CandidoReverbe
12/03/2015
por Christiano Mere
Categorias: Um Papo
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Cidadania, Democracia e Novas Tecnologias de Informação e Comunicação

Cidadania, Democracia e Novas Tecnologias de Informação e Comunicação

Para abrir os olhos; é assim que começo este post. Convidamos o sociólogo e diretor do Ibase, Cândido Grzybowski, para nos emprestar suas palavras com a promessa de usá-las a serviço dos olhos semicerrados. E foi assim que, de forma quase inusitada, as ideias se apresentaram em uma "crítica" ao comportamento cidadão. Fez das interferências que o "digital" propõe ao construir um indivíduo mais conectado e atento ao seu papel, as palavras-chave para entendermos o nosso "lugar" no mundo. A comunicação é mais poderosa do que qualquer arma de fogo, e a capacidade que as ideias têm de fluir é o que fará diferença.

A informação e a comunicação são direitos políticos fundamentais para o exercício da cidadania. Para participar democraticamente, se manifestar e lutar por direitos, é indispensável ter acesso a informações, as mais qualificadas e amplas possíveis. E sem livre comunicação as informações não circulam. Parece que estamos diante de um círculo vicioso de interdependências. Mas onde está o problema? Exatamente no poder de controlar a informação e a comunicação. Em todas as sociedades, em todos os tempos, informação e comunicação são questões de poder. Mais do que com armas e força bruta, para democratizar o poder é mais eficaz o esforço de democratizar a informação e a comunicação. Esta é uma tarefa essencialmente de cidadania, no seio da sociedade civil, que deve ser capaz de produzir e difundir informações estratégicas, motivadoras, criadoras de imaginários agregadores e capazes de gestar movimentos cidadãos irresistíveis.

É em torno a tais questões que se desenvolve na sociedade o debate fundamental da democratização da comunicação. Entre nós, ainda prepondera um poder privado que controla de forma dominante os grandes meios de comunicação e o fluxo de informações, transformando-os na base de um negócio privado. Pior, a liberdade de comunicação se confunde com a liberdade dos donos dos meios de comunicação, ao invés de ser liberdade da cidadania em aceder a informações e se comunicar. Mesmo diante do monopólio, a cidadania soube ser inventiva e criar formas alternativas de comunicação de si e para si. No nosso Brasil, a luta contra a ditadura se fez quase na clandestinidade, na base de panfletos, fitas cassete, vídeos educativos, jornalecos de sindicatos e movimentos. Claro, mesmo sob censura, tivemos Pasquim e Movimento, que ajudaram e muito.

As novas tecnologias e informação e comunicação (NTIC), baseadas na informática e na cultura digital em rede, sobretudo a partir dos anos 90 do século passado, vêm abrindo novas e surpreendentes possibilidades para a cidadania. Aqui se destaca a Internet e seus inúmeros desdobramentos. Estamos diante de uma revolução cultural com grande impacto na política, no modo de ver o mundo e o nosso lugar nele, no modo de nos relacionarmos e criarmos um novo saber, compartilhado no ato mesmo de produzi-lo. Vivemos uma sensação de simultaneidade, de estarmos num lugar, mas conectados praticamente com quem quer que seja, participantes à distância do que se passa em outros lugares. Claro, o grande negócio tenta privatizar e controlar este maravilhoso campo para a sua acumulação. Mas cresce de forma poderosa a ideia de que estamos diante de um bem comum criado que não pode ser mercantilizado. Sua força reside na colaboração, no compartilhamento, na liberdade, na construção de redes sociais, portanto, na manutenção de seu caráter de bem comum, de todas e todos.

Hoje uma frente de luta cidadã que precisa ser a mais radical possível é superar a exclusão digital, pois muita gente ainda não tem acesso às NTIC. Outra frente é a multiplicação de iniciativas autônomas de informação e comunicação, abertas ao mundo. Claro, a língua ainda é uma barreira, mas cada vez mais as novas tecnologias permitem desenvolver softwares tradutores, facilitando uma espécie de comunicação planetária. Aliás, a primeira grande batalha cidadã na era digital iniciou em torno do software livre.

Mas temos um desafio novo: as possibilidades das redes sociais na emergência de novos movimentos, como em grande medida ocorreu entre nós no tal “estouro da cidadania” de junho de 2013. Nova comunicação trará, com ela, novos sujeitos coletivos? Uma questão clara é como articular a necessidade de tornar visível o invisível na agenda pública – aquilo que não é notícia para a mídia negócio? Ao mesmo tempo, como construir e disputar interpretações e sentidos, propostas e direções, capazes de criar movimentos que radicalizem e revitalizem a democracia? São muitos e inspiradores os desafios para organizações de cidadania ativa.

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