com os olhos atentos as formas, é possível perceber que da grade até a rampa colocamos de volta o questionamento se aquele é de fato o início. Logo, a questão sobre a ladeira da rua até a grade já faz parte de uma construção estrutural que flutua acima do horizonte, e que essa ladeira se apresenta como uma rocha abrupta em meio a beira da baía e, então podemos nos afastar até tudo se tornar memória, fazendo o MAC não mais ser figurado e sim lembrado enquanto essência. Assim, o começo está quando decidimos ir. Perceber que a trajetória do zig-zag está relacionada com a resiliência da memória que transita sobre o tempo em busca de novos significados agindo como um desfoque nas fronteiras do estar, chegar e conhecer.

Essa é uma obra que habita e se ergue na memória, e, acima de tudo, convida a olhar para a escuridão do tempo presente, que propõe transitar novamente em um vai-e-vem expandindo os limites para onde estivermos seguindo. Transformar a rampa em um sujeito criador sobre a sombra do presente é também ser tragado por ela em um movimento de vestir, unir-se-á na palavra contemporâneo propondo um refúgio para a construção de um futuro desconhecido, tal como a cidade que a observa e escreve sua história no esforço da retomada de ar necessária após a subida. Desse modo, a forma de taça brinda a rampa em um encontro harmônico estrutural.


Foto Diego Mere

 

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