Obras e códigos

Um pouco depois do evento, conversei com o Christiano e com a Laura sobre os pedidos para que divulgasse a bibliografia da palestra que apresentei no segundo encontro do grupo de estudos sobre processo criativo na Biblioteca Pública de Niterói, dia 8/8. Como foram de fato muitos autores, alguns com a intenção de destacar seus comentários teóricos e outros pelos seus trabalhos literários, decidimos compartilhar a lista de autores e obras através deste post.

Fiz uma divisão deste modo: primeiro os autores cujas teorias foram discutidas, depois outro grupo com aqueles que desenvolveram obras voltadas para suas experiências durante o processo criativo, e, por fim, um terceiro grupo com autores que nos serviram de exemplos literários.

Separei em três tópicos essa bibliografia, considerando que apresentei apenas os nomes dos autores do grupo de literatura para que façam seus próprios percursos dentro da obra de cada um.

 

Autores (teoria):

Tzvetan Todorov – Introdução à Literatura Fantástica;

Jean-Paul Sartre – Situações I – Críticas Literárias;

Fayga Ostrower – Criatividade e Processo de Criação;

Vilém Flusser – O Mundo Codificado;

Mikhail Bakhtin – Estética da Criação Verbal;

Roland Barthes – O Rumor da Língua (discutimos o texto “A Morte do Autor”);

Paul Valéry – Variedades (discutimos o ensaio “Poesia e Pensamento Abstrato”).

 

Autores e o processo criativo:

Rainer Maria Rilke – Cartas a um jovem poeta;

Virginia Woolf – Um teto todo seu;

James Joyce – Retrato do artista quando jovem;

Henry Miller – A sabedoria do coração (discutimos o texto “Reflexões sobre a arte de escrever”).

 

Autores (literatura):

E. T. A. Hoffmann;

Nikolai Gogol;

Edgar Allan Poe;

Henry James;

Fiódor Dostoiévski;

Gabriel García Marquez;

Mia Couto;

Jorge Luis Borges;

Julio Cortázar;

Machado de Assis;

Murilo Rubião;

Carlos Trigueiro;

Guimarães Rosa;

José Cândido de Carvalho;

Manoel de Barros.

 

Então, lembrando que refletimos os caminhos da literatura fantástica, o que evidenciei com os autores, romances, contos e novelas mencionados. Mas chegamos também em assuntos que apontam para teorias literárias, além dos processos criativos de autores que pouco se limitam ao gênero fantástico.

Que estas leituras abram seus olhares para novas percepções dos códigos.

Dia Nacional do Escritor

Sina soez

Que sorte a dele. Com aqueles olhos suplicando um cinza remexido pelos dias do ano. Velho, pesado dentro daquele corpo que dizia muita coisa sem que soubesse as conjunções apropriadas. Um homem manchado em sua cor de terra, os cabelos afetados pelos pronomes do giz. Passou a vida toda olhando as ondas daquela baía, desmanchando seu tempo num banco que lhe dava algumas poucas histórias para ler no mundo. Sorte, pode-se dizer. Que prazer este senhor deve ter de tocar a comida com pouco caso, porque é a mesma de ontem e de dez anos atrás, feita em sua própria cozinha. Sentia o paladar de qualquer jeito, sem que tivesse o desprazer de comer ovos querendo algo mais enriquecido; se soubesse entender a palavra “enriquecido”, ao menos.

Andava pela praça, de tarde, falando pouca coisa aos vizinhos, ignorando as estruturas programadas daqueles padrões dos últimos dias: coisas sobre gastar dinheiro, ter uma profissão, uma avidez por conhecer algum outro país que não aquele de insultos políticos e morais onde vivia. Mas tinha sorte, não entendia dessas coisas. Apenas lhe agradava o costume de ver a tarde nadar pelas cores e dominar as próprias despedidas. Via isso mesmo; era poeta no estômago. Sentia calafrios toda vez que percebia o sol esbarrar numa nuvem mais clara, manchando umas tintas vermelhas com outras azuis. Gostava quando era espontâneo o momento de um pescador jogar uma rede ao mesmo tempo que os pássaros voejavam juntos do asfalto para o céu, mexendo com as estruturas do dia contado por horas. Via os esforços de uma vida entre seus pés dentro daquelas formigas espremidas sob as folhas que arrastavam. Sorria para o molejo dos barcos, apertando os dedos contra o fígado que doía todos os dias no mesmo horário, às duas e quarenta e sete. Piorava se fosse terça, que era dia mais bonito. Se chovesse, o velho abria a janela de casa e ficava de lá mesmo, revirando os olhos para o retrato empoeirado da senhora de branco. Eram belezas equivalentes, todas fenecidas ao fim do dia, despedidas para que houvesse validez no sustento do tempo e das coisas que nele se perdem e morrem. Lembrou ainda daquele seu cachorro, um homem forte – era um homem aquele cachorro – que certa vez salvou um rapaz das maldades de outro homem – esse sim era bicho – que ninguém sabia de onde havia chegado, mas que havia vindo pra furar a prosperidade de uma gente boa que tentava viver por ali quase que escondida. Justo naquele bairro, que nem a chuva fazia maldade. Mas era sortudo o homem. Tinha ternura nas águas dentro da vista, e nem dava importância aos problemas. Os poucos dentes que resistiram às cachaças ainda abriam uma graça ou outra pelos sorrisos. Isso quando ria, que era mais difícil a cada mês. Lembrava talvez com mais ternura que todas as demais lembranças do nascimento daquele filho de cabeça chata e olhos de jabuticaba, como os da moça no retrato. E toda vez que o mar remexia quando alongava as horas no banco da rua, emergia na memória aquele parto que vasculhou o canto apertado de sua mulher. Foram vinte horas de agonia. O dia que o cinza de seus olhos empalideceram, assim como a pele daquela dama de branco, da mesma fotografia, mulher e dona do filho ali vivo, diferente dela. Um ano difícil foi aquele, perdido entre os papéis que foram muitos, mais do que todos os outros. E não sabia mais se aquela recordação era triste ou feliz, mas nunca a perdia pelos escombros sujos do cérebro. Ficava sempre ali provocando os dias calmos.

Criou o menino no meio de peixe e saveiro. Ele gostava de catar os tatuís das praias, e aprendeu cedo a fazer nós complicados daquele pescadores obcecados pela maresia. Mas aprendeu por aprender, porque fazia pouco de pescar como os outros. Gostava mesmo do chão, de fazer correr carrinhos de rolimã e de catar sucata pra montar objetos de mentira. Uma vez inventou um telefone com um pedaço de tubo velho que haviam descartado e alguns cadarços esquecidos na gaveta. Passava o dia todo falando no instrumento de mentira. O pai achava graça, pensava que aquilo dizia alguma felicidade sobre o futuro daquele cabeça chata com olhos frutíferos. Até deu frutos; mas levou com ele. Aos dezoito o menino, diferente dele, sentiu a coceira de olhar a vida pelo outro lado da terra. Mudou-se para uma cidade cujo nome pouco fazia diferença e nunca mais deu sinal de respirar, nem mesmo pelo telefone. Mas tinha sorte o homem, porque aquilo lhe parecia ser coisa comum de acontecer. Filho, quando vira gente, deixa de ter apegos e vai embora mesmo…que esteja com a vida boa, a barriga cheia e acompanhado por alguma mulher que tire de si uns filhos; mais de quatro, pensava, mais do que aquele único que ele teve e não tinha mais. Só que pouco lhe apertava o peito toda essa história, e preferia desse jeito, embora o silêncio da tristeza operasse em si como um gás danoso que se espalha sem que seja visto, cobrindo o seu corpo com uma cor azulada de quem morre ainda vivo. Percebeu durante um dos campeonatos de damas na praça que estava surdo de um pulmão; sentia ainda, por vezes, uns músculos dos olhos remexerem com ansiedade, e acostumou-se com aquela secura falando na boca. A crise maior foi quando chegou no bairro um pipoqueiro que lia as verdades do futuro nos caminhos de restos de milho. Era um homem simples,  acumulando idade pelos cabelos brancos. Tinha a coluna curvada e um nariz saliente que lhe ofereciam propriedade e aparência de mago, vidente entre as sobras de milho e sal. Ficava na mesma praça do campeonato, e fazia pouco tempo desde que havia chegado quando inquietou a concentração dos homens naquele dia. Ofereceu um pequeno pacote a cada um e disse que levassem para que ele lesse as migalhas depois. Não pareceu ser muita coisa o que disse aos demais jogadores, ou talvez tenha sido a sensibilidade daquelas recorrentes poesias no estômago do velho que fez com que vibrasse mais do que as demais aquela história que o pipoqueiro leu em seus vestígios: disse ver uma sorte intocada, mas não intocada de prosperidade, e sim por jamais ter sido descoberta, como um presente que nunca foi aberto. O milho sozinho circulado pelo rastro de sal é excesso de mudez, e os restos nessa mancha maior de gordura são desperdícios da sorte: o que sua boca não diz e sua mente não pensa viram calos nos nervos, estalos no fígado e essa silenciosa morte do coração. Depois desse dia que as rugas do velho se esticaram da testa até as orelhas e suas mãos passaram a tremer mesmo depois do frio. Ficava repetindo a si mesmo aquela predição que parecia invalidar o pouco caso que dava para os percursos do futuro. Não entendia muito dessas coisas enigmáticas, mas era verdade que o peito doída mais com o passar dos aniversários que chagavam a contragosto.

Também contra a sua vontade chegou aquele mês frio que fez a dor piorar e se despedir do seu banco de sempre até o hospital público. Sentia lá dentro que a dor parecia encontrar seu bafejo e doer mais ainda. O velho chegou apontando de onde vinham as agulhadas para um enfermeiro que pouco ligou e mandou que sentasse. Por falta de mar para olhar e desconforto do assento, distraiu-se contando o tempo espalhado no relógio da parede; passava em círculos como aquelas voltas que a brisa dava na sujeira das folhas no chão da rua. As horas chegavam acompanhadas por pessoas diferentes; crianças aos prantos e outros velhos que, como ele, chegavam sozinhos segurando as dores por debaixo da roupa, como se pudessem tocar suas partes mais ocultas. E foi naquela reflexão sobre dores encafuadas que se deu conta da vigésima hora de espera. O número chegava já abrasando suas lembranças com a força daquelas pontadas no peito, e junto com elas o chamado do médico. Pelo o exame dos olhos, boca, nariz e joelhos, o doutor interpretava o que diziam as escrituras do seu corpo. Você tem insipiência, desgraça que reflete no coração. Precisa ficar de repouso por alguns dias, comer bem e mastigar melhor os acontecimentos, e leve esse remédio aqui. Mas tinha a sorte de pouco entender de doenças. Nem sabia o que significava aquela, o que fez com que desse pouca importância; até porque se fosse doença de matar, não teria levantado com tanta rapidez. Ordenou os dias seguintes no repouso indicado, comendo cumbucas fundas de feijão preto e tomando o tal remédio. O complicado foi mastigar acontecimentos, já que não sabia como fazer aquilo e tampouco quis perguntar como era. Parecia difícil. Pensou que talvez fosse pra refletir sobre o desperdício da sorte contada pelo pipoqueiro, ou que pudesse ter alguma coisa a ver com a poética do seu estômago. Só que não lhe parecia ter muito o que mastigar, somente a vista de sempre, com a quitanda estendendo as caixas de fruta do lado de fora pela manhã, umas crianças correndo entre as amendoeiras, os jogadores de damas em suas posições de sempre. Decidiu ir para o seu banco e refletir durante o cheiro de marisco preparado ali na areia mesmo pelos pescadores. Por vezes o silêncio era invadido por risadas de passantes, e junto com eles o velho observava a chegada dos cachorros de rua manchados de solidão nas patas, vagando entre um carinho ou outro que garantisse a sonolência do dia. O velho se deu conta da poesia no pensamento que logo culpou o estômago, percebendo a chegada das dores que lhe diziam sobre ser refugado no mundo, o que pouco dava importância antes. E pela primeira vez, depois de anos de olhos jogados pelo marasmo da baía, sentiu dentro de si uma tempestade que alagou seu corpo todo, fazendo vazar água de seus olhos. Curvou-se no banco e ali despencou as vinte horas, os olhos de fruta, o homem em forma de cão. A madeira do banco exalava um cheiro adocicado pela água que dele escorria. Madrugou ali mesmo, naquele dia em que seus olhos cinza pálidos murcharam nos cantos, doendo a forma com manchas vermelhas que nunca mais deixaram aqueles contornos rentes aos cílios.

A claridade da manhã foi tomando seu rosto como um despertador barulhento. Chegavam ainda algumas vozes por perto. Uma menina mostrava à mãe o que havia encontrado pela rua: uma lagartixa que, para a sua professora, significava sorte. Para mãe pouco importava as simbologias daquele bicho, achava nojento de qualquer modo. Larga, menina! Tem coisa mais bonita que dá mais sorte do que isso aí. O velho só ouviu a palavra sorte, encarando a criatura deixada pela menina na calçada logo em frente ao banco. Foi então que sua memória trabalhou algo mais que as ruínas de sempre, remontando a frase sombria daquele pipoqueiro que disse sobre sorte intocada e nunca descoberta. Sentiu-se descobrindo-a; nunca pensou que seria capaz de ver aquilo com seus próprios olhos, um acontecimento que de jeito algum lhe coube entre os sonhos mais profundos, nem quando o estômago decantava versinhos. Prolongando mais ainda os conselhos dos últimos dias, deparou-se com a recomendação do médico para que mastigasse melhor os acontecimentos, e sentiu compreender o que deveria fazer agora. Catou o bicho do chão e ali mesmo o enfiou na boca. Sentiu a textura gelatinosa e fria da criatura vasculhar a mucosa de sua boca buscando uma saída dentro daquele breu, agitava suas patas contra as bochechas do velho, mordiscando o céu de sua boca como se tentasse furar a coragem do predador com vigor de onça. Mas o velho mastigou e mastigou com a intensidade da prescrição recomendada. E logo o bicho virou massa pastosa, coisa que fez a fome se dar conta de estar afoita. Engoliu com gosto, pensando ser a sorte elixir que se absorve pelo esôfago, matéria que se instala por dentro e ali vibra pelo tempo de todos os demais estados. Confortava-se com a ideia de ter garantido a sua sorte por dentro, o que durou alguns minutos até que sentisse o estômago revirar suas poesias, desta vez perambulando o desfalecimento das criaturas, falando sobre morte, a dama de branco, os olhos perpetuamente fechados. O velho sentia pulsar os desbraves daquela dor revistando sua história como se houvesse ali coisa bonita de se poetizar. Foi então que teve o despropósito de pensar na relação dos acontecimentos: havia matado a sorte pelos dentes, assim como as entranhas mataram a dama, e os homens matavam outros homens pelos cursos. Havia matado para tornar seu o que se pega emprestado do mundo, assim como se estraga água e se quebra a terra. Era sorte, mas estava morta, assim como tudo aquilo que fazia pouco caso de entender, mas, por um descuido, naquele momento entendia. Levantou-se trêmulo, parecendo visualizar aqueles desastres bem diante de si, estudando a crueldade dos fatos como se fosse história nova, nunca antes acontecida. Mas tinha sorte o homem, porque aquilo lhe parecia ser coisa da imaginação – podia até ser delírio. Ninguém mandou logo ele pensar demais. Comi a sorte, e daí? Outro descuido. As bondades do mundo duram o tempo de um grito. Pouco pensou pelo resto do dia, preferindo dormir já em sua casa. O dia seguinte era de campeonato de damas. Os homens arrumavam as peças quando o velho ouviu a voz do pipoqueiro sussurrar dentro do seu ouvido algo sobre a sorte que deveria encontrar. Foi então que suspirou, infiltrado em seu desperdício: a sorte está dentro de mim, só que morreu, porque o médico mandou mastigar bem e eu mastiguei.


Foto: Luiza Rezende

Um fenômeno chamado G.T.

Nem mesmo entre os armários da cozinha; no vão entre a poltrona e o sofá da sala; entre os cantos escuros dos azulejos do banheiro; pelas diversas gavetas da estante no escritório; dentro do emaranhado dos pêlos do cachorro; na dispensa, encolhido entre os sacos de feijão e farinha. Nada. Não estava nem onde poderia estar caso tivesse perdido pelo caminho de chegada em casa. Uns quatro passos após a porta de entrada, mais uns cinco até a cozinha, entre a geladeira e a pia, outro mais até a mesa de jantar. Havia sumido. Sentia a falta a qualquer momento asfixiando seu vocabulário sem que houvesse algo a ser feito. Seu início estava desaparecido, foragido sem que soubesse como fá-lo retornar. Evaporado entre as palavras, aquela letra seria um buraco exclamando para sempre uma ausência nas suas escrituras.

E mais do que isso! – um desespero lhe assustou o pulmão – justo com ela, professora de português há tantos anos contados por suas rugas. Alfabetizara muitos quando nova, as palavras frescas brotando entre seus galhos novos. Sentia a força das frases, a intensidade dos adjetivos. Tinha orgulho de trabalhar com os ornamentos do que se quer dizer. Mais adiante, lecionara para colégios exigentes, insistindo no bem entender dos versos alexandrinos que dizia Machado. E depois, no desmembramento das formas pelo bem da poética e dos instintos, foi que chegou a professora universitária, efetuando aulas meticulosas para se compreender a importância de cada letra expressiva nas palavras distribuídas pelos textos. E justo com ela aquele descuido.

Aconteceu logo naquela tarde, ou pelo menos foi quando se deu conta do tal sumiço. Fumava sentada no sofá com seu cachorro deitado no chão ao seu lado, mirando ela vez ou outra para verificar sua total concentração naquele livro chamado Dicionário. Rabiscava algumas notas num papel solto, e por vezes parava a leitura para dar mais um trago longo e mirar o que diziam as imagens na televisão configurada para o mudo. E novamente se preparava para voltar à leitura das palavras iniciadas por “C”, quando sentiu a luz se apequenar com lentidão até findar-se num estalo oco que parecia vir das quenturas das lâmpadas. Queimaram pela segunda vez naquela semana. Todas juntas, desgraça! Sentiu o breu estranhamente lhe invadir o escuro interno, parecendo farejar algo, não sabia exatamente o quê. Poderia também ser coisa da sua cabeça, um medo do escuro que por vezes a gente descobre. Trocou as lâmpadas queimadas e logo tudo estava iluminado. Seguiu, então, a leitura novamente pela letra “C”; foi quando viu a palavra adiante fatalmente descuidada, tremelicando um vazio pelas sílabas. Estava escrito “c b n ” onde deveria ser “cabana”, aquela ela já havia passado os olhos. Mais abaixo leu “c beç ” onde antes estava “cabeça”. Eram os “ás” – todos eles haviam sumido. Revirou as páginas do dicionário e nada via. O “a” havia sumido como se precisasse apenas de segundos para se extinguir, como se nunca tivesse existido. Mas ele estava logo ali um pouco antes, certeza que os vira. Não, não conseguia organizar os pensamentos. Um dicionário sem “a”; quanto descuido!

Preferia não insistir naquela confusão e foi até o banheiro jogar uma água no rosto, talvez escovar os dentes e se manter acordada, até porque podia ser o sono ou coisa do tipo. Mas ao pegar a escova no armário escondido detrás do espelho, desequilibrou-se acometida pela surpresa. Ali também havia espaços frios pelas palavras: ” gu  boric d ” ; “P st  de dente”; “S bonete”. O que será que tinha acontecido com a letra “a”? Silenciosa, refletindo a composição das palavras que avistava pelo caminho, destrinchando a morfologia do que sabia compreender do complexo português, foi percebendo que estava diante de um fenômeno raro que poucas vezes ouviu falar e jamais havia presenciado. Tratava-se do fenômeno de G.T., em que uma determinada letra parece sumir do vocabulário da pessoa, atingindo não somente os olhos, que não são mais capazes de a enxergar, mas voz, audição e escrita. Ainda que exista e que saiba da sua existência, o Fenômeno de G.T –  abreviação de Gira Trunco – impossibilita o contato da pessoa com aquela letra. Os casos mais frequentes acontecem com uma vogal, que deverá ser para sempre esquecida pelo vocabulário de quem outrora a conheceu. Identificando o caso, sentou-se no sofá fatigada. Seria o suficiente acomodar-se àquele “tarde demais” que a mente insistia? Talvez existisse um “a” ali num canto qualquer, como que caído pelo esquecimento de seus bolsos pequenos. Talvez o encontrasse. Nada teria a perder se ao menos vasculhasse os segredos daquele apartamento.

E não havia frase que dissesse qualquer auxílio para encontrar aquele “a”. Pela casa não estava, e o perdia mais ainda de seus últimos resquícios quando avistava as palavras tremelicando seus defeitos nos papéis distribuídos pela mesa. E, invadida por um descuido do desespero, seguiu até sua estante bufando o medo que permitia ser acomodado em suas têmporas, suando o calor daquele dia incomum e de poucas palavras. Jogava os livros no chão assim que percebia não existir um “a” sequer nem nos títulos, nem nas folhas de rosto. Por toda parte, nada restava daquela letra inaugural, da vogal que faz nascer as delongas do que se diz de mais simplório, de onomatopéia a substantivo. Suplicava a cada folha, gemia, insistia na possível forma daquele “a” escondido, talvez de cabeça para baixo, talvez entre uma folha e outra ou, isso!, na brochura! Mas nem que rasgasse todos aqueles livros o encontraria. Qualquer que fosse o “a”, ele estava tão perdido quanto o tempo contava novos minutos, que, prolongando-se, iam desabrochando novos efeitos daquele ruído G.T.. Foi o que compreendeu assim que arriscou um berro. Forçava gritar um “ahhhhhh” que expelisse de si o assombro daqueles instantes, mas tampouco isso. Já não conseguia dizer mais a letra nem que a infiltrasse secretamente entre os fonemas. Nada saía. Quando tentava, surgia sobre o som do que dizia um silêncio bizarro que parecia uma surdez momentânea, e logo em seguida compreendia os sons dos “vês”, “gês” e “erres”. O som piscava algumas palavras sem sentido. Teria que se readaptar ao que ouvia; acostumar-se a deduzir antes mesmo da palavra ser dita que, dentro dela, um “a” surdo se escondia. Inquietava-se. Por que com ela? Buliçosa por letras e palavras, pela construção e desconstrução do que se conta. Logo ela, amante do que diz e faz dizer. Perdia uma parte do que definia seus propósitos, um pedaço daquilo que queria ao menos ter a possibilidade de expressar.

E se escrevesse!? Supôs no pensamento entravado pela dúvida. Era uma possibilidade. Talvez redigido conseguiria avistar a vogal pela última vez. Poderia se despedir de seus contornos, ao menos. Olhava o tempo prevendo a morte quase completa daquele “a” que já pouco existia dentro dela, ainda que insistisse em rabiscar futuras esperanças. Suas mãos tremiam contra o papel, a caneta frouxa fazia riscos deslizando pelos dedos suados. Aquela era a sua última esperança. Augurava um “a” que fosse, ao menos um que a fizesse alumbrar o arrojo daquela letra que alenta alvores e adventos, ao menos um “a” que lhe acalmasse a angústia, a ausência do que jamais algum dia havia atentado o afastamento ou admitido o aniquilamento assim tão áspero e acabrunhado. Foi testando a caneta no papel, fez umas letras, uns rabiscos e pensou na própria assinatura – seu nome tinha o que procurava. Muito bem, escreveria Ágata na rapidez de sempre. Faria o primeiro “a” comprido, esbarrando nas linhas debaixo, do jeito que ficava mais bonito. Isso, faria assim. E fechou os olhos e fez. A assinatura durou o tempo habitual, já acostumado com o movimento da caneta. Sentia-se mais calma. Talvez não sofresse todos os sintomas. Este, ao menos, lhe parecia intacto. Sorria pelas mãos, pelos dedos dançando o trajeto do nome, divagava sobre a possibilidade de dar um jeito naquilo tudo. Abriu os olhos tranquila até ler seu nome com vazios decorados, o papel dizendo apenas ” g t ” no lugar de Ágata. G.T.. Lia e relia; não conseguia desgrudar os olhos arregalados da coincidência de possuir em seu nome, e desde sempre, o tal fenômeno engolidor de vogais. Transformara-se, chamaria-se G.T., um nome obtuso de forma e sentido. Não seria mais ela. Atestando o fato, faltou-lhe voz, sentiu a cabeça girar com dores agudas que apagavam suas esperanças uma por uma como velas equilibradas em seus instintos. Encolheu o corpo sobre a cadeira e chorou durante um tempo prolongado pelas conjunções imperfeitas.

Foi tomada pelo desespero sem que houvesse outro rumo. Compreendia o seu destino de ser incapaz de dizer o que lhe falam os “ás”. Nenhum mais. Sem que ao menos pudesse entender o que falaria o “a” dos outros. E seria complicado demais reformular uma maneira de ler, ouvir, dizer. Nada faria muito sentido nem mesmo aos artigos. Muito menos em suas aulas, ou nos textos lidos. Aposentaria, por certo; não haveria o que fazer senão isto. Teria que pensar em algo que a deixasse em funções mudas. Talvez uma produtora de dobraduras, pintora de insetos ou jardineira nas casas de pedra. Sentia-se pressionada por tantos pensamentos e tantos por vezes isentos de “ás”, o que lhe obrigava a revisar tudo que refletia diversas vezes, num processo novo e já cansativo. Estava tão angustiada com toda aquela mudança repentina que transformava seus morfemas e formigava em sua pele uma sensação de esquecimento das devidas pontuações. A solidão chegava em passos discretos, como nunca antes havia chegado. Pelo silêncio daquela deformação, a professora G.T. sentia invadir o que bem queria dizer, reprimindo não somente seus “ás” mas tudo aquilo que dizia ela ao seu redor, como os cômodos, móveis, plantas, luz. E pouco a pouco não sobrou um “a” sequer; pouco   pouco n o foi existindo m is um jeito de dizer seus intentos, seus entendimentos, n d . Tornou-se um descuido no meio de t ntos furos nos dizeres. Desisti , n o f l v  q se n d  j . Est v  t o  b tid  por n o  comp nh r  s t lh s  bob lh d s d s p l vr s que surgiu em si um silêncio revestido pelos prenúncios d  mudez, onde repousou seus chi dos pelos verbos seguintes.

10 de junho, Dia Internacional da Língua Portuguesa

Um papo com Otto

 

Falar sobre a revista a Alazã é voltar no tempo e na história que o Sopa vem construindo, ainda mais quando os papos que tecemos por aqui ficam mais intrigantes quando “envelhecidos” pelo tempo (ainda que curto!). A revista Alazã foi um dos primeiros projetos do Sopa e, assim como toda primeira manobra, teve a vida curta, mas deixou alguns ensinamentos que nos possibilitam resgatar bons insights.


 Otto fala sobre o clipe “O Que Dirá o Mundo”, onde representa um cavalo e a sua relação com a música.

Sopa: No clipe da sua música “O Que Dirá o Mundo”, você aparece nu, preso em um estábulo, de joelhos e se contorce ao receber uma rajada de água. Qual o significado dessa representação?

Otto: O cavalo representa o homem e o homem, o cavalo. A questão do paralelo é denunciar a forma como tratamos animais e pessoas; porque não deve existir diferenças neste tratamento. A falta de respeito com o animal reflete diretamente na falta de respeito com nós mesmos. Devemos refletir sobre a vida, sobre a importância de respeitar todos os seres vivos. Existe alma em todo ser; existem sentimentos.

Sopa: Você fala nas suas músicas sobre diversos temas atuais, sempre com o objetivo de informar, transmitir alguma mensagem que possa resultar numa atitude positiva. De onde veio essa vontade de propor uma reflexão acerca dos assuntos que rodeiam o mundo?

Otto: Acho que esse é meu dever como artista, sabe? Antecipar, digerir e informar através da arte minha visão sobre as questões do mundo. Tenho uma mente inquieta e vivo dos meus pensamentos; amplifico as vozes populares. Penso em manifestar através da minha arte os desejos humanos e contribuir, assim, pra o futuro, de forma otimista, esperançosa e humana. É deste modo que construo meu discurso, meus versos: no amor e na convivência…Quero o melhor para o meu mundo; quero harmonia!

Sopa: A letra da faixa “O Que Dirá o Mundo” critica o caos urbano e passa o sentimento da “vida de cavalo” de uma cidade grande. O que realmente você quis metaforizar e que forma encontrou para dizer e mostrar isso?

Otto: A relação vem do grande escritor russo Liev Tolstói, no seu conto “Khostolme: a história de um cavalo”, sobre um equino de nome Khostolme relatando a sua vida: desde puro sangue, corredor, depois um belo reprodutor, até ficar velho, arrastando uma carroça na fazenda. É uma comparação com a vida humana. Um conto fantástico! E tive a ideia de virar um cavalo no clipe para levantar essa crítica, essa relação. Sem contar que o universo dos cavalos é extraordinário, vigoroso. Adoro a plástica do cavalo.

Sopa: Nos seus shows você se abre para o público e extravasa suas aflições de forma catártica. Como é estar no palco?

Otto: Cara, arte pra mim são todos os sentidos reunidos pela inspiração, pela pulsação dos sentimentos, pela interpretação. No palco eu me sinto perto de Deus, perto da minha alma. Nele eu sinto equilíbrio, esforço e perfeição natural. É como se entregar à luz, à verdade.

Sopa: Na letra da música “O Que Dirá o Mundo”, você fala que divide a angústia e o pão. Que divisão é essa e com quem está sendo feita? Com o mundo, com a cidade, com as pessoas, com os animais?

Otto: Quando falo sobre dividir a angústia e o pão, quero apontar para a importância de sermos gente, de estarmos abertos para compreendermos as certezas e incertezas do estado humano, seus amores e dores; estamos aqui pra tudo isso! E temos que aprender a dividir, suportar e nos alimentar, porque viver é um exercício de muita paciência e compreensão, que mesmo nas adversidades precisamos estar prontos para reagir, ajudar e apoiar o que é importante. Não está escrito em nenhum lugar que a vida é perfeita, pelo contrário. A vida é pra ser vivida e evoluída.

Sopa: Essa mistura de sons e ritmos com que você convive, com um pouco de drum and bass (ritmo eletrônico) misturado ao maracatu e ao samba, é uma das suas características mais marcantes. Como você explica esse seu estilo próprio?

Otto: Meu estilo é um pouco das coisas que ouvi. Sou um homem contemporâneo, que busca viver o mundo de hoje e absorver o novo. Posso dizer que tenho uma música muito original, e sempre cobro o novo na minha alma. Gosto de misturar o desconhecido, aquilo que faz meu mundo e minha música avançar, com as tradições regionais: Pernambuco, nordeste e Brasil.

Sopa: Acontece durante o clipe a transição entre o homem e o cavalo. Você não começa sendo um cavalo e nem termina sendo um, mas passa por este momento cavalo. Como foi essa construção na narrativa da música?

Otto: Estes animais nos ensinam o tempo todo. Interagir com eles foi uma experiência inesquecível. A energia do momento da roda em que eles rodam ao meu comando me mostrou a grandeza que eles possuem e afabilidade que sentimos diante de tanta perfeição. Os cavalos realmente ajudaram muito o homem durante a história, como máquinas de guerra e transporte; o cavalo realmente é o símbolo ideal da força e do equilíbrio.

Sopa: Pensamos que o momento da dança no seu clipe seria aquele de maior entendimento do homem, já que dançar é uma característica humana – emocional e racional. Porém, você só consegue chegar nessa fase depois de passar pelo momento cavalo (animal). Qual ideia você estava querendo propagar ali?

Otto: Quando danço homenageio Lars von Trier, o grande cineasta dinamarquês, e seu filme “Melancolia”, que retrata o fim do mundo. Penso que dançar é uma afirmação de entrega ao momento presente e que o vive até o fim. É isso! Tolstói, Lars von Trier, cavalos e dança. O começo meio e fim de um pensamento sobre a eternidade.

“O livro eletrônico é o futuro”

“O livro eletrônico é o futuro”. Essa é a minha habitual frase de entrada. Repetida inúmeras vezes para um número sempre novo de ouvintes, encontro as mesmas reações mescladas: a fascinação ou a descrença. Infelizmente posso dizer que tenho visto mais da última do que daquela primeira. Talvez seja por ainda ser uma novidade.

Em resposta, os comentários são muitos, em contraponto às expressões. “Os livros físicos jamais perderão seu apelo”, diz um. “Eu gosto da textura e do conforto do papel”, afirma outra. “Um livro não precisa ser recarregado”, diz aquele terceiro. E assim vão, golpes certeiros contra um argumento antes sólido.

“O livro eletrônico é o futuro”, repito, sorrindo.

Não o faço carregado com sarcasmo, nem com desprezo pelo argumento adversário. Não se trata de uma competição; não neste caso. Trata-se de uma convicção obtida sob muito esforço, de quem advogou para dezenas de editoras ao longo dos anos, mas que ainda tem visão e juventude guardados de sobra para se manter fiel ao potencial da tecnologia contemporânea para revolucionar. E, também, amparado em anos de estudo sobre o tema, é claro. Vamos à história?

Falar da história do livro é, de certa forma, tratar um pouco da história dos direitos autorais. Das relações de trabalho às relações humanas mais básicas, o reconhecimento, ainda que intuitivo, de quem é o autor de uma obra acompanha a história da criação humana: da supremacia do seu intelecto sobre o meio ambiente.

Não é de se estranhar, portanto, que o avanço dos séculos, ao trazer o ser humano à Era da Informação do século XXI, tornou ainda mais claro e constante o ritmo de criação humana e a necessidade de se refletir sobre a herança histórica do que se considera autor. Hoje, os trabalhos humanos puramente mecânicos e físicos tornam-se gradativamente menos necessários, entregues ao domínio da mecanização global, permitindo ao ser humano entregar-se às atividades contemporâneas exclusivamente intelectuais – que são exatamente o campo de estudo dos direitos autorais: produções artísticas, manifestações culturais, científicas e, porque não, industriais.

Mas, o que tem tudo isto a ver com o livro, o suporte, em si? Para responder permito-me transcrever um sábio Thomas Jefferson: “aquele que recebe uma ideia de mim, recebe ele mesmo instrução sem diminuir a minha; como aquele que acende sua vela na minha, recebe luz sem me colocar na escuridão”. Em síntese, o conhecimento quer ser livre. É esta a sua natureza.

“aquele que recebe uma ideia de mim, recebe ele mesmo instrução sem diminuir a minha; como aquele que acende sua vela na minha, recebe luz sem me colocar na escuridão”

Então, quando verifico a crise pela qual muitas editoras (algumas, íntimas conhecidas) passam no início deste século que promete, reafirmo: não se trata de uma tendência econômica, mas de uma verdadeira queda de braços entre a evolução tecnológica e social e a necessária (e decerto consciente!) resistência de um modelo econômico que não corresponde mais ao que vem sendo produzido a partir das novas propostas de labor contemporâneo.

Ora, até o século XV, o livro era um bem extremamente valorizado e caro. Pesados, feitos à mão e de forma demorada, transcritos por “especialistas” (que muitas vezes eram valorizados pelas próprias opiniões que inseriam nos escritos originais), os livros eram uma obra de arte – no seu sentido mais estrito. Capas de couro e iluminuras eram comuns de serem encontradas nos poucos exemplares que existiam.

Era neste cenário em que o famoso “Príncipe dos Editores”, Vespasiano da Bisticci, florescia na Itália. Um verdadeiro negociante destas raras obras, Vespasiano era nada menos do que um homem adaptado à tradição, e tornara-se rico com ela. Os homens e mulheres da classe nobre dessa época lhe procuravam quando queriam adquirir uma obra.

Ocorre que felizmente (apenas para nós, é claro), a tradição logo abandonaria o “Príncipe”. A invenção de Johannes Gutenberg daquele século, o tipo mecânico móvel, iniciaria uma revolução que só mudaria de marcha no final do século XX. A partir deste momento, livros não seriam transcritos aos poucos, mas impressos às toneladas. As ideias circulariam o mundo, e com elas, a Renascença, a Reforma e a Revolução Científica.

Penso que é correto estipular que a primeira reação do “Príncipe dos Editores”, ao ver seu primeiro livro impresso seria de desprezo. Mal acabado, sem iluminuras, sem classe. Alguém lhe diria: “isto é o futuro”. Seguir-se-ia um olhar descrente.

Bom, o resto, como dizem, é história. Em poucos anos, Vespasiano da Bisticci estaria falido. O livro escrito à mão não se tornaria nada mais do que uma cara excentricidade, relegada a uma nota de rodapé do mundo moderno. Por mais outros 500 anos, o livro impresso no tipo móvel de Gutenberg ganharia o mundo.

500 anos? Não mais, não menos. Veremos. Afinal, há inúmeras razões para se repensar o uso do papel e construir o novo lugar dos livros impressos. Onde devemos repensar o uso do espaço físico, das árvores, dos químicos na preparação do papel e seus impactos no meio ambiente, das dificuldades na reciclagem. Em contra ponto a energia renovável, a tecnologia, a comodidade, a redução nos custos, os preços menores. A natureza imaterial do conhecimento e da cultura pressionando por uma liberdade maior do que àquela que o suporte impresso pode fornecer. Isso sempre. E, contra todas essas, apenas uma: tradição.

Os muitos homens e mulheres que me cercam com certa descrença hoje não me oferecem mais do que Vespasiano da Bisticci poderia oferecer aos seus contemporâneos visionários. Certamente não oferecem mais aos idealizadores da Editora Sopa do que seus próprios concorrentes presos à tradição.

De visionários, não esperem menos que a loucura. E à beira dela, uma outra Revolução.

Mas, se outrora um príncipe caiu, que seria desses pobres mortais descrentes nesse admirável mundo novo fundado por Bill Gates, Steve Jobs, Larry Page, Sergey Brin, Jeff Bezos e tantos outros gênios?

“O livro eletrônico é o futuro.”

Foi essa a frase que eu ouvi da equipe da Editora Sopa, mais especificamente de Laura Yunes e Christiano Mere, em uma tarde de reunião despretensiosa em nosso escritório.

A eles, ofereci de volta o meu sorriso e minha certeza.

O livro eletrônico é o futuro.

Alea iacta est. A sorte está lançada.

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