Subjetivação da rampa

Impondo-se sobe as águas, o MAC flutua como quem procura novos ares. Se enche do novo a cada movimento. Movimento esse que traça a partir dos nossos olhos em um caminhar sinuoso e quase circular as suas formas e espaços, encontrando assim outro ponto de vista mais carregado de surpresa, que faz presente seu domínio (território) e, no mesmo instante, a abrangência de quem não possui fronteiras. Assim, expande a ideia de presença e sua ubiqüidade no recorte, uma estrutura que se faz física e metafísica em nossa subjetividade.

Discutir sobre suas formas e sua construção é perceber suas relações e provocações mais básicas com o espaço. Porém, é na rampa que Niemeyer concentra grande parte da força de subjetivação que a estrutura impregna no entorno. Não é correto de nossa parte precisar que esse seja um discurso de concepção, mas que de fato as estruturas nos levam a perceber questões, isso não podemos negar. A rampa, que a grosso modo nos leva para entrar no “raio” do museu, guarda em suas curvas questões muito interessantes.

Ao figurar a rampa como sujeito que nos conduz ao movimento de zig-zag, percorremos a distância não objetiva entre o pátio e a entrada, em círculos ascendentes que nos levam ao ponto de acesso. Os movimentos revelam novos olhares sobre as estruturas do prédio, quando do seu entorno sugere que a relação com a cidade não está somente no branco de suas paredes, nem com o negro espelhado dos vidros, mas sim com o momento presente do MAC e a sua capacidade subliminar de se situar no contemporâneo. Ao perceber que não percorremos a menor distância entre a entrada e o pátio, a seguinte pergunta se constrói: quando e onde começa a experiência de chegada?

Com os olhos atentos as formas, é possível perceber que da grade até a rampa colocamos de volta o questionamento se aquele é de fato o início. Logo, a questão sobre a ladeira da rua até a grade já faz parte de uma construção estrutural que flutua acima do horizonte, e que essa ladeira se apresenta como uma rocha abrupta em meio a beira da baía e, então podemos nos afastar até tudo se tornar memória, fazendo o MAC não mais ser figurado e sim lembrado enquanto essência. Assim, o começo está quando decidimos ir. Perceber que a trajetória do zig-zag está relacionada com a resiliência da memória que transita sobre o tempo em busca de novos significados agindo como um desfoque nas fronteiras do estar, chegar e conhecer.

Essa é uma obra que habita e se ergue na memória, e, acima de tudo, convida a olhar para a escuridão do tempo presente, que propõe transitar novamente em um vai-e-vem expandindo os limites para onde estivermos seguindo. Transformar a rampa em um sujeito criador sobre a sombra do presente é também ser tragado por ela em um movimento de vestir, unir-se-á na palavra contemporâneo propondo um refúgio para a construção de um futuro desconhecido, tal como a cidade que a observa e escreve sua história no esforço da retomada de ar necessária após a subida. Desse modo, a forma de taça brinda a rampa em um encontro harmônico estrutural.


Foto Diego Mere

 

Uma experiência

Esse sentimento convida a olhar para uma data específica: dia 12 de dezembro de 2015, um sábado. O dia em que o último encontro de 2015 do zine na BPN aconteceu. Dia em que fomos levados a pensar sobre experimentação, sobre estar diante de investigações intuitivas, de perceber nossas próprias respostas, sentir novas ideias se formarem tipo ligações elétricas fervilhantes como cócegas desestabilizando a “calma” que aprendemos a ter no dia a dia.

O tema Experimentação, assim como todos os outros assuntos que abordamos em todos esses seis meses, foi uma provocação para expandir e povoar esse espaço onde a criatividade habita. Existem brechas baldias em nosso cotidiano que podem ser ocupadas por comportamentos experimentais, ou melhor, comportamentos de por a mão na massa em busca de gerar possibilidades que podem solucionar problemas que nem se quer foram percebidos ainda. Foi como ouvir o Charles Watson dizer: “etapas incipientes de estruturas úteis” que são capazes de abrir caminhos para grandes soluções. Experimentação como tema de fechamento foi abrir realmente esse grupo como um lugar de convite a experimentar e perceber os processos que nos levam a criar.

Juntos, nesse dia, chegamos a ideia de que experimentar é criar com o corpo, é permitir que outras formas de pensar e “ver” possam atuar em nossos processos de criação, e que a consciência dos sentidos pode ser algo muito rico e que também permite maior facilidade de conexões inusitadas. Quando questionamos a natureza das coisas, os empréstimos tornam-se possíveis e constroem novos ou outros significados para nossos padrões. A busca por consciência permite questões de fronteira e transbordamentos como: quais são os limites das matérias possíveis para se conceber uma escultura? Se por acaso conseguir pensar em algo não material, tenha certeza que está trilhando caminhos novos, ainda poucos experimentados que têm uma grande capacidade de transbordamento. A proposta de agora é olhar para as coisas não com olhos fixos, mas sim dissolvendo certas “fixitudes” em busca de discernimento e fluidez. Esse é o grande aprendizado que estamos conquistando aos poucos.

Diferente dos outros dias de imersão, esse último encontro teve certas particularidades notáveis, como o processo que a Catarina Bijalba passou ao levar seus bolos e cafés para nós. Os bolos, que eram inéditos em seu repertório, foram motivações geradas pelo tema. E melhor do que qualquer um, Catarina podia falar sobre um processo novo de algo que não “dominava” e que acabou se tornando a porta de entrada de uma grande ideia e muitas possibilidades, ideias que levam a outras e outras. Esse foi o fio que conduzia o dia, uma linha de oportunidades.

Em um ponto no meio dessa linha encontramos com o Tito Senna, um dos caras mais inquietos que conhecemos. Tito, que tem sua formação em Design e os pés muito bem colocados nos espaços da arte, falou sobre como os seus 15 anos de amadurecimento como artista se misturaram com o seu comportamento que faz da sua trajetória algo incrível. O processo do grafite, que abre a discussão sobre matéria, plano, formas e tinta, mistura-se com ideias sobre química, física, teologia e até mesmo desafios a pensamentos de reconfiguração dos espaços. Tito, que iniciou o nosso dia colocando fitas vermelhas na parede, abriu o diálogo silencioso e muito provocativo. Cada um que entrava na sala Multimídia da BPN percebia uma nova atmosfera que aquelas fitas espreguiçavam, e a medida que a história era sendo contata e cada conexão, cada escolha que ele teve para construir o que contraiu se justificava aos poucos. Cada um de nós estávamos sendo tragados pela experimentação, tragados pela força de um trabalho que ganhava significado singular e individual. Pode-se ali perceber como uma obra acontece e como a permissão que o Tito conquistou em correr certos riscos fez do seu trabalho algo além da física, química e teologia. Tem a capacidade de ultrapassar espaços físicos, de demarcar espacialidade em uma matemática gestual de formas simples e de ideias possíveis. Assistir suas fitas e ignorar as condições físicas de impedimentos reais foi experimentar um certo tipo de realidade que se abre para um mundo que desconhecemos as premissas do real e dá lugar ao fantástico, de pequinesas, de infinitudes onde somos livres para transitar se quisermos um mundo que está logo ao lado mas que observamos com timidez e pudor.

De certa forma, Tito concluiu o grupo de estudos abrindo espaço para discutirmos sobre esses lugares, brechas baldias, como disse antes, que estamos ocupando e investigando suas fronteiras. O campo imantado que existe nesse espaço, nessa geografia, é fruto do fazer, fruto do nosso apego/afeto por causas comuns aos que desejam falar de criatividade. Assim, o projeto de imersão sobre processo criativo na PBN foi uma grande experimentação do Sopa em um novo ambiente de atuação, que de certa forma explorou com mais potência o que acreditamos. Por esse motivo, estamos hoje desenhando novas formas de existência nesse espaço, onde possamos tanto oferecer o que já adquirimos quanto multiplicar todas essas intenções.

Obrigado e esperamos te encontrar nas próximas imersões.

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Empréstimos eficientes

O tema da vez não é acaso, mas falar a partir dessa ótica de trabalho em busca de oportunidade é tão pertinente quanto o tema em si. Estamos falando de empréstimos, de oportunidade, de transitar entre diversas áreas do conhecimento e de nos apropriar do que for necessário para que o relacionamento com o mundo possa ser construído com outras possibilidades. No encontro de número 5 da imersão em processo criativo na Biblioteca Pública de Niterói, falamos justamente sobre essa temática dos empréstimos, ou melhor das exaptações, como apresentado, em 1971, por Elisabeth Vrba e Stephen Jay Gould, pesquisadores e paleontólogos americanos em seu ensaio “Exaptation – a missing term in the science of form”. Um exemplo que se tornou um clássico foram as penas das aves, onde os estudos dizem que foram desenvolvidas para regular a temperatura dos corpos dos dinossauros não voadores no período Cretáceo. Porém, quando alguns dos seus descendentes começaram a fazer experiências com voos as penas se revelaram úteis para controlar o fluxo do ar sobre a superfície das asas, permitindo assim as primeiras aves a plainar. Outro grande exemplo foi a construção da prensa tipográfica de Gutenberg, que não foi uma grande invenção, mas sim uma grande junção de partes já existentes como papiro, prensa de uvas e os tipos chineses que foram adaptados em um novo uso. Ou até mesmo o caça inglês Harrier, que é capaz de parar no ar como se tivesse freios. Esse trânsito de funções emprestadas são tão eficientes nessas novas funções quanto em seus objetivos iniciais. A questão agora é se as ideias tem esse mesmo comportamento. Será que estamos aplicando as nossas ideais no lugar certo? Ou melhor, da melhor maneira?

Esses foram alguns dos pontos onde construímos as provocações para que o papo fluísse pelas cabeças dos presentes no último encontro. A ideia é que cada um desses conceitos seja construído a partir das percepções do grupo, de tal forma que cada um seja dono de sua própria verdade, do seu próprio processo, e a coletividade consiga dar forma a esses conceitos de maneira acessível e realmente influente em seu cotidiano. A ideia que foi fisgada sobre exaptação foi de um empréstimo, algo que é apropriado e se desenvolve a partir desse gesto.

Haviam cerca de 30 integrantes nesse dia, entre brasileiros e argentinos, de 20 a 60 anos, de áreas completamente diferentes, um real grupo de diversidade que se propunha discutir e construir conceitos, dedicar algumas horas em mergulhar em um só tema e se aproximar dele para o melhor uso no seu processo, assim como as asas em certo momento serviram para voar. Mas o grupo de estudos não se limita somente as provocações, tivemos o “No Break” com a Catarina e a Chali Bijalba e seus cookies e café, que conseguiram roubar mais atenção do que qualquer dinossauro que poderia passar pela janela da BPN. A pausa foi levada pela ideia de um grande acaso, como a história do surgimento dos cookies e de futuras histórias que essas duas podem vir a contar – mas isso já é um especulação/desejo da nossa parte.

Como esse grupo é parte do Sopa, não poderíamos deixar de engrossar o caldo. O convidado ao papo do dia foi o Rafael Franco, que é, entre muitas funções, o biólogo marinho chefe do AquaRio. Ele falou por quase uma hora sobre a experiência da construção de um aquário tão grande quanto o do AquaRio, e de como o termo exaptação está presente em seu cotidiano, tanto em ideias quanto em práticas biólogas. O papo foi rico de minúcias e de uma motivação incrível ao percebermos o quanto estar conectado com o que gostamos pode nos levar a milhões de outros lugares. Foi nesse clima de conexão com o fazer e o pensar que Rafael nos deixa um alerta para os corais, que estão morrendo por toda parte e que nós podemos, sim, fazer algo para melhorar essa questão se pensarmos criativamente.

E foi mais ou menos assim que o tema exaptação foi discutido, propondo ideias e sugerindo reações. No próximo encontro, dia 12 de dezembro, o tema será experimentação e o convidado da vez é o artista plástico Tito Senna. Estamos aprontado uma novidade e esperamos vocês por lá.

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Restrição como possibilidade

Como abordar o tema restrição sem ser muito abrangente? Essa questão propõe elaborar algumas fronteiras para nortear esse post e manter o foco. Em primeiro lugar, o que desenvolvemos é pinçado sob a ótica da criatividade com base nas pesquisas que fazemos nos últimos anos e também assumindo alguns pontos que geramos juntos nos encontros do grupo de estudos ZineDisfunção na BPN. Esse primeiro recorte ajuda a visualizar a fronteira e ao mesmo tempo propõe um primeiro entendimento da ideia de restrição, como uma delimitação de espaço para que possamos compreender o todo. Estabelecendo esse acordo, que um processo independe do seu complemento criativo, artístico, acadêmico e por aí vai, possui uma aparência similar a de uma cebola, onde camadas e camadas de ideias e/ou possibilidades (fronteiras entre espaços) agrupam-se orbitando em um centro comum que chamamos de “o cerne da questão”, e todas as camadas se relacionam, de certo modo, com a ideia central configurando assim um único corpo no espaço.

A ideia da cebola, “fronteiras”, define-se da seguinte maneira, como diz o priberam: “Zona de território imediata à raia que separa duas nações”, essa afirmação favorece o discurso de limite, mas não um limite de entendimento, mas de espaço/corpo que pode ser “infinito” em possibilidades. E assim surge a questão: do que se compõe um espaço? Creio que por esse caminho perderemos o foco da definição de restrição, mas podemos pensar que restringir é um recorte espacial, um parâmetro que usamos para compreender um todo e seus elementos. É compreender que essa palavra carrega pré-conceitos que dificultam seu entendimento – afinal restringir não pode ser algo bom, já que nos impede de ir. Abordar esse tema, enquanto processo criativo, é lidar com a famosa caixa que devemos pensar fora. Afinal, como podemos resolver um problema pensando fora dele? Foram esses os pontos que discutimos no último encontro do grupo de estudos, dia 03 de outubro, e que esse post tenta resgatar as fagulhas de um dia restritamente plural.

A discussão começou com uma tentativa de definir a palavra restrição e perceber onde ela se apresenta de uma maneira pontual. De forma espontânea, começamos com recortes muito abrangentes, como o planeta que é uma restrição do espaço, e em seguida a sociedade que é uma restrição de comportamento, mas a medida que os exemplos foram se acabando fomos forçados a nos aproximar do centro da questão, e nessa hora todos já concebiam a ideia de uma “cebola de territórios”. Cada um com suas fronteiras espaciais, até que o corpo passa a ser uma restrição para nós e com os limites físicos do nosso corpo fomos capazes de pensar soluções que transformam nosso mundo de forma radical. Por exemplo, se não fosse nossa incapacidade de locomoção rápida nunca precisaríamos domesticar animais como os cavalos, logo os carros não existiriam dessa maneira, e assim podemos pensar que as cidades assumiriam outra configuração, ou até mesmo os guindastes que substituem nossos braços de forma limitada em possibilidade, mas exponencial em força, trariam outras formas para nossas construções. Estamos sempre em busca de superar ou lidar com as restrições que se impõem em nosso caminho construindo pontes que fazem trafegar entre diversas camadas dessa cebola.

Todas essas questões trazem uma integração ao indagarmos que restrições são fatores limitadores. Sim, de fato são, mas acima de tudo são fatores delimitadores e só assim somos capazes de compreender e decidir como agir ou reagir a um estímulo. E como não poderia faltar, o tempo é sim um fator limitador que se impõe sobre as condições do trabalho, porém devemos nos atentar ao que o enunciado está dizendo. Ao lidar com uma demanda, todos os fatores podem ser, ao mesmo tempo, limitadores ou estimulantes para uma nova maneira de abordar a questão. E assim dizendo, uma ótima ferramenta para delimitar uma trajetória, que utilizada de forma consciente, abre mais espaço para possibilidades do que impede o desenvolvimento. Ou seja, a forma como lidamos com a ideia de restrição é o diferencial.

O dia na Biblioteca Pública de Niterói se desenvolveu com essas provocações e a incrível participação do designer Walter Mattos, que por mais de 40 minutos falou sobre seu processo de trabalho e em como trabalhar com um nível muito alto de restrições possibilita a concepção de um trabalho justificado e muito eficiente a nível plástico e conceitual. Walter é um dos designers mais influentes no Rio de Janeiro e hoje, com seu portal waltermattos.com, ele apresenta vídeos sobre o uso de ferramentas e análises gráficas com base no uso de grids e estruturas hierárquicas baseadas em geometria e matemática. Ouvir sua palestra foi voltar a um racionalismo Phi das coisas, ao mesmo tempo que nos abriu a cabeça para maneiras de trabalhar e justificar nossas escolhas de forma consciente. Não adianta só fazer, tem que saber o porque está fazendo. Foi com frases desse estilo que ele nos provocou a perceber que o mundo, de fato, está codificado em nossa frente e, como a cebola, tem camadas. O nosso cotidiano é feito de cascas de conhecimento e relacionamentos que podem ser um grande provedor de estímulos criativos, se formos atentos a ele.

Foi assim que o 4º dia de estudos se fechou, com todos trafegando em um universo de possibilidades ao se deparar com uma restrição abrupta, isso foi notável já nos papos pós palestra. Pensar restrições abre e não fecha. Essa é a moral obvia do post, mas só é possível chegar nesse entendimento consciente depois de definir a ideia. Ficamos muito satisfeitos com a ressonância que esses encontros estão proporcionado. O próximo será no dia 14 de novembro e quem chega como palestrante é o biólogo Rafael Franco.

 

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Fotos: Diego Mere, Laura Yunes e Luiza Rezende.

Um dia de caos

Uma rede. É dessa forma que acredito que as ideias e palpites povoam nossa consciência, construindo e transitando entre redes. Difícil saber se esse é realmente um comportamento dos dias de hoje ou se já somos assim desde o início. Recordo quando criança, sem muito o que me preocupar a não ser inventar brincadeiras, que as ideias eram quase uma linha, fato após fato. Claro que sempre me levavam a lugares desconhecidos, lugares de descobertas, mas tudo fazia parte da diversão. Olhar hoje para aquela época faz parecer óbvio não saber o fim da história.

Ter hoje consciência do objetivo, faz transitar pelos palpites, chamo de palpites os fragmentos incipientes das ideias de forma não linear e ansiosa. Não saber mais onde estão os espaços que o acaso pode agir faz tudo ficar mais confuso; a sensação de caos aponta para um fim não de projeto, mas de energia de agir. A sensação do nada é mais forte do que o movimento, esvazia onde deveria encher, e assim constrói, consequentemente, paradigmas que impedem nossos movimentos.

Movimentar-se enquanto criativo é transitar nas maiores distâncias entre dois corpos, é empregar energia em descobertas e estar conectado com o que se faz isento de grandes objetivos, mas construindo gradativamente percepções e diálogos com o fazer seguinte. Essas ideias foram construídas no grupo de estudos do dia 12 de setembro. Nesta imersão, buscávamos discutir sobre o Caos e o Acaso, perceber seus movimentos e ganhos ao ouvir relatos sobre a ação do caos no cotidiano.

O caos é imanente ao nosso pensar

Diferente do que fizemos nos últimos 2 encontros, esse teve uma particularidade: as cadeiras que sobravam (uma ou duas, mas sobravam) cederam espaço para os sofás e poltronas; haviam menos lugares, mas tudo foi proposital. Construimos também uma divisão muito clara entre o lugar de ouvir e o lugar de falar, e, assim como criança investindo nas brincadeiras, começamos a nossa troca de ideias. A  medida que falávamos, mais pessoas iam chegando e os lugares acabando; até que o inevitável aconteceu. Abrimos espaço para o acaso agir: os atrasados que chegavam se deparavam com uma sala confortavelmente cheia, e cada novo corpo no espaço agia com certo desconforto sobre os outros que não sabiam o que fazer, já que no fundo estavam uma pilha de cadeira. Por algumas vezes o problema de espaço foi solucionado pelo chão, que aos poucos se tornou assento e roda. O clima ficava cada vez mais informal, até que o chão não comportava mais e no desconforto do outro, sem saber onde se acolher, e também por perceber que ali existia algo de valor que todos deveriam ouvir, o caos aconteceu e a troca de ideias foi interrompida por um dos ouvintes: “licença, mas precisamos colocar aquelas cadeira aqui! Acho que vai ficar mais confortável para eles”.

Nesse momento todos se moveram. Um grande estímulo gerou reações inesperadas e, mesmo sendo uma reação comum, do estilo típico do dia a dia, todos perceberam que aquilo estava conversando com eles de alguma maneira, que o tema do dia fazia mais sentido do que antes. E nessa hora o comentário sobre estar com um olhar atento foi inevitável. Perceber as minúcias das coisas que nos cercam faz do jargão “o acaso só favorece as mentes preparadas” pertinente.

Logo em seguida, com todos já em seus lugares e com as antenas ligadas, o segundo ato foi uma inversão de papeis. O lugar que antes era de quem aprensentava ficou vazio deixando espaço para quem quisesse falar sobre qualquer assunto, afinal o tema era acaso, caos e também sobre etapas incipientes de estruturas úteis. No início, a timidez foi mais forte e a troca de olhares em tal vazio intensa. Era fácil perceber que mesmo o nada pode ser muito rico em expectativa e em propostas, pois, nesse tempo que precede o ato, as ideias fervilham com grande intensidade. O silencio não se manteve assim por muito tempo, tivemos uma das trocas mais inesperadas que poderíamos desejar. Foram tantas coisas que mal posso replicar, mas que tenho certeza que estou ganhando corpo em meus pensamentos.

Um bom tempo para não parar

Como de costume, o café do Blueberry estava presente e fez a diferença. Dessa vez o café que costuma agitar a galera conseguiu centrar e aliviar a pressão. Quem veio participar do encontro foi a Cat (Catarina Bijalba), que junto com a feitura de  café, mergulha no mestrado em biologia. Nada mais pertinente ter entre nós uma dessas pessoas que, de fato, representa a pluralidade de todos. Porém, naquele momento foi quase icônico ouvir as particularidade de um café que despertava o assuntos. Cat conseguiu a atenção de todos ao falar das particularidades da plantação, e sobre como foi importante a curiosidade de um pastor ao perceber que suas ovelhas, após comerem certo tipos de frutas, ficavam enérgicas e saltitantes. Nada mais pertinente para uma história de acaso que perceber no café o fruto desse acaso. E, como era previsto, esta foi a hora em que o papo e as trocas fluíram intensamente.

Seguindo o evento, a terceira parte foi um convite ao sonho quântico com o neurologista Messias Reis, que falou quase abstratamente sobre a relação de evoluir e a que ponto que conseguimos sonhar, e que nesse sonho consciente estão algumas das leis da física quântica capazes de nos levar a um segundo momento da evolução. Quando disse “em um sonho somos nós e somos o outro, somos as cadeiras, nuvens, tudo ao mesmo tempo”, fez pensar que somos nós mesmos e somos o caos que controlamos e não controlamos nessa realidade. Elevou a percepção de que mesmo em nós existem partes naturais do acaso e que, se tivermos consciência disso, seremos mais eficientes em controlar ansiedades e nos manter como potências de agir.

A próxima imersão será no dia 03 de outubro e, dessa vez, os super poderes do designer Walter Mattos e seus grides vão compor um dia que falaremos sobre restrições.

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Obras e códigos

Um pouco depois do evento, conversei com o Christiano e com a Laura sobre os pedidos para que divulgasse a bibliografia da palestra que apresentei no segundo encontro do grupo de estudos sobre processo criativo na Biblioteca Pública de Niterói, dia 8/8. Como foram de fato muitos autores, alguns com a intenção de destacar seus comentários teóricos e outros pelos seus trabalhos literários, decidimos compartilhar a lista de autores e obras através deste post.

Fiz uma divisão deste modo: primeiro os autores cujas teorias foram discutidas, depois outro grupo com aqueles que desenvolveram obras voltadas para suas experiências durante o processo criativo, e, por fim, um terceiro grupo com autores que nos serviram de exemplos literários.

Separei em três tópicos essa bibliografia, considerando que apresentei apenas os nomes dos autores do grupo de literatura para que façam seus próprios percursos dentro da obra de cada um.

 

Autores (teoria):

Tzvetan Todorov – Introdução à Literatura Fantástica;

Jean-Paul Sartre – Situações I – Críticas Literárias;

Fayga Ostrower – Criatividade e Processo de Criação;

Vilém Flusser – O Mundo Codificado;

Mikhail Bakhtin – Estética da Criação Verbal;

Roland Barthes – O Rumor da Língua (discutimos o texto “A Morte do Autor”);

Paul Valéry – Variedades (discutimos o ensaio “Poesia e Pensamento Abstrato”).

 

Autores e o processo criativo:

Rainer Maria Rilke – Cartas a um jovem poeta;

Virginia Woolf – Um teto todo seu;

James Joyce – Retrato do artista quando jovem;

Henry Miller – A sabedoria do coração (discutimos o texto “Reflexões sobre a arte de escrever”).

 

Autores (literatura):

E. T. A. Hoffmann;

Nikolai Gogol;

Edgar Allan Poe;

Henry James;

Fiódor Dostoiévski;

Gabriel García Marquez;

Mia Couto;

Jorge Luis Borges;

Julio Cortázar;

Machado de Assis;

Murilo Rubião;

Carlos Trigueiro;

Guimarães Rosa;

José Cândido de Carvalho;

Manoel de Barros.

 

Então, lembrando que refletimos os caminhos da literatura fantástica, o que evidenciei com os autores, romances, contos e novelas mencionados. Mas chegamos também em assuntos que apontam para teorias literárias, além dos processos criativos de autores que pouco se limitam ao gênero fantástico.

Que estas leituras abram seus olhares para novas percepções dos códigos.

Mundo Codificado

Como é arriscado começar um texto com esse título, ainda mais sabendo que não leva o crédito necessário para ser uma referência. Porém, talvez essa seja a grande sacada de se falar sobre metáforas, de torná-las vivas para que o conhecimento possa ser transmitido.

Ao estudar sobre processo criativo, muito se discute sobre a evolução do homem e suas criações, mas nada se assemelha a nossa capacidade de metaforizar o mundo, ou seja, manipular nosso entendimento e deslocar significativamente um rótulo para pegar emprestado a sua essência. Esse tipo de percepção foi o guia para a construção do segundo encontro do ZineDisfunção na BPN. No dia 08 de agosto voltamos para a sala que quase podemos chamar de nossa, e novamente com o Blueberry Pie, montamos nosso palco, dessa vez com cadeiras diferentes, mais rústicas e pertinentes ao tema.

A proposta do dia era falar sobre codificação, tal como Vilem Flusser já havia comentado por muitas vezes em seus ensaios. Reunimos meia dúzias de provocações para o clima acontecer e, de fato, ele aconteceu. O assunto surgiu com um resgate sobre o que rolou no primeiro dia, mas sobre isso vamos deixar para que você volte no post A profundidade do primeiro mergulho e descubra o que discutimos. Voltando ao evento, logo o tema se mostrou enigmático; arriscamos descobrir a diferença entre olhar o futuro e o passado em busca de nos percebermos no presente. Foi assim que definimos o problema e o enigma, de modo que cada um dos participantes, com sua particularidade, apresentou pontos e preocupações que complexificaram as ideias, porém foi inevitável sentir que um nos força a olhar para o passado para resolver, ou melhor solucionar uma questão de domínio de códigos ou línguas, muitas vezes extintas, a fim de encontrar algo que faltava – isso podemos chamar de enigma, enquanto o outro nos vira em direção ao desconhecido. Falar sobre problemas de ordem criativa é olhar para o futuro em busca de perceber como ele se constrói, levando em consideração estruturas complexas que incentivam a imersão no assunto desta forma.

Uma ótima definição que chegamos em meio a tantos papos foi esta: códigos são estruturas complexas de símbolos organizados e normatizados com o objetivo de comunicação de qualquer natureza. Logo, podemos dizer também que: para que possamos ser criativos, antes é necessário perceber os códigos que configuram determinados conhecimentos e, de fato, conseguir manipulá-los, propondo alternativas inéditas e otimizadas – que podemos chamar de criativas sobre determinado aspecto de uma demanda.

Criatividade não é apenas novo, tampouco algo espontâneo, mas sim algo que é validado e comprovado como mudança para muito melhor, que traz consigo um sorrir de tanta surpresa, que mesmo ao falar sobre assuntos sérios seria inevitável reagir de outra forma ao seu brilhantismo. Em certo momento do grupo de estudos, era notável que todos estávamos perseguindo o mesmo objetivo: recortar um código para que fosse possível discernir alguma métrica, seja ela o café, como a Agnes Lima comentou sobre seu envolvimento e a criação de uma identidade para o café que nos serviu, seja ela a literatura, como a Luiza Rezende esclareceu sobre seus contos e estudos.

O Coffee No Break, como no primeiro dia, foi fundamental para que todos se encostassem e para libertar ideias das cabeças. Em questão de segundos a sintonia tomou conta do quadrado, até sentarmos novamente para ouvir a Luiza contar um pouco (nem tão pouco assim) sobre literatura fantástica. Mas antes de falar sobre a palestra, é interessante explicar como foi o processo de feitura da mesma, que é tão importante quanto o ato.

Mais ou menos uma semana antes do dia “D”, fomos ensaiar com a Luiza o que ela canalizou para sua apresentação e, para nossa felicidade, as expectativas de conteúdo foram tão superadas que ficamos confusos sobre como editar tanta informação valiosa. Luiza dissertou com tanta vida por quase 2h, destacando pontos críticos e momentos-chave num balé contemporâneo de gestos e envolvimento. As ideias fluíram como se estivessem sendo coreografadas por ela.

Havíamos acordado que a palestra teria apenas 30 minutos e, com muita cautela, tivemos que cortar e enxugar tudo que podíamos. Aos poucos, os cortes fizeram o teor do conteúdo realmente florescer no discurso. Percebemos que fatores limitadores também compõem os códigos de um mundo que se comunica intensamente, e assim conseguimos falar sobre tudo. Luiza falou sobre o surgimento da literatura fantástica e todos os seus desdobramentos para exemplificar as alternativas percebidas por autores que empurravam as fronteiras para mais longe, tornando o gênero fantástico muito maior do que o próprio nome consegue comportar.

O dia foi longo, mas muito rico. Entre códigos, café e literatura, todos nós saímos muito acordados e por dias recebemos mensagens de pessoas que ainda estavam elétricas por conta de tantas novas possibilidades. A proposta dessa imersão em processo e criatividade é justamente nos fazer sentir no presente e perceber quando estamos adiando atividades que podem fazer diferença para nossas vidas agora, como talvez começar a pintar.

Enfim, esse post é um convite a estudar conosco nos próximos dias e também para adiantar que, um pouco mais a frente, compartilharemos a bibliografia da palestra da Luiza aqui no Reverbe. E se mantenha acordado, o próximo encontro será no dia 12 de setembro.

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A profundidade do primeiro mergulho

Foi assim, discutindo sobre a diferença entre nós e os rinocerontes e a capacidade que temos de fazer metáforas, foi assim que o sábado começou. Dia 11 de julho de 2015, um dia quente para um inverno, porém muito bonito do lado de fora das janelas da Biblioteca Pública de Niterói. Estávamos lá eu, Laura Yunes, Diego Mere, Luiza Rezende e Diogo Camillo, que iria palestrar no enceramento do dia, e organizávamos os últimos detalhes do nosso grupo de estudos sobre processo criativo.

A publicação digital ZineDisfunção deu lugar a um grupo de estudos mensal, de mesmo nome, sobre criatividade e seus padrões – já falamos muito sobre isso no post anterior, e todas as inquietações que tínhamos ao pesquisar sobre o assunto foram traduzidas para esse novo formato.

Dividimos o grupo de estudos em três partes, uma onde apresentávamos algumas provocações para propor que todos interagissem. A intenção era refletir sobre as ideias que estão sempre em nossas cabeças mas que, por muitas vezes, não temos respostas ou não dedicamos tempo bastante para entendê-las. Provocações que não sabemos qual será o retorno, mas que propõem um mergulho muito bom no campo das ideias, como: “O que é criatividade?” ou “Crianças são criativas?”. Coisas incríveis acontecem quando provocamos as pessoas, elas falam e aos poucos vamos construindo conhecimento e troca de forma muito natural.

Porém, tudo tem seu tempo, e o segundo momento do evento se construiu com a Blueberry Pie e seu café encorpado de ideias, onde fez, com um outro estímulo, com que ninguém saísse do clima e do tema. Assim pudemos perceber que as conexões estavam ali, flutuando sobre as nossas cabeças, e que a ambientação do espaço se fez mais presente do que nunca.

Junto com Marlus Araujo, uma das mentes mais inquietas no campo da programação – que tivemos o prazer de conhecer – fizemos um “termômetro” para medir as ideias. Com um microfone, captávamos o som do ambiente e a imagem projetada na parede se convertia em distorções de acordo com a temperatura das conversas. E quanto mais se falava, mais se pensava, mais participávamos, mais podíamos ver que quase não dava mais para ler o que estava escrito na parede; um sinal de que tudo estava acontecendo e que as ideias estavam sendo geradas com grande intensidade.

Se quiser experimentar, vamos deixar o link logo abaixo (use o Chrome para ver o resultado):
http://marlus.com/zine-disfuncao

Podemos até chamar de terceiro ato, mas foi somente a volta do “Coffee No Break“, onde Diogo Camillo, nosso convidado para ministrar uma palestra sobre modelos mentais, entrou em cena. Diogo é designer, consultor em inovação social, inquieto e questionador, e no último sábado ele levou um saco de pulgas para todos nós, principalmente quando começou a palestra dizendo que existem dois modelos mentais e que eles podem nos ajudar, e muito, nos momentos criativos. O equilíbrio entre esses modelos foi o tema central de toda a discussão. E foi assim, cheio de perguntas e também com algumas provocações, que fechamos o primeiro dia do grupo de estudos sobre criatividade mediado pelo Sopa.

Esse é o clima que procuramos fomentar, um lugar onde as ideias possam circular sem grandes impedimentos e, mais do que isso, que possam encontrar ambientes onde as pessoas estejam preparadas para articular as grandes ideias que podem mudar o curso de nossas próprias histórias quando se fala de abordar a criatividade como força de trabalho.

O grupo de estudos é uma parceria do Sopa com a Biblioteca Pública de Niterói e vai acontecer uma vez por mês, sempre aos sábados, até dezembro. O próximo será no dia 08 de agosto e o tema escolhido é Mundo Codificado. O grupo é gratuito e é para todos que têm interesse no assunto.

 

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Fotos: Laura Yunes, Diego Mere e Luiza Rezende

 

 

Imersão em processo criativo – ao vivo na BPN

Pensando nos que, por algum motivo, não poderão estar presentes no ZineDisfunção • BPN, vou atribuir essa culpa à Lei de Murphy, que insiste em nos perseguir, vai aí uma ajuda: é por acreditar que podemos aproximar as distâncias entre as fronteiras e deixar os imprevistos mais borrados, que vamos transmitir ao vivo o grupo de estudos.

Se, por ventura, chegou aqui por acaso, essa é a transmissão do grupo de estudos mensal sobre processo criativo que acontece na Biblioteca Pública de Niterói. A proposta é convidar as pessoas a pensar seu lugar no mundo, que nos cobra e muito que sejamos mais criativos o tempo todo, e assim geramos grandes consequências e paradigmas em nossas rotinas.

Nesta edição, a primeira de seis encontros, vamos abordar o tema Formas e Pensamentos e convidamos o designer/consultor em inovação social Diogo Camillo para ministrar uma palestra sobre modelos mentais.

E para deixar uma pequena provocação, o Blueberry Pie Coffee & Co confirmou presença e vai levar seu Coffee No Break repleto de  questões e percepções sobre os processos de feitura do café.

Estamos reunindo ideias por acreditar que essas colisões são necessárias para que as evoluções aconteçam.

Cidadania, Democracia e Novas Tecnologias de Informação e Comunicação

A informação e a comunicação são direitos políticos fundamentais para o exercício da cidadania. Para participar democraticamente, se manifestar e lutar por direitos, é indispensável ter acesso a informações, as mais qualificadas e amplas possíveis. E sem livre comunicação as informações não circulam. Parece que estamos diante de um círculo vicioso de interdependências. Mas onde está o problema? Exatamente no poder de controlar a informação e a comunicação. Em todas as sociedades, em todos os tempos, informação e comunicação são questões de poder. Mais do que com armas e força bruta, para democratizar o poder é mais eficaz o esforço de democratizar a informação e a comunicação. Esta é uma tarefa essencialmente de cidadania, no seio da sociedade civil, que deve ser capaz de produzir e difundir informações estratégicas, motivadoras, criadoras de imaginários agregadores e capazes de gestar movimentos cidadãos irresistíveis.

É em torno a tais questões que se desenvolve na sociedade o debate fundamental da democratização da comunicação. Entre nós, ainda prepondera um poder privado que controla de forma dominante os grandes meios de comunicação e o fluxo de informações, transformando-os na base de um negócio privado. Pior, a liberdade de comunicação se confunde com a liberdade dos donos dos meios de comunicação, ao invés de ser liberdade da cidadania em aceder a informações e se comunicar. Mesmo diante do monopólio, a cidadania soube ser inventiva e criar formas alternativas de comunicação de si e para si. No nosso Brasil, a luta contra a ditadura se fez quase na clandestinidade, na base de panfletos, fitas cassete, vídeos educativos, jornalecos de sindicatos e movimentos. Claro, mesmo sob censura, tivemos Pasquim e Movimento, que ajudaram e muito.

As novas tecnologias e informação e comunicação (NTIC), baseadas na informática e na cultura digital em rede, sobretudo a partir dos anos 90 do século passado, vêm abrindo novas e surpreendentes possibilidades para a cidadania. Aqui se destaca a Internet e seus inúmeros desdobramentos. Estamos diante de uma revolução cultural com grande impacto na política, no modo de ver o mundo e o nosso lugar nele, no modo de nos relacionarmos e criarmos um novo saber, compartilhado no ato mesmo de produzi-lo. Vivemos uma sensação de simultaneidade, de estarmos num lugar, mas conectados praticamente com quem quer que seja, participantes à distância do que se passa em outros lugares. Claro, o grande negócio tenta privatizar e controlar este maravilhoso campo para a sua acumulação. Mas cresce de forma poderosa a ideia de que estamos diante de um bem comum criado que não pode ser mercantilizado. Sua força reside na colaboração, no compartilhamento, na liberdade, na construção de redes sociais, portanto, na manutenção de seu caráter de bem comum, de todas e todos.

Hoje uma frente de luta cidadã que precisa ser a mais radical possível é superar a exclusão digital, pois muita gente ainda não tem acesso às NTIC. Outra frente é a multiplicação de iniciativas autônomas de informação e comunicação, abertas ao mundo. Claro, a língua ainda é uma barreira, mas cada vez mais as novas tecnologias permitem desenvolver softwares tradutores, facilitando uma espécie de comunicação planetária. Aliás, a primeira grande batalha cidadã na era digital iniciou em torno do software livre.

Mas temos um desafio novo: as possibilidades das redes sociais na emergência de novos movimentos, como em grande medida ocorreu entre nós no tal “estouro da cidadania” de junho de 2013. Nova comunicação trará, com ela, novos sujeitos coletivos? Uma questão clara é como articular a necessidade de tornar visível o invisível na agenda pública – aquilo que não é notícia para a mídia negócio? Ao mesmo tempo, como construir e disputar interpretações e sentidos, propostas e direções, capazes de criar movimentos que radicalizem e revitalizem a democracia? São muitos e inspiradores os desafios para organizações de cidadania ativa.

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