Obras e códigos

Um pouco depois do evento, conversei com o Christiano e com a Laura sobre os pedidos para que divulgasse a bibliografia da palestra que apresentei no segundo encontro do grupo de estudos sobre processo criativo na Biblioteca Pública de Niterói, dia 8/8. Como foram de fato muitos autores, alguns com a intenção de destacar seus comentários teóricos e outros pelos seus trabalhos literários, decidimos compartilhar a lista de autores e obras através deste post.

Fiz uma divisão deste modo: primeiro os autores cujas teorias foram discutidas, depois outro grupo com aqueles que desenvolveram obras voltadas para suas experiências durante o processo criativo, e, por fim, um terceiro grupo com autores que nos serviram de exemplos literários.

Separei em três tópicos essa bibliografia, considerando que apresentei apenas os nomes dos autores do grupo de literatura para que façam seus próprios percursos dentro da obra de cada um.

 

Autores (teoria):

Tzvetan Todorov – Introdução à Literatura Fantástica;

Jean-Paul Sartre – Situações I – Críticas Literárias;

Fayga Ostrower – Criatividade e Processo de Criação;

Vilém Flusser – O Mundo Codificado;

Mikhail Bakhtin – Estética da Criação Verbal;

Roland Barthes – O Rumor da Língua (discutimos o texto “A Morte do Autor”);

Paul Valéry – Variedades (discutimos o ensaio “Poesia e Pensamento Abstrato”).

 

Autores e o processo criativo:

Rainer Maria Rilke – Cartas a um jovem poeta;

Virginia Woolf – Um teto todo seu;

James Joyce – Retrato do artista quando jovem;

Henry Miller – A sabedoria do coração (discutimos o texto “Reflexões sobre a arte de escrever”).

 

Autores (literatura):

E. T. A. Hoffmann;

Nikolai Gogol;

Edgar Allan Poe;

Henry James;

Fiódor Dostoiévski;

Gabriel García Marquez;

Mia Couto;

Jorge Luis Borges;

Julio Cortázar;

Machado de Assis;

Murilo Rubião;

Carlos Trigueiro;

Guimarães Rosa;

José Cândido de Carvalho;

Manoel de Barros.

 

Então, lembrando que refletimos os caminhos da literatura fantástica, o que evidenciei com os autores, romances, contos e novelas mencionados. Mas chegamos também em assuntos que apontam para teorias literárias, além dos processos criativos de autores que pouco se limitam ao gênero fantástico.

Que estas leituras abram seus olhares para novas percepções dos códigos.

Feliz aniversário, Fernanda

No último sábado, dia 09 de maio, foi aniversário da Fernanda Paixão, autora e organizadora do livro Linguagem, cultura, reportagem.

Assim como o livro mais baixado do Sopa, te desejamos o maior sucesso que as letras podem proporcionar e muita felicidade.

O livro pode ser baixado no iBookstore e também no Google Play.

 

Direito do Autor por Leonardo Ignatiuk

No contexto histórico, o reconhecimento de autoria sempre foi inerente ao homem, embora tal reconhecimento tenha sido instintivo e voltado à ética ou à moral. Intuitivamente, entendia-se que roubar de um homem o crédito por sua criação constituía um erro deplorável – entre os gregos antigos, o “plágio” (plekein) já era um termo utilizado, mas que não constituía-se em ilícito, mas em ato punido com sanções sociais.  Ainda assim, não havia, até o século XVIII, leis que tratassem do direito ao autor de explorar a sua obra economicamente – mesmo porque, antes da Prensa de Gutenberg o conhecimento era escasso e os livros eram obras produzidas à mão. Eram peças de arte negociadas tal como quadros.

Com a invenção do tipo móvel, tudo mudaria. O direito do autor surgiria primeiro como um privilégio; um mecanismo que garantiria aos primeiros editores a exclusividade de publicação de livros em todo o Reino Unido. Surgia, então, para satisfazer a necessidade de vultosos investimentos nas prensas móveis, o ímpeto do Estado de manter um controle direto sobre o que estaria sendo publicado e, ao mesmo tempo – e bem mais importante – garantiria o acesso da população ao conhecimento literário e científico.

Esse simples avanço tecnológico e essa modificação social alterariam toda a lógica educacional e produziriam uma nova expansão de conhecimento e cultura, que vingariam até os dias de hoje.

Desde então, já no mundo moderno dos séculos XVIII (com o Estatuto da Rainha Ana, de 1710) e XIX, houve uma compreensão geral que cabia ao autor o direito de explorar economicamente sua criação, como forma de incentivo à produção de mais conhecimento científico e literário. Havia um receio que a falta de um incentivo econômico na sociedade capitalista que se acelerava pudesse gerar uma forte estagnação do desenvolvimento humano em todas as áreas – afinal, como um homem que se dedica a escrever poderia fazê-lo tendo que trabalhar todo o dia em uma fábrica?

Neste sentido, nota-se que o direito de autor dos séculos XIX e XX já se fortalecia de princípios sociais. Havia, é claro, o direito do autor de subsistir através do seu trabalho intelectual. Em contraponto (e, decerto, também em complemento), havia também o direito da coletividade, de todos nós, do acesso à cultura, ao conhecimento e ao lazer. E, entre estes dois direitos, o desejo do Estado de ver sua sociedade desenvolver-se tecnológica, científica e economicamente.

Por isso mesmo, por conta do delicado equilíbrio entre estes três partícipes do fundamento social do direito do autor (o próprio autor, a sociedade, e o Estado), não há que se falar em “direito do autor” de forma individual e indiferente – muito menos do seu dia.

Em primeiro lugar, porque todos os três estão intimamente ligados. Pode, por exemplo, um autor retirar uma importante obra do mercado que tenha sido escrita por si, com a finalidade de escondê-la para sempre da humanidade? De quem seria o prejuízo maior, neste caso? Do autor, ou da sociedade como um todo?

Em segundo lugar, – e esta é a razão principal da existência deste pequeno artigo – na web 2.0 da qual tanto ouvimos falar e sobre a qual participamos diariamente, TODOS somos autores e, ao mesmo tempo, consumidores de conteúdo. Cada comentário, cada obra coletiva (wikipedia, entre tantas outras), cada fotografia, cada vídeo, cada resenha, cada obra anônima, cada participação direta ou indireta na produção cultural, científica ou literária em que nos colocamos cotidianamente nos inclui no centro desse palco luminoso.

Não se trata de dizer que hoje é o “dia do autor”, como se fosse um estranho transeunte que encontrássemos nas esquinas da vida. Hoje é dia do Autor. Hoje o dia não é apenas “dele”, mas de todos nós.

Pois bem, Autor. Seja bem-vindo à Era da Informação e da produção de conhecimento.

Ah, e parabéns pelo seu dia.

Em memória de fogo e passarinho

O texto abaixo foi publicado neste zine buscando desbravar a construção da memória literária de Manoel de Barros e Eduardo Galeano, escritores apegados ao tema, que republicaremos hoje para avivar o que não pode ser esquecido.


 

Memória e suas criações exuberantes  

Uma viagem ao mundo das lembranças recordadas e reinventadas de Manoel de Barros e Eduardo Galeano: escritores quem veem na memória um prato cheio para a criação

‘’Recordar: Do latim re-cordis, voltar a passar pelo coração’’. Assim começa O Livro dos Abraços, de Eduardo Galeano, refletindo sobre o recordar, este ato por vezes silencioso que nos confidencia o que vemos e aprendemos ao longo dos dias. Uma capacidade inata e adquirida. Um substantivo abstrato como tantos outros que classifica aquilo que, acumulado na nossa mente, caminha sorrateiro. Muitas vezes esquecido, vive escondido entre os cantos escuros da mente até o dia em que decide ser aclamado e acordado pela nossa lembrança. Todos nós a temos e cultivamos inconscientemente, do mesmo modo que a usamos para nos entendermos e entendermos o mundo. Mais do que isso, a análise sobre registros da memória pode ser bem mais profunda quando pensamos sobre a origem das ideias, já que muitas vezes – na maioria delas – é na memória que se escondem as grandes criações. Seja através de uma história ou recordações da infância, uma descoberta ou um fato marcante durante a vida, todas as experiências acumuladas pelo homem vão para este mesmo ‘’lugar’’. Na associação dessas várias recordações surge, por vezes, a fala diferente e inovadora da criação.

Grandes representantes deste ato criativo de dialogar com as recordações marcaram a literatura latino-america do século XX com obras cujo principal aspecto é a descrição das lembranças guardadas na memória, sejam elas reais ou adaptadas. Autores como Eduardo Galeano e Manoel de Barros, um uruguaio polêmico e um brasileiro encantador, parecem não ter muita coisa em comum, embora sejam caçadores natos de recordações inspiradoras, que podem ser encontradas num prego estático na parede de uma casa velha ou na triste morte de um poeta espanhol.

Parecendo nos guiar até uma pequena casa escondida na última esquina do mundo, O Livro Sobre Nada, de Manoel de Barros, relata as mais sublimes minúcias dos nadas que, de acordo com a realidade inventada do autor, seriam flores, insetos, rios, pedras, animais, entre outras peças da natureza esquecidas dos olhos desligados e acomodados com a velocidade da rotina. ‘‘Inventar é uma coisa que serve para aumentar o mundo’’, explica. Sua literatura é uma viagem na desconstrução da realidade a fim de renovar o olhar acostumado do leitor. Os fatos contados em poemas e textos breves parecem mais reflexões infantis e despropositais; lembranças de um verão qualquer rabiscadas num papel. É inventor de palavras e de todo o idioleto manoelês, classificado por ele como o dialeto que os idiotas usam para falar com paredes e moscas, além de estudioso do nada e da essência das coisas. Manoel recria o mundo com palavras a fim de provocar algo novo, uma percepção alternativa do real; ‘’Não quero dar informações, quero dar encantamento’’. Consagrado como um dos maiores poetas brasileiros, Barros descreve pequenos detalhes em torno de si como se os olhasse pela primeira vez, com olhos curiosos e infantis.

“Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo’’ – Manoel de Barros 

No documentário de Pedro Cezar sobre a vida e obra do poeta, Só Dez Por Cento é Mentira, Manoel confessa resgatar nas memórias da sua infância as lembranças para criar toda a essência de sua poesia. Ele conta que o livro ‘’Poemas Rupestres’’ fala sobre um lugar bucólico e afastado de tudo, onde não tinha nada. Lugar este inspirado na região onde o próprio autor foi criado quando criança, onde não tinha televisão, rádio e nem mesmo vizinhos. Neste lugar vazio e sem assunto, as pessoas eram obrigadas a criar histórias e inventar coisas. ‘’A poesia nasce do não existir. Você tem que inventar’’.

Sei que meus desenhos verbais nada significamNadaMas se o nada desaparecer, a poesia acaba. Eu sei. Sobre o nada eu tenho profundidades.” – Manoel de Barros

Para o poeta não há fonte mais rica em poesia do que a infância. Considera tudo que escreve como resquícios de sua visão infantil, onde as frases são desconstruídas e palavras são inventadas, trocando e renovando sentidos. Deslumbrado com esse olhar de criança, Manoel conta em Só Dez Por Cento é Mentira que, instigado pela fala criativa da criança, colocava seu filho no colo e o fazia perguntas com um bloquinho em mãos. O contato diário entre pai e filho deu origem ao livro Poeminhas pescados numa fala de João, repleto de relatos sobre o mundo a partir do olhar e do entendimento ingênuo do seu filho. Fabricar brinquedo com palavras é seu lema e sair do lugar-comum com encantamento é sua aventura favorita:

‘’Carrego meus primórdios num andor.
Minha voz tem um vício de fontes.
Eu queria avançar para o começo.
Chegar ao criançamento das palavras.
Lá onde elas ainda urinam na perna.
Antes mesmo que sejam modeladas pelas mãos.
Quando a criança garatuja o verbo para falar o que não tem.
Pegar no estame do som.
Ser a voz de um lagarto escurecido.
Abrir um descortínio para o arcano’’

Trecho do Livro Sobre nada.

Mais que um inventor, Manoel de Barros é também uma grande inspiração para os diversos criativos cativados pela sua poesia. Paulo, que trabalha consertando eletrodomésticos, aparece no documentário contando que, após ler a obra de Manoel, se viu inspirado pelas suas expressões profundas e surreais. Decidiu, então, materializá-las criando aparelhos que completam o universo do autor, como o ‘’Prego que Farfalha’’, o ‘’Esticador de Horizontes’’ e o ‘’Aparelho de Ser Inútil’’. Este constante diálogo entre obra e leitor resulta em diversas interpretações e reações, sendo indiscutível a propriedade inspiradora da relação entre obras prontas e o processo criativo de outras, como o caso do próprio Manoel, que foi alimentado criativamente pela obra do Padre Antônio Vieira.

Manuel

Outro inspirador de criadores ambulantes é o uruguaio Eduardo Galeano, consagrado pelo polêmico livro Veias Abertas da América Latina que discute de maneira crítica e polêmica a história da América Latina desde o colonialismo ao século XX. Escritor e jornalista, Galeano foi alvo incontestável no período da ditadura e golpes na américa, o que resultou em exílios sucessivos. Sua agitada história de vida estimulada pelo seu ativismo moral contribuiu para o acúmulo de lembranças intensas e sua verbalização através de uma temática crítica e reflexiva. Em O Livro dos Abraços, o autor relata alguns acontecimentos políticos, sociais, místicos, cotidianos e pessoais que, aparentemente, assistiu com os próprios olhos e foi capaz de descrevê-los graças à memória, apropriando a elas o tom lúdico e fabuloso.

“Como trágica ladainha, a memória boba se repete. A memória viva, porém, nasce a cada dia, porque ela vem do que foi e é contra o que foi. ’’ – Eduardo Galeano 

Para Galeano, não basta recordar os acontecimentos, é preciso que eles cortem; que fira, inspire e estimule algo diferente dentro de cada um. Algumas histórias presentes no livro apresentam inicialmente uma temática triste – sobre mortes, pobreza e depressão – , contudo, num súbito momento, a leitura parece seguir para uma reviravolta destes sentimentos através de sensações mais suaves, como encantamento, amor e fé. Sua reflexão não somente aponta para uma perspectiva positiva, de quem tem prazer em viver buscando a constante reversão do que não está bom, como metaforiza perfeitamente o desenvolvimento do processo criativo, sempre denso, intenso e trabalhoso, mas, ainda assim, produtivo e válido. Desse modo, a obra de Galeano sugere que é preciso entender os dois lados da história: bater e abraçar, lembrar e esquecer, sentir raiva e amor, para, enfim, ser capaz de modificar comportamentos, concepções e costumes. Em entrevista ao programa Sangue Latino, do Canal Brasil, Galeano afirma que ‘’são as histórias que a gente conta, escuta, recria e multiplica que permitem transformar o passado em presente e que também permitem transformar o distante em próximo, possível e visível’’.

Aproxima-se de Manoel de Barros quando certa vez declarou, também durante a entrevista, apreciar o dom poético e ingênuo das crianças. Aproveita o assunto para fazer uma amarga crítica sobre a incorreta concepção de evolução de uma sociedade já habituada a uma realidade confusa, que converte e distorce a criativa e deslumbrada mente infantil durante seu amadurecimento. ‘’Quando criança somos todos pagãos, e, nessa idade, somos todos poetas. Depois o mundo se ocupa de apequenar nossa alma. Isso que chamamos de crescimento e desenvolvimento’’.

Dialogam ainda mais quando buscam a simplicidade narrativa para alcançar reflexões além do próprio tema. Ambos preocupam-se com pequenezas cujo valor invade espaços com pouca voz e muito o que ser dito. Manoel de Barros aproveita seus nadas de insignificâncias abrangentes para saltar sobre nós a importância de perceber no vazio de pedras, galhos, rios e passarinhos, profundezas da natureza que insistem em dialogar com nossos instintos. Do mesmo modo, Eduardo Galeano revive povos antigos já silenciados pelo tempo e acende na memória as pequenas mensagem de pessoas afundadas por injustiças e descasos que atravessam a história. Manoel e Eduardo falam sobre o mesmo pequeno enorme assunto, o mesmo fato escondido entre as beiradas dos nossos olhos, mas ainda assim tão evidentes e prestes a gritar intentos e virtudes.

Mas, em toda a obra de Galeano, talvez, mais importante do que a memória seja a desmemória dos fatos. Suas reflexões sobre os mais variados temas apontam para um assunto em comum: o acordar das lembranças. Galeano nos alerta para alguns acontecimentos históricos e sociais de suma importância para a sociedade que foram esquecidos, jogados para baixo do tapete da nossa reflexão. Assuntos como guerra, escravidão, colonialismo, exploração de povos, raças e classes sociais, e outros temas mais recentes com intensas críticas à qualidade da educação, saúde e voz popular, recheiam seu material literário como se fossem grandes exclamações na folha de papel. Seu apelo é para que não seja esquecido aquilo que de fato importa. Sua observação faz com que o leitor abra os olhos para o que não deve jamais ser esquecido, seja um importante acontecimento de sua vida ou aquilo que algum dia viu, leu e aprendeu; convida a prática da recordação, o registro dos fatos cotidianos, seus valores culturais, morais, inspiradores e filosóficos, para que seja descoberto, assim, a grande ideia escondida na desmemória da mente.

“Na minha escrita quero ser capaz de olhar o que não se olha, mas que merece ser olhado. As pequenas, as minúsculas coisas de gente anônima, da gente que os intelectuais costumam desprezar. […]’’ – Eduardo Galeano

“O livro eletrônico é o futuro”

“O livro eletrônico é o futuro”. Essa é a minha habitual frase de entrada. Repetida inúmeras vezes para um número sempre novo de ouvintes, encontro as mesmas reações mescladas: a fascinação ou a descrença. Infelizmente posso dizer que tenho visto mais da última do que daquela primeira. Talvez seja por ainda ser uma novidade.

Em resposta, os comentários são muitos, em contraponto às expressões. “Os livros físicos jamais perderão seu apelo”, diz um. “Eu gosto da textura e do conforto do papel”, afirma outra. “Um livro não precisa ser recarregado”, diz aquele terceiro. E assim vão, golpes certeiros contra um argumento antes sólido.

“O livro eletrônico é o futuro”, repito, sorrindo.

Não o faço carregado com sarcasmo, nem com desprezo pelo argumento adversário. Não se trata de uma competição; não neste caso. Trata-se de uma convicção obtida sob muito esforço, de quem advogou para dezenas de editoras ao longo dos anos, mas que ainda tem visão e juventude guardados de sobra para se manter fiel ao potencial da tecnologia contemporânea para revolucionar. E, também, amparado em anos de estudo sobre o tema, é claro. Vamos à história?

Falar da história do livro é, de certa forma, tratar um pouco da história dos direitos autorais. Das relações de trabalho às relações humanas mais básicas, o reconhecimento, ainda que intuitivo, de quem é o autor de uma obra acompanha a história da criação humana: da supremacia do seu intelecto sobre o meio ambiente.

Não é de se estranhar, portanto, que o avanço dos séculos, ao trazer o ser humano à Era da Informação do século XXI, tornou ainda mais claro e constante o ritmo de criação humana e a necessidade de se refletir sobre a herança histórica do que se considera autor. Hoje, os trabalhos humanos puramente mecânicos e físicos tornam-se gradativamente menos necessários, entregues ao domínio da mecanização global, permitindo ao ser humano entregar-se às atividades contemporâneas exclusivamente intelectuais – que são exatamente o campo de estudo dos direitos autorais: produções artísticas, manifestações culturais, científicas e, porque não, industriais.

Mas, o que tem tudo isto a ver com o livro, o suporte, em si? Para responder permito-me transcrever um sábio Thomas Jefferson: “aquele que recebe uma ideia de mim, recebe ele mesmo instrução sem diminuir a minha; como aquele que acende sua vela na minha, recebe luz sem me colocar na escuridão”. Em síntese, o conhecimento quer ser livre. É esta a sua natureza.

“aquele que recebe uma ideia de mim, recebe ele mesmo instrução sem diminuir a minha; como aquele que acende sua vela na minha, recebe luz sem me colocar na escuridão”

Então, quando verifico a crise pela qual muitas editoras (algumas, íntimas conhecidas) passam no início deste século que promete, reafirmo: não se trata de uma tendência econômica, mas de uma verdadeira queda de braços entre a evolução tecnológica e social e a necessária (e decerto consciente!) resistência de um modelo econômico que não corresponde mais ao que vem sendo produzido a partir das novas propostas de labor contemporâneo.

Ora, até o século XV, o livro era um bem extremamente valorizado e caro. Pesados, feitos à mão e de forma demorada, transcritos por “especialistas” (que muitas vezes eram valorizados pelas próprias opiniões que inseriam nos escritos originais), os livros eram uma obra de arte – no seu sentido mais estrito. Capas de couro e iluminuras eram comuns de serem encontradas nos poucos exemplares que existiam.

Era neste cenário em que o famoso “Príncipe dos Editores”, Vespasiano da Bisticci, florescia na Itália. Um verdadeiro negociante destas raras obras, Vespasiano era nada menos do que um homem adaptado à tradição, e tornara-se rico com ela. Os homens e mulheres da classe nobre dessa época lhe procuravam quando queriam adquirir uma obra.

Ocorre que felizmente (apenas para nós, é claro), a tradição logo abandonaria o “Príncipe”. A invenção de Johannes Gutenberg daquele século, o tipo mecânico móvel, iniciaria uma revolução que só mudaria de marcha no final do século XX. A partir deste momento, livros não seriam transcritos aos poucos, mas impressos às toneladas. As ideias circulariam o mundo, e com elas, a Renascença, a Reforma e a Revolução Científica.

Penso que é correto estipular que a primeira reação do “Príncipe dos Editores”, ao ver seu primeiro livro impresso seria de desprezo. Mal acabado, sem iluminuras, sem classe. Alguém lhe diria: “isto é o futuro”. Seguir-se-ia um olhar descrente.

Bom, o resto, como dizem, é história. Em poucos anos, Vespasiano da Bisticci estaria falido. O livro escrito à mão não se tornaria nada mais do que uma cara excentricidade, relegada a uma nota de rodapé do mundo moderno. Por mais outros 500 anos, o livro impresso no tipo móvel de Gutenberg ganharia o mundo.

500 anos? Não mais, não menos. Veremos. Afinal, há inúmeras razões para se repensar o uso do papel e construir o novo lugar dos livros impressos. Onde devemos repensar o uso do espaço físico, das árvores, dos químicos na preparação do papel e seus impactos no meio ambiente, das dificuldades na reciclagem. Em contra ponto a energia renovável, a tecnologia, a comodidade, a redução nos custos, os preços menores. A natureza imaterial do conhecimento e da cultura pressionando por uma liberdade maior do que àquela que o suporte impresso pode fornecer. Isso sempre. E, contra todas essas, apenas uma: tradição.

Os muitos homens e mulheres que me cercam com certa descrença hoje não me oferecem mais do que Vespasiano da Bisticci poderia oferecer aos seus contemporâneos visionários. Certamente não oferecem mais aos idealizadores da Editora Sopa do que seus próprios concorrentes presos à tradição.

De visionários, não esperem menos que a loucura. E à beira dela, uma outra Revolução.

Mas, se outrora um príncipe caiu, que seria desses pobres mortais descrentes nesse admirável mundo novo fundado por Bill Gates, Steve Jobs, Larry Page, Sergey Brin, Jeff Bezos e tantos outros gênios?

“O livro eletrônico é o futuro.”

Foi essa a frase que eu ouvi da equipe da Editora Sopa, mais especificamente de Laura Yunes e Christiano Mere, em uma tarde de reunião despretensiosa em nosso escritório.

A eles, ofereci de volta o meu sorriso e minha certeza.

O livro eletrônico é o futuro.

Alea iacta est. A sorte está lançada.

Um tutorial de cada vez

Pegando o gancho do papo com o Walter na semana passada, e claro, com um pouco da ajuda dele, vamos tentar resolver um probleminha que reparamos e escutamos muitas pessoas comentando por aí: “Como eu faço para comprar um ebook no meu iPad?”. Na verdade, o método de compra do iPad é igual para quem tem Mac, iPhone, iPod Touch e por aí vai. O que importa é ter o iBooks, que, graças ao iOS 8, já vem como um app nativo no dispositivo. Vou parar com os “i” por aqui…não quero que pense que somos uns applemaníacos (será que ainda dá tempo de disfarçar?).

Como você já sabe, os livros digitais não são PDF’s e muito menos documentos de Word, e os leitores, e-readers, não são somente um lugar para guardar os livros que você adquire. Começando pelos livros, o famoso ePub é um compilado de programação para que o conteúdo possa assumir o comportamento desejado, tanto pelo autor quanto pelo editor. Existem dois tipos de livros, os de texto, chamados reflowables, e os de layout fixo, que são mais usados para trabalhar com imagens e interatividade. Não que os de texto não sejam interativos, porém os de layout fixo possuem mais possibilidades, como vídeos, trilha sonora, quiz e, em alguns casos, minigames dentro do livro.

Porém, o foco desse post é falar do e-reader da Apple, o iBooks, e te explicar como adquirir seus livros por lá. Além de funcionar como uma estante, ele possibilita o controle de brilho da tela, faz pesquisa no texto do livro, salva e compartilha notas, marca trechos interessantes e, o melhor de tudo, você pode encontrar e comprar uma cassetada de livros, de várias editoras e até mesmo de autores independentes, todos no iBookstore. Vamos fazer um passo a passo bem simples para mostrar como comprar e enviar de presente um bom livro! E como todos sabem, livro nunca é demais.

Step by step 

1 de 5 – Encontre o aplicativo iBooks

O iBooks é o ícone laranja que vem na primeira página do iOS – isso se você não mudou ele de lugar – no Mac, ele já vem no Dock. Só não confunda com o “Dicas”, o aplicativo de ícone amarelo com uma lâmpada. Se não achar, use a busca e digite o nome do app.

2 de 5 – Como chegar na livraria mais próxima de você

Ao entrar na sua biblioteca no iBooks, vai notar que na barra inferior tem algumas abas, como as Meus Livros; Destaques; Mais Vendidos; Autores em Alta e Comprado. Aqui já indica que existe a possibilidade de se fazer uma compra ou até mesmo indica a existência de uma livraria.

Para acessar a livraria, basta tocar em Destaques. Claro que você precisa de uma conexão com a internet (3G, 4G ou Wi-Fi). Na aba Destaques estão todos os principais livros, tanto as novidades quanto os bestsellers separados em categorias.

3 de 5 – O livro que eu quero não está na lista

Se o livro que você quer não estiver na lista dos mais vendidos ou não for tão famoso assim, na barra superior do iBooks tem um campo de busca. Lá você pode digitar o nome do autor ou o título da obra, e até mesmo o nome da editora, para achar o ebook que deseja ler.

4 de 5 – Parte mais simples e mais complexa

Depois de localizar o livro, basta apenas clicar no botão com o valor e depois confirmar clicando em Comprar Livro. Caso o livro seja gratuito, apenas clique em Obter e depois insira os dados da sua Apple ID. Se ainda não tiver uma Apple ID, clique aqui ou se quiser saber mais como atualizar os dados do seu cartão de crédito clique aqui.

5 de 5 – Meus Livros

Após efetuar a compra, o livro irá carregar nas abas Meus Livros e Comprado. Daqui pra frente, é só seguir as instruções que aprendemos na alfabetização até terminar o livro.

Extra de brinde:

Caso você seja uma boa pessoa e goste de presentear com livros, o Gift é um recurso bem simples de usar. Após escolher o ebook que deseja dar, vá até o canto superior direito, no ícone de compartilhar, que a opção Presentear vai estar logo no início. Siga os mesmos passos de antes (dados da Apple ID) e não esqueça de colocar a Apple ID de quem quer presentear. Um detalhe: esse recurso só funciona entre dispositivos da Apple.

Viu? Nem é tão difícil assim!

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Se preferir, pode nos ligar ou enviar um email. Saiba como fazer isso na página de contato.