Pode tocar na obra

A ideia de digital pode ser atrelada aos grandes eventos de inovação, tanto tecnológicos quanto sociais, comportamentais e por aí vai. Tudo que conhecemos pela natureza de suas formas, peso e lugar vem se configurando para uma existência menos palpável, em um processo de reorganização de suas “funções” e presença em nosso cotidiano. Já falamos sobre isso no post Entre triângulos e planos há algum tempo, porém retomar o assunto hoje é, de alguma forma, relembrar onde estávamos naquele momento e onde estamos agora: com novas questões sobre lugar e tempo. Esse tempo que construímos ao mesmo tempo em que vivemos.

Começo esse texto considerando alguns pontos, e acredito que você já tenha se deparado com essas questões ou escutado por aí algumas indagações neste sentido, mas de toda forma, tento, mesmo que sutilmente, encostar no último fio da meada e retomar a discussão sobre o que está acontecendo com os meios de produção de conteúdo. Digo conteúdo como algo não restritamente escrito, mas todas as cifras que o tempo exapta para contar sua história.

É evidente que os filmes, fotos, teatros, músicas e livros não são mais os mesmos. Talvez, nós também não sejamos mais como antes, talvez a forma que processamos o conteúdo tenha alterado em sua formação genética para algo híbrido, trans, que solicita novas fronteiras do existir. Dessa maneira, a reflexão que pede uma observação honesta dos nossos atos pode dar dicas do que está acontecendo com a natureza dos objetos que nos cercam. Como, por exemplo, o ingresso do cinema ou a música nos celulares.

Um outro exemplo dessa reconfiguração é a produção de filmes que vão além das críticas construídas. Para os novos filmes que se propõem a investigar a maneira de narrar não-histórias que não sejam mais interpretadas por atores, mas sim a construção de obras, vetores particulares únicos que utilizam dos suportes convencionais para deslocar seus atos em busca de outras consequências. Outro ponto de vista pode ser o uso dos livros digitais, que estão inaugurando outros lugares do imaginativo. Onde os recursos, que a cada dia abrem espaço para novas APIs, alteram como mutações a sua construção literária. Não mais desejamos estar nos mesmos lugares cognitivos do passado, é possível explorar novos campos da imaginação, é possível pensar algo que jamais pensaríamos antes na relação com o conteúdo. O poder dessa forma de pensar é de tal proporção que nos permite repensar em como construir outras formas de existência ao defender ideias e apresentar pontos, transitando por configurações e funções objetivas e subjetivas do conhecimento. Nada mais do que a convergência de texto, som, imagem, vídeo e toque em sua forma ampliada de existir.

O desbravar de outros espaços também implica em novas responsabilidades e novos saberes, mas mais do que isso, representa o reconhecer nossa trajetória não linear na construção de nós mesmos. Assim, abre um discurso sobre tecnologias digitais e seus recursos, e também a capacidade “horizontalizante” que temos em mãos. Talvez o exercício de construírmos esse lugar seja o mesmo de olharmos nosso entorno em busca de respostas que nos potencializem em mais propostas e consciências do devir.

 


 

Foto: Diego Mere; Obra da série Transparentes Brancos de Christiano Mere

 

Subjetivação da rampa

Impondo-se sobe as águas, o MAC flutua como quem procura novos ares. Se enche do novo a cada movimento. Movimento esse que traça a partir dos nossos olhos em um caminhar sinuoso e quase circular as suas formas e espaços, encontrando assim outro ponto de vista mais carregado de surpresa, que faz presente seu domínio (território) e, no mesmo instante, a abrangência de quem não possui fronteiras. Assim, expande a ideia de presença e sua ubiqüidade no recorte, uma estrutura que se faz física e metafísica em nossa subjetividade.

Discutir sobre suas formas e sua construção é perceber suas relações e provocações mais básicas com o espaço. Porém, é na rampa que Niemeyer concentra grande parte da força de subjetivação que a estrutura impregna no entorno. Não é correto de nossa parte precisar que esse seja um discurso de concepção, mas que de fato as estruturas nos levam a perceber questões, isso não podemos negar. A rampa, que a grosso modo nos leva para entrar no “raio” do museu, guarda em suas curvas questões muito interessantes.

Ao figurar a rampa como sujeito que nos conduz ao movimento de zig-zag, percorremos a distância não objetiva entre o pátio e a entrada, em círculos ascendentes que nos levam ao ponto de acesso. Os movimentos revelam novos olhares sobre as estruturas do prédio, quando do seu entorno sugere que a relação com a cidade não está somente no branco de suas paredes, nem com o negro espelhado dos vidros, mas sim com o momento presente do MAC e a sua capacidade subliminar de se situar no contemporâneo. Ao perceber que não percorremos a menor distância entre a entrada e o pátio, a seguinte pergunta se constrói: quando e onde começa a experiência de chegada?

Com os olhos atentos as formas, é possível perceber que da grade até a rampa colocamos de volta o questionamento se aquele é de fato o início. Logo, a questão sobre a ladeira da rua até a grade já faz parte de uma construção estrutural que flutua acima do horizonte, e que essa ladeira se apresenta como uma rocha abrupta em meio a beira da baía e, então podemos nos afastar até tudo se tornar memória, fazendo o MAC não mais ser figurado e sim lembrado enquanto essência. Assim, o começo está quando decidimos ir. Perceber que a trajetória do zig-zag está relacionada com a resiliência da memória que transita sobre o tempo em busca de novos significados agindo como um desfoque nas fronteiras do estar, chegar e conhecer.

Essa é uma obra que habita e se ergue na memória, e, acima de tudo, convida a olhar para a escuridão do tempo presente, que propõe transitar novamente em um vai-e-vem expandindo os limites para onde estivermos seguindo. Transformar a rampa em um sujeito criador sobre a sombra do presente é também ser tragado por ela em um movimento de vestir, unir-se-á na palavra contemporâneo propondo um refúgio para a construção de um futuro desconhecido, tal como a cidade que a observa e escreve sua história no esforço da retomada de ar necessária após a subida. Desse modo, a forma de taça brinda a rampa em um encontro harmônico estrutural.


Foto Diego Mere

 

Restrição como possibilidade

Como abordar o tema restrição sem ser muito abrangente? Essa questão propõe elaborar algumas fronteiras para nortear esse post e manter o foco. Em primeiro lugar, o que desenvolvemos é pinçado sob a ótica da criatividade com base nas pesquisas que fazemos nos últimos anos e também assumindo alguns pontos que geramos juntos nos encontros do grupo de estudos ZineDisfunção na BPN. Esse primeiro recorte ajuda a visualizar a fronteira e ao mesmo tempo propõe um primeiro entendimento da ideia de restrição, como uma delimitação de espaço para que possamos compreender o todo. Estabelecendo esse acordo, que um processo independe do seu complemento criativo, artístico, acadêmico e por aí vai, possui uma aparência similar a de uma cebola, onde camadas e camadas de ideias e/ou possibilidades (fronteiras entre espaços) agrupam-se orbitando em um centro comum que chamamos de “o cerne da questão”, e todas as camadas se relacionam, de certo modo, com a ideia central configurando assim um único corpo no espaço.

A ideia da cebola, “fronteiras”, define-se da seguinte maneira, como diz o priberam: “Zona de território imediata à raia que separa duas nações”, essa afirmação favorece o discurso de limite, mas não um limite de entendimento, mas de espaço/corpo que pode ser “infinito” em possibilidades. E assim surge a questão: do que se compõe um espaço? Creio que por esse caminho perderemos o foco da definição de restrição, mas podemos pensar que restringir é um recorte espacial, um parâmetro que usamos para compreender um todo e seus elementos. É compreender que essa palavra carrega pré-conceitos que dificultam seu entendimento – afinal restringir não pode ser algo bom, já que nos impede de ir. Abordar esse tema, enquanto processo criativo, é lidar com a famosa caixa que devemos pensar fora. Afinal, como podemos resolver um problema pensando fora dele? Foram esses os pontos que discutimos no último encontro do grupo de estudos, dia 03 de outubro, e que esse post tenta resgatar as fagulhas de um dia restritamente plural.

A discussão começou com uma tentativa de definir a palavra restrição e perceber onde ela se apresenta de uma maneira pontual. De forma espontânea, começamos com recortes muito abrangentes, como o planeta que é uma restrição do espaço, e em seguida a sociedade que é uma restrição de comportamento, mas a medida que os exemplos foram se acabando fomos forçados a nos aproximar do centro da questão, e nessa hora todos já concebiam a ideia de uma “cebola de territórios”. Cada um com suas fronteiras espaciais, até que o corpo passa a ser uma restrição para nós e com os limites físicos do nosso corpo fomos capazes de pensar soluções que transformam nosso mundo de forma radical. Por exemplo, se não fosse nossa incapacidade de locomoção rápida nunca precisaríamos domesticar animais como os cavalos, logo os carros não existiriam dessa maneira, e assim podemos pensar que as cidades assumiriam outra configuração, ou até mesmo os guindastes que substituem nossos braços de forma limitada em possibilidade, mas exponencial em força, trariam outras formas para nossas construções. Estamos sempre em busca de superar ou lidar com as restrições que se impõem em nosso caminho construindo pontes que fazem trafegar entre diversas camadas dessa cebola.

Todas essas questões trazem uma integração ao indagarmos que restrições são fatores limitadores. Sim, de fato são, mas acima de tudo são fatores delimitadores e só assim somos capazes de compreender e decidir como agir ou reagir a um estímulo. E como não poderia faltar, o tempo é sim um fator limitador que se impõe sobre as condições do trabalho, porém devemos nos atentar ao que o enunciado está dizendo. Ao lidar com uma demanda, todos os fatores podem ser, ao mesmo tempo, limitadores ou estimulantes para uma nova maneira de abordar a questão. E assim dizendo, uma ótima ferramenta para delimitar uma trajetória, que utilizada de forma consciente, abre mais espaço para possibilidades do que impede o desenvolvimento. Ou seja, a forma como lidamos com a ideia de restrição é o diferencial.

O dia na Biblioteca Pública de Niterói se desenvolveu com essas provocações e a incrível participação do designer Walter Mattos, que por mais de 40 minutos falou sobre seu processo de trabalho e em como trabalhar com um nível muito alto de restrições possibilita a concepção de um trabalho justificado e muito eficiente a nível plástico e conceitual. Walter é um dos designers mais influentes no Rio de Janeiro e hoje, com seu portal waltermattos.com, ele apresenta vídeos sobre o uso de ferramentas e análises gráficas com base no uso de grids e estruturas hierárquicas baseadas em geometria e matemática. Ouvir sua palestra foi voltar a um racionalismo Phi das coisas, ao mesmo tempo que nos abriu a cabeça para maneiras de trabalhar e justificar nossas escolhas de forma consciente. Não adianta só fazer, tem que saber o porque está fazendo. Foi com frases desse estilo que ele nos provocou a perceber que o mundo, de fato, está codificado em nossa frente e, como a cebola, tem camadas. O nosso cotidiano é feito de cascas de conhecimento e relacionamentos que podem ser um grande provedor de estímulos criativos, se formos atentos a ele.

Foi assim que o 4º dia de estudos se fechou, com todos trafegando em um universo de possibilidades ao se deparar com uma restrição abrupta, isso foi notável já nos papos pós palestra. Pensar restrições abre e não fecha. Essa é a moral obvia do post, mas só é possível chegar nesse entendimento consciente depois de definir a ideia. Ficamos muito satisfeitos com a ressonância que esses encontros estão proporcionado. O próximo será no dia 14 de novembro e quem chega como palestrante é o biólogo Rafael Franco.

 

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Fotos: Diego Mere, Laura Yunes e Luiza Rezende.

Um dia de caos

Uma rede. É dessa forma que acredito que as ideias e palpites povoam nossa consciência, construindo e transitando entre redes. Difícil saber se esse é realmente um comportamento dos dias de hoje ou se já somos assim desde o início. Recordo quando criança, sem muito o que me preocupar a não ser inventar brincadeiras, que as ideias eram quase uma linha, fato após fato. Claro que sempre me levavam a lugares desconhecidos, lugares de descobertas, mas tudo fazia parte da diversão. Olhar hoje para aquela época faz parecer óbvio não saber o fim da história.

Ter hoje consciência do objetivo, faz transitar pelos palpites, chamo de palpites os fragmentos incipientes das ideias de forma não linear e ansiosa. Não saber mais onde estão os espaços que o acaso pode agir faz tudo ficar mais confuso; a sensação de caos aponta para um fim não de projeto, mas de energia de agir. A sensação do nada é mais forte do que o movimento, esvazia onde deveria encher, e assim constrói, consequentemente, paradigmas que impedem nossos movimentos.

Movimentar-se enquanto criativo é transitar nas maiores distâncias entre dois corpos, é empregar energia em descobertas e estar conectado com o que se faz isento de grandes objetivos, mas construindo gradativamente percepções e diálogos com o fazer seguinte. Essas ideias foram construídas no grupo de estudos do dia 12 de setembro. Nesta imersão, buscávamos discutir sobre o Caos e o Acaso, perceber seus movimentos e ganhos ao ouvir relatos sobre a ação do caos no cotidiano.

O caos é imanente ao nosso pensar

Diferente do que fizemos nos últimos 2 encontros, esse teve uma particularidade: as cadeiras que sobravam (uma ou duas, mas sobravam) cederam espaço para os sofás e poltronas; haviam menos lugares, mas tudo foi proposital. Construimos também uma divisão muito clara entre o lugar de ouvir e o lugar de falar, e, assim como criança investindo nas brincadeiras, começamos a nossa troca de ideias. A  medida que falávamos, mais pessoas iam chegando e os lugares acabando; até que o inevitável aconteceu. Abrimos espaço para o acaso agir: os atrasados que chegavam se deparavam com uma sala confortavelmente cheia, e cada novo corpo no espaço agia com certo desconforto sobre os outros que não sabiam o que fazer, já que no fundo estavam uma pilha de cadeira. Por algumas vezes o problema de espaço foi solucionado pelo chão, que aos poucos se tornou assento e roda. O clima ficava cada vez mais informal, até que o chão não comportava mais e no desconforto do outro, sem saber onde se acolher, e também por perceber que ali existia algo de valor que todos deveriam ouvir, o caos aconteceu e a troca de ideias foi interrompida por um dos ouvintes: “licença, mas precisamos colocar aquelas cadeira aqui! Acho que vai ficar mais confortável para eles”.

Nesse momento todos se moveram. Um grande estímulo gerou reações inesperadas e, mesmo sendo uma reação comum, do estilo típico do dia a dia, todos perceberam que aquilo estava conversando com eles de alguma maneira, que o tema do dia fazia mais sentido do que antes. E nessa hora o comentário sobre estar com um olhar atento foi inevitável. Perceber as minúcias das coisas que nos cercam faz do jargão “o acaso só favorece as mentes preparadas” pertinente.

Logo em seguida, com todos já em seus lugares e com as antenas ligadas, o segundo ato foi uma inversão de papeis. O lugar que antes era de quem aprensentava ficou vazio deixando espaço para quem quisesse falar sobre qualquer assunto, afinal o tema era acaso, caos e também sobre etapas incipientes de estruturas úteis. No início, a timidez foi mais forte e a troca de olhares em tal vazio intensa. Era fácil perceber que mesmo o nada pode ser muito rico em expectativa e em propostas, pois, nesse tempo que precede o ato, as ideias fervilham com grande intensidade. O silencio não se manteve assim por muito tempo, tivemos uma das trocas mais inesperadas que poderíamos desejar. Foram tantas coisas que mal posso replicar, mas que tenho certeza que estou ganhando corpo em meus pensamentos.

Um bom tempo para não parar

Como de costume, o café do Blueberry estava presente e fez a diferença. Dessa vez o café que costuma agitar a galera conseguiu centrar e aliviar a pressão. Quem veio participar do encontro foi a Cat (Catarina Bijalba), que junto com a feitura de  café, mergulha no mestrado em biologia. Nada mais pertinente ter entre nós uma dessas pessoas que, de fato, representa a pluralidade de todos. Porém, naquele momento foi quase icônico ouvir as particularidade de um café que despertava o assuntos. Cat conseguiu a atenção de todos ao falar das particularidades da plantação, e sobre como foi importante a curiosidade de um pastor ao perceber que suas ovelhas, após comerem certo tipos de frutas, ficavam enérgicas e saltitantes. Nada mais pertinente para uma história de acaso que perceber no café o fruto desse acaso. E, como era previsto, esta foi a hora em que o papo e as trocas fluíram intensamente.

Seguindo o evento, a terceira parte foi um convite ao sonho quântico com o neurologista Messias Reis, que falou quase abstratamente sobre a relação de evoluir e a que ponto que conseguimos sonhar, e que nesse sonho consciente estão algumas das leis da física quântica capazes de nos levar a um segundo momento da evolução. Quando disse “em um sonho somos nós e somos o outro, somos as cadeiras, nuvens, tudo ao mesmo tempo”, fez pensar que somos nós mesmos e somos o caos que controlamos e não controlamos nessa realidade. Elevou a percepção de que mesmo em nós existem partes naturais do acaso e que, se tivermos consciência disso, seremos mais eficientes em controlar ansiedades e nos manter como potências de agir.

A próxima imersão será no dia 03 de outubro e, dessa vez, os super poderes do designer Walter Mattos e seus grides vão compor um dia que falaremos sobre restrições.

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A profundidade do primeiro mergulho

Foi assim, discutindo sobre a diferença entre nós e os rinocerontes e a capacidade que temos de fazer metáforas, foi assim que o sábado começou. Dia 11 de julho de 2015, um dia quente para um inverno, porém muito bonito do lado de fora das janelas da Biblioteca Pública de Niterói. Estávamos lá eu, Laura Yunes, Diego Mere, Luiza Rezende e Diogo Camillo, que iria palestrar no enceramento do dia, e organizávamos os últimos detalhes do nosso grupo de estudos sobre processo criativo.

A publicação digital ZineDisfunção deu lugar a um grupo de estudos mensal, de mesmo nome, sobre criatividade e seus padrões – já falamos muito sobre isso no post anterior, e todas as inquietações que tínhamos ao pesquisar sobre o assunto foram traduzidas para esse novo formato.

Dividimos o grupo de estudos em três partes, uma onde apresentávamos algumas provocações para propor que todos interagissem. A intenção era refletir sobre as ideias que estão sempre em nossas cabeças mas que, por muitas vezes, não temos respostas ou não dedicamos tempo bastante para entendê-las. Provocações que não sabemos qual será o retorno, mas que propõem um mergulho muito bom no campo das ideias, como: “O que é criatividade?” ou “Crianças são criativas?”. Coisas incríveis acontecem quando provocamos as pessoas, elas falam e aos poucos vamos construindo conhecimento e troca de forma muito natural.

Porém, tudo tem seu tempo, e o segundo momento do evento se construiu com a Blueberry Pie e seu café encorpado de ideias, onde fez, com um outro estímulo, com que ninguém saísse do clima e do tema. Assim pudemos perceber que as conexões estavam ali, flutuando sobre as nossas cabeças, e que a ambientação do espaço se fez mais presente do que nunca.

Junto com Marlus Araujo, uma das mentes mais inquietas no campo da programação – que tivemos o prazer de conhecer – fizemos um “termômetro” para medir as ideias. Com um microfone, captávamos o som do ambiente e a imagem projetada na parede se convertia em distorções de acordo com a temperatura das conversas. E quanto mais se falava, mais se pensava, mais participávamos, mais podíamos ver que quase não dava mais para ler o que estava escrito na parede; um sinal de que tudo estava acontecendo e que as ideias estavam sendo geradas com grande intensidade.

Se quiser experimentar, vamos deixar o link logo abaixo (use o Chrome para ver o resultado):
http://marlus.com/zine-disfuncao

Podemos até chamar de terceiro ato, mas foi somente a volta do “Coffee No Break“, onde Diogo Camillo, nosso convidado para ministrar uma palestra sobre modelos mentais, entrou em cena. Diogo é designer, consultor em inovação social, inquieto e questionador, e no último sábado ele levou um saco de pulgas para todos nós, principalmente quando começou a palestra dizendo que existem dois modelos mentais e que eles podem nos ajudar, e muito, nos momentos criativos. O equilíbrio entre esses modelos foi o tema central de toda a discussão. E foi assim, cheio de perguntas e também com algumas provocações, que fechamos o primeiro dia do grupo de estudos sobre criatividade mediado pelo Sopa.

Esse é o clima que procuramos fomentar, um lugar onde as ideias possam circular sem grandes impedimentos e, mais do que isso, que possam encontrar ambientes onde as pessoas estejam preparadas para articular as grandes ideias que podem mudar o curso de nossas próprias histórias quando se fala de abordar a criatividade como força de trabalho.

O grupo de estudos é uma parceria do Sopa com a Biblioteca Pública de Niterói e vai acontecer uma vez por mês, sempre aos sábados, até dezembro. O próximo será no dia 08 de agosto e o tema escolhido é Mundo Codificado. O grupo é gratuito e é para todos que têm interesse no assunto.

 

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Fotos: Laura Yunes, Diego Mere e Luiza Rezende

 

 

Imersão em processo criativo – ao vivo na BPN

Pensando nos que, por algum motivo, não poderão estar presentes no ZineDisfunção • BPN, vou atribuir essa culpa à Lei de Murphy, que insiste em nos perseguir, vai aí uma ajuda: é por acreditar que podemos aproximar as distâncias entre as fronteiras e deixar os imprevistos mais borrados, que vamos transmitir ao vivo o grupo de estudos.

Se, por ventura, chegou aqui por acaso, essa é a transmissão do grupo de estudos mensal sobre processo criativo que acontece na Biblioteca Pública de Niterói. A proposta é convidar as pessoas a pensar seu lugar no mundo, que nos cobra e muito que sejamos mais criativos o tempo todo, e assim geramos grandes consequências e paradigmas em nossas rotinas.

Nesta edição, a primeira de seis encontros, vamos abordar o tema Formas e Pensamentos e convidamos o designer/consultor em inovação social Diogo Camillo para ministrar uma palestra sobre modelos mentais.

E para deixar uma pequena provocação, o Blueberry Pie Coffee & Co confirmou presença e vai levar seu Coffee No Break repleto de  questões e percepções sobre os processos de feitura do café.

Estamos reunindo ideias por acreditar que essas colisões são necessárias para que as evoluções aconteçam.

Feliz aniversário, Fernanda

No último sábado, dia 09 de maio, foi aniversário da Fernanda Paixão, autora e organizadora do livro Linguagem, cultura, reportagem.

Assim como o livro mais baixado do Sopa, te desejamos o maior sucesso que as letras podem proporcionar e muita felicidade.

O livro pode ser baixado no iBookstore e também no Google Play.

 

Direito do Autor por Leonardo Ignatiuk

No contexto histórico, o reconhecimento de autoria sempre foi inerente ao homem, embora tal reconhecimento tenha sido instintivo e voltado à ética ou à moral. Intuitivamente, entendia-se que roubar de um homem o crédito por sua criação constituía um erro deplorável – entre os gregos antigos, o “plágio” (plekein) já era um termo utilizado, mas que não constituía-se em ilícito, mas em ato punido com sanções sociais.  Ainda assim, não havia, até o século XVIII, leis que tratassem do direito ao autor de explorar a sua obra economicamente – mesmo porque, antes da Prensa de Gutenberg o conhecimento era escasso e os livros eram obras produzidas à mão. Eram peças de arte negociadas tal como quadros.

Com a invenção do tipo móvel, tudo mudaria. O direito do autor surgiria primeiro como um privilégio; um mecanismo que garantiria aos primeiros editores a exclusividade de publicação de livros em todo o Reino Unido. Surgia, então, para satisfazer a necessidade de vultosos investimentos nas prensas móveis, o ímpeto do Estado de manter um controle direto sobre o que estaria sendo publicado e, ao mesmo tempo – e bem mais importante – garantiria o acesso da população ao conhecimento literário e científico.

Esse simples avanço tecnológico e essa modificação social alterariam toda a lógica educacional e produziriam uma nova expansão de conhecimento e cultura, que vingariam até os dias de hoje.

Desde então, já no mundo moderno dos séculos XVIII (com o Estatuto da Rainha Ana, de 1710) e XIX, houve uma compreensão geral que cabia ao autor o direito de explorar economicamente sua criação, como forma de incentivo à produção de mais conhecimento científico e literário. Havia um receio que a falta de um incentivo econômico na sociedade capitalista que se acelerava pudesse gerar uma forte estagnação do desenvolvimento humano em todas as áreas – afinal, como um homem que se dedica a escrever poderia fazê-lo tendo que trabalhar todo o dia em uma fábrica?

Neste sentido, nota-se que o direito de autor dos séculos XIX e XX já se fortalecia de princípios sociais. Havia, é claro, o direito do autor de subsistir através do seu trabalho intelectual. Em contraponto (e, decerto, também em complemento), havia também o direito da coletividade, de todos nós, do acesso à cultura, ao conhecimento e ao lazer. E, entre estes dois direitos, o desejo do Estado de ver sua sociedade desenvolver-se tecnológica, científica e economicamente.

Por isso mesmo, por conta do delicado equilíbrio entre estes três partícipes do fundamento social do direito do autor (o próprio autor, a sociedade, e o Estado), não há que se falar em “direito do autor” de forma individual e indiferente – muito menos do seu dia.

Em primeiro lugar, porque todos os três estão intimamente ligados. Pode, por exemplo, um autor retirar uma importante obra do mercado que tenha sido escrita por si, com a finalidade de escondê-la para sempre da humanidade? De quem seria o prejuízo maior, neste caso? Do autor, ou da sociedade como um todo?

Em segundo lugar, – e esta é a razão principal da existência deste pequeno artigo – na web 2.0 da qual tanto ouvimos falar e sobre a qual participamos diariamente, TODOS somos autores e, ao mesmo tempo, consumidores de conteúdo. Cada comentário, cada obra coletiva (wikipedia, entre tantas outras), cada fotografia, cada vídeo, cada resenha, cada obra anônima, cada participação direta ou indireta na produção cultural, científica ou literária em que nos colocamos cotidianamente nos inclui no centro desse palco luminoso.

Não se trata de dizer que hoje é o “dia do autor”, como se fosse um estranho transeunte que encontrássemos nas esquinas da vida. Hoje é dia do Autor. Hoje o dia não é apenas “dele”, mas de todos nós.

Pois bem, Autor. Seja bem-vindo à Era da Informação e da produção de conhecimento.

Ah, e parabéns pelo seu dia.

Em memória de fogo e passarinho

O texto abaixo foi publicado neste zine buscando desbravar a construção da memória literária de Manoel de Barros e Eduardo Galeano, escritores apegados ao tema, que republicaremos hoje para avivar o que não pode ser esquecido.


 

Memória e suas criações exuberantes  

Uma viagem ao mundo das lembranças recordadas e reinventadas de Manoel de Barros e Eduardo Galeano: escritores quem veem na memória um prato cheio para a criação

‘’Recordar: Do latim re-cordis, voltar a passar pelo coração’’. Assim começa O Livro dos Abraços, de Eduardo Galeano, refletindo sobre o recordar, este ato por vezes silencioso que nos confidencia o que vemos e aprendemos ao longo dos dias. Uma capacidade inata e adquirida. Um substantivo abstrato como tantos outros que classifica aquilo que, acumulado na nossa mente, caminha sorrateiro. Muitas vezes esquecido, vive escondido entre os cantos escuros da mente até o dia em que decide ser aclamado e acordado pela nossa lembrança. Todos nós a temos e cultivamos inconscientemente, do mesmo modo que a usamos para nos entendermos e entendermos o mundo. Mais do que isso, a análise sobre registros da memória pode ser bem mais profunda quando pensamos sobre a origem das ideias, já que muitas vezes – na maioria delas – é na memória que se escondem as grandes criações. Seja através de uma história ou recordações da infância, uma descoberta ou um fato marcante durante a vida, todas as experiências acumuladas pelo homem vão para este mesmo ‘’lugar’’. Na associação dessas várias recordações surge, por vezes, a fala diferente e inovadora da criação.

Grandes representantes deste ato criativo de dialogar com as recordações marcaram a literatura latino-america do século XX com obras cujo principal aspecto é a descrição das lembranças guardadas na memória, sejam elas reais ou adaptadas. Autores como Eduardo Galeano e Manoel de Barros, um uruguaio polêmico e um brasileiro encantador, parecem não ter muita coisa em comum, embora sejam caçadores natos de recordações inspiradoras, que podem ser encontradas num prego estático na parede de uma casa velha ou na triste morte de um poeta espanhol.

Parecendo nos guiar até uma pequena casa escondida na última esquina do mundo, O Livro Sobre Nada, de Manoel de Barros, relata as mais sublimes minúcias dos nadas que, de acordo com a realidade inventada do autor, seriam flores, insetos, rios, pedras, animais, entre outras peças da natureza esquecidas dos olhos desligados e acomodados com a velocidade da rotina. ‘‘Inventar é uma coisa que serve para aumentar o mundo’’, explica. Sua literatura é uma viagem na desconstrução da realidade a fim de renovar o olhar acostumado do leitor. Os fatos contados em poemas e textos breves parecem mais reflexões infantis e despropositais; lembranças de um verão qualquer rabiscadas num papel. É inventor de palavras e de todo o idioleto manoelês, classificado por ele como o dialeto que os idiotas usam para falar com paredes e moscas, além de estudioso do nada e da essência das coisas. Manoel recria o mundo com palavras a fim de provocar algo novo, uma percepção alternativa do real; ‘’Não quero dar informações, quero dar encantamento’’. Consagrado como um dos maiores poetas brasileiros, Barros descreve pequenos detalhes em torno de si como se os olhasse pela primeira vez, com olhos curiosos e infantis.

“Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo’’ – Manoel de Barros 

No documentário de Pedro Cezar sobre a vida e obra do poeta, Só Dez Por Cento é Mentira, Manoel confessa resgatar nas memórias da sua infância as lembranças para criar toda a essência de sua poesia. Ele conta que o livro ‘’Poemas Rupestres’’ fala sobre um lugar bucólico e afastado de tudo, onde não tinha nada. Lugar este inspirado na região onde o próprio autor foi criado quando criança, onde não tinha televisão, rádio e nem mesmo vizinhos. Neste lugar vazio e sem assunto, as pessoas eram obrigadas a criar histórias e inventar coisas. ‘’A poesia nasce do não existir. Você tem que inventar’’.

Sei que meus desenhos verbais nada significamNadaMas se o nada desaparecer, a poesia acaba. Eu sei. Sobre o nada eu tenho profundidades.” – Manoel de Barros

Para o poeta não há fonte mais rica em poesia do que a infância. Considera tudo que escreve como resquícios de sua visão infantil, onde as frases são desconstruídas e palavras são inventadas, trocando e renovando sentidos. Deslumbrado com esse olhar de criança, Manoel conta em Só Dez Por Cento é Mentira que, instigado pela fala criativa da criança, colocava seu filho no colo e o fazia perguntas com um bloquinho em mãos. O contato diário entre pai e filho deu origem ao livro Poeminhas pescados numa fala de João, repleto de relatos sobre o mundo a partir do olhar e do entendimento ingênuo do seu filho. Fabricar brinquedo com palavras é seu lema e sair do lugar-comum com encantamento é sua aventura favorita:

‘’Carrego meus primórdios num andor.
Minha voz tem um vício de fontes.
Eu queria avançar para o começo.
Chegar ao criançamento das palavras.
Lá onde elas ainda urinam na perna.
Antes mesmo que sejam modeladas pelas mãos.
Quando a criança garatuja o verbo para falar o que não tem.
Pegar no estame do som.
Ser a voz de um lagarto escurecido.
Abrir um descortínio para o arcano’’

Trecho do Livro Sobre nada.

Mais que um inventor, Manoel de Barros é também uma grande inspiração para os diversos criativos cativados pela sua poesia. Paulo, que trabalha consertando eletrodomésticos, aparece no documentário contando que, após ler a obra de Manoel, se viu inspirado pelas suas expressões profundas e surreais. Decidiu, então, materializá-las criando aparelhos que completam o universo do autor, como o ‘’Prego que Farfalha’’, o ‘’Esticador de Horizontes’’ e o ‘’Aparelho de Ser Inútil’’. Este constante diálogo entre obra e leitor resulta em diversas interpretações e reações, sendo indiscutível a propriedade inspiradora da relação entre obras prontas e o processo criativo de outras, como o caso do próprio Manoel, que foi alimentado criativamente pela obra do Padre Antônio Vieira.

Manuel

Outro inspirador de criadores ambulantes é o uruguaio Eduardo Galeano, consagrado pelo polêmico livro Veias Abertas da América Latina que discute de maneira crítica e polêmica a história da América Latina desde o colonialismo ao século XX. Escritor e jornalista, Galeano foi alvo incontestável no período da ditadura e golpes na américa, o que resultou em exílios sucessivos. Sua agitada história de vida estimulada pelo seu ativismo moral contribuiu para o acúmulo de lembranças intensas e sua verbalização através de uma temática crítica e reflexiva. Em O Livro dos Abraços, o autor relata alguns acontecimentos políticos, sociais, místicos, cotidianos e pessoais que, aparentemente, assistiu com os próprios olhos e foi capaz de descrevê-los graças à memória, apropriando a elas o tom lúdico e fabuloso.

“Como trágica ladainha, a memória boba se repete. A memória viva, porém, nasce a cada dia, porque ela vem do que foi e é contra o que foi. ’’ – Eduardo Galeano 

Para Galeano, não basta recordar os acontecimentos, é preciso que eles cortem; que fira, inspire e estimule algo diferente dentro de cada um. Algumas histórias presentes no livro apresentam inicialmente uma temática triste – sobre mortes, pobreza e depressão – , contudo, num súbito momento, a leitura parece seguir para uma reviravolta destes sentimentos através de sensações mais suaves, como encantamento, amor e fé. Sua reflexão não somente aponta para uma perspectiva positiva, de quem tem prazer em viver buscando a constante reversão do que não está bom, como metaforiza perfeitamente o desenvolvimento do processo criativo, sempre denso, intenso e trabalhoso, mas, ainda assim, produtivo e válido. Desse modo, a obra de Galeano sugere que é preciso entender os dois lados da história: bater e abraçar, lembrar e esquecer, sentir raiva e amor, para, enfim, ser capaz de modificar comportamentos, concepções e costumes. Em entrevista ao programa Sangue Latino, do Canal Brasil, Galeano afirma que ‘’são as histórias que a gente conta, escuta, recria e multiplica que permitem transformar o passado em presente e que também permitem transformar o distante em próximo, possível e visível’’.

Aproxima-se de Manoel de Barros quando certa vez declarou, também durante a entrevista, apreciar o dom poético e ingênuo das crianças. Aproveita o assunto para fazer uma amarga crítica sobre a incorreta concepção de evolução de uma sociedade já habituada a uma realidade confusa, que converte e distorce a criativa e deslumbrada mente infantil durante seu amadurecimento. ‘’Quando criança somos todos pagãos, e, nessa idade, somos todos poetas. Depois o mundo se ocupa de apequenar nossa alma. Isso que chamamos de crescimento e desenvolvimento’’.

Dialogam ainda mais quando buscam a simplicidade narrativa para alcançar reflexões além do próprio tema. Ambos preocupam-se com pequenezas cujo valor invade espaços com pouca voz e muito o que ser dito. Manoel de Barros aproveita seus nadas de insignificâncias abrangentes para saltar sobre nós a importância de perceber no vazio de pedras, galhos, rios e passarinhos, profundezas da natureza que insistem em dialogar com nossos instintos. Do mesmo modo, Eduardo Galeano revive povos antigos já silenciados pelo tempo e acende na memória as pequenas mensagem de pessoas afundadas por injustiças e descasos que atravessam a história. Manoel e Eduardo falam sobre o mesmo pequeno enorme assunto, o mesmo fato escondido entre as beiradas dos nossos olhos, mas ainda assim tão evidentes e prestes a gritar intentos e virtudes.

Mas, em toda a obra de Galeano, talvez, mais importante do que a memória seja a desmemória dos fatos. Suas reflexões sobre os mais variados temas apontam para um assunto em comum: o acordar das lembranças. Galeano nos alerta para alguns acontecimentos históricos e sociais de suma importância para a sociedade que foram esquecidos, jogados para baixo do tapete da nossa reflexão. Assuntos como guerra, escravidão, colonialismo, exploração de povos, raças e classes sociais, e outros temas mais recentes com intensas críticas à qualidade da educação, saúde e voz popular, recheiam seu material literário como se fossem grandes exclamações na folha de papel. Seu apelo é para que não seja esquecido aquilo que de fato importa. Sua observação faz com que o leitor abra os olhos para o que não deve jamais ser esquecido, seja um importante acontecimento de sua vida ou aquilo que algum dia viu, leu e aprendeu; convida a prática da recordação, o registro dos fatos cotidianos, seus valores culturais, morais, inspiradores e filosóficos, para que seja descoberto, assim, a grande ideia escondida na desmemória da mente.

“Na minha escrita quero ser capaz de olhar o que não se olha, mas que merece ser olhado. As pequenas, as minúsculas coisas de gente anônima, da gente que os intelectuais costumam desprezar. […]’’ – Eduardo Galeano

Fronteiras Vivas

1.333km seriam desfilados do lado de fora do carro em direção às fronteiras vivas. Em linha reta o mundo parece organizado. A ordem das cenas por vezes se perde quando acumulamos fatos. Deslizar por aqueles pedaços de terra provocou um descolamento da alma, de onde quer que ela estivesse colada. Invadimos vias e veias com o único intuito de chegar. A sensação de perceber o corpo em movimentos fez um sorriso discreto na avidez de cada um. Éramos 13, plantados na curva da vida às cinco horas da manhã, dialogando com o breu daquele início de viagem. Acordadas as ruas sonolentas, costuramos a estrada com pernas livres.

O céu ascendia devagar; contornava a estrada com pequenos pedaços de plenitude. O tempo estava bom para decifrar nuvens e invadir montanhas com olhos de fotografia. E pelo sopro de poucas curvas, tínhamos a leve sensação de que aquela viagem guardava mensagens nas sombras. Oscilando entre os ventos enfileirados, percebemos entre nós o impulso de uma discreta euforia. O momento indicava o início da natureza absoluta; era mais Sul a cada quilômetro azulado. O tempo abria caminho até um silêncio que nos recebia com sede.

A primeira parada foi o Vale Lagaver, um lugar isolado e de brisa espontânea que brotava pelos ângulos dos olhos. Ficamos guardados entre paredes de pedras; até a cachoeira, bastavam 325 passos exatos de pés médios. Acampamos perto de uma casa de madeira com caminhos de musgos na entrada. Quando vista de longe, parecia um grande animal confortavelmente deitado sobre um cobertor, com um sono que deslizava a consciência até um estado sublime rodeado por pequenos segundos de paz. Por vezes, descobríamos vagalumes guardados nos bolsos como se fossem ouro bruto cintilando sua raridade prestes a voar.

No quintal da casa havia o bosque dos labirintos, onde era possível avistar um caminho em cada extremidade, todos idênticos. Os gatos que por ali passavam voltavam duplicados. Ao indagarmos sobre o fato aos moradores da região, disseram se tratar de um espelho que ficava bem no meio do labirinto, capaz de duplicar mistérios; e assim cada gato ganhava um novo ele que, ainda que vinculado ao original, vagava como sendo vivo. “Foi daí que surgiu a lenda das sete vidas dos gatos”, esclareceu um senhor. Os duplicados pareciam redescobrir o mundo pelas frestas, deslumbravam-se estáticos observando as folhas menearem pelo ar.

Talvez ninguém quisesse nunca mais sair de Lagaver, mas era preciso. No dia seguinte andamos mais 440km numa estrada vazia por mais umas oito horas. Saímos no horário do almoço, sonolentos por causa do peso do sol. A luz invadia o carro esquentando os incômodos e desvirtuando a nossa visão granulada. Clareava o percurso pintando de branco cercas e flores; ao longe, as casas pareciam manchadas de grandes doses de leite derramadas por jatos que vinham do céu. Comprometidos pelos olhos cansados e acabrunhados pela fome mastigando os desejos, paramos no posto logo em frente.

Por termos falado alto ou simplesmente porque éramos muitos, ali sentados como itinerantes e dispersos no mundo, foi atraído até nós um homem grande e bem gordo, carregando consigo uma grande garrafa de cachaça e um cigarro de palha bambeando na boca. Seu chapéu ocre parecia maltratado pelas estradas fronteiriças. Os olhos amarelados e seu perfume de tabaco lhe davam um aspecto de homem sem lugar, gasto pela melancolia dos faróis mudos. Chegou até nós projetando uma tosse enfestada de pigarro que silenciou nossa conversa. “Vão pra fronteira do Sul?”, invadiu, “Fica mais rápido cruzar pelo atalho. Economiza gastos e ainda pega a costa até as terras invadidas pela grama selvagem. Vocês já ouviram falar de Mosfrágum? É lá. Coberta pelo incômodo discreto da natureza. É triste de olhar, mas bonito quando realmente se vê, um lugar imperdível. Eu sou caminhoneiro, passo sempre por lá e vejo cada coisa que me arrepia as angustias; essas estradas são um calabouço aberto”.

Estremecidos pela curiosidade que a alma diagnosticava, decidimos ir pelas ruínas de grama da tal cidade cujo nome nos sumia da lembrança a todo tempo. Mosfrácio, Mostrátum, Mosfrá..gum! Em linha reta, a cor do dia descamava no horizonte. Sentíamos o cheiro da maresia cada vez mais próximo, e era curioso perceber que perdíamos a companhia de outros carros. Éramos nós com menos destinos, o mar projetando sua imensidão monocromática e vazia em nossa consciência. Era uma paz costurada; ouvíamos nela uma serenidade que a estremecia, pois, sendo só, tinha uma plenitude solitária.

Placas quase ilegíveis diziam a curva e última entrada. Despejados numa estrada de cantos curtos, nossa estrada agora parecia infinita graças ao silêncio que todas aquelas plantas empurravam sobre nós. Dois horizontes de grama, um de cada lado, encaravam nossos carros como se fôssemos intrusos numa terra vazia. Não se via um único ser vivo, de modo que saltávamos para desviar de um buraco ou outro que aquele asfalto velho acumulara no tempo de poucas visitas. Mas uma virada brusca no volante nos garantiu que o desvio dessa vez não era por conta dos buracos, mas sim de um gambá, mesclando sua forma com a das crateras escuras do percurso. Foi quando vimos surgir cada vez mais animais pelo andar da estrada: vacas, bois, ovelhas, bodes, capivaras, patos. Uma terra de animais, supusemos, decorada com tantas criaturas que quase parávamos de tão lentos, distraídos com a profunda beleza da paz monótona dos bichos. Ali pausamos no tempo fracionado. Sentíamos como se o mundo tivesse ido embora de nós – a liberdade nos assaltara.

“Olha só aquela casa!”, avistamos ao longe, perdida entre o mar de verde, um casebre que parecia possuir apenas um quarto de tão pequeno. Tinha cor de terra seca e murchava uma existência envelhecida, engolido quase que completamente pela grama. As janelas perdiam a forma para as plantas, parecendo ele todo uma ruína mumificada. Vivas mesmo talvez fossem apenas as árvores, cujos tamanhos eram ridiculamente desproporcionais, também quase completamente engolidas pelo mato. Era a confirmação de que havíamos chegado em Mosfrágum, um lugar que desconhecia os motivos das iras naturais, e que, engolido por elas, permaneceu estático; os animais camuflados pelos troncos, alguns opacos e dispersos como pedras – trocados de lugar pela vaidade gramínea.

Mosfrágum passou cortando todos os olhos, que mesmo vidrados pela catástofe curiosa, sua presença arfava sombria. A vista nos fez chegar ao fim daquela cidade com a alma gasta, exaustos. Era ali a cidade mais próxima da fronteira. Chamava-se Julão, apenas, uma cidade enferrujada. As casas pareciam perdidas no tempo, assim como o chão que acumulava histórias de faroestes, o que justificava o fato de todas as ruas formarem diagonais compridas, cheias de desvios entre ruelas e cachorros abandonados no meio das ventanias de areia que ora ou outra surgiam.

O lugar espantava a tranquilidade e nossa noite acumulou pesadelos em todas as cabeças. Curioso mesmo foi juntar as histórias e perceber que, misteriosamente, encaixadas faziam uma saga única de um tal rapaz que, montado num cavalo negro, apresentava-se como Craustin, cavalgando pelas ruas de Julão até o fim da cidade, onde lançava três disparos para o céu com a sombra das árvores malhando o rosto sisudo. Os homens da cidade explicaram ser ele o protetor da região que por muitos anos se apresentava em sonho aos viajantes atraídos pelas fronteiras mais vivas do Sul. Alguns deixavam presentes na praça; chapéus, esporas, charutos e botas pareciam brotar do solo com as raízes ainda firmes na terra. Escutamos vazios de respostas, os pulmões arrepiaram quando sentimos a ventania de areia mais uma vez espirrar em nossos olhos.

Mais 423km e chegaríamos na fronteira. Seguimos logo pela manhã com a ansiedade já salivando o momento. E recebidos pelo túnel de eucaliptos, cruzamos uma cidade confusa de nome, língua e povo. As casas trocavam as telhas e costumes; plantas decoravam uma vegetação já exclamando aspas estrangeiras; as enormes plantações que desenhavam as beiradas da estrada comprovavam presença e cuidado humano. Grandes piscinas naturais surgiam ao longe emolduradas por oratórios de pinheiros. Faziam ali o desfecho triunfal daquela terra em despedida.

Já avistávamos uma dobra singela na paisagem separando verdes de outros verdes. Agitava o peito, e perto demais do crível nos infiltramos nas fronteiras vivas, ali respirando pelas bocas do vento, deitadas ao lado do sono manso das vias, rasgadas pelas rodas, decoradas pela audácia grudada em nossos peitos. A mudez do sorriso de cada um sublimou a descoberta fronteiriça ali viva, afastada e firme em sua imensidão que tocava as beiradas de cada terra em silêncio, pulsando aquilo que ferve quando o momento encontra, embasbacado, a descoberta.


Foto: Luiza Rezende.

 

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