DLP
10/06/2015
por Luiza Rezende
Categorias: Conto, Curiosidades
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Um fenômeno chamado G.T.

Um fenômeno chamado G.T.

Parece um dia como outro qualquer, mas não é. A Língua Portuguesa esconde em seus cantos detalhes que até são percebidos por olhos ligeiros, porém aqueles que descobrem suas palavras nas pontas dos dedos podem sentir o lapidar de um língua rica e que, ainda assim, possui fendas para um imenso universo com toda a sua complexidade.

Nem mesmo entre os armários da cozinha; no vão entre a poltrona e o sofá da sala; entre os cantos escuros dos azulejos do banheiro; pelas diversas gavetas da estante no escritório; dentro do emaranhado dos pêlos do cachorro; na dispensa, encolhido entre os sacos de feijão e farinha. Nada. Não estava nem onde poderia estar caso tivesse perdido pelo caminho de chegada em casa. Uns quatro passos após a porta de entrada, mais uns cinco até a cozinha, entre a geladeira e a pia, outro mais até a mesa de jantar. Havia sumido. Sentia a falta a qualquer momento asfixiando seu vocabulário sem que houvesse algo a ser feito. Seu início estava desaparecido, foragido sem que soubesse como fá-lo retornar. Evaporado entre as palavras, aquela letra seria um buraco exclamando para sempre uma ausência nas suas escrituras.

E mais do que isso! – um desespero lhe assustou o pulmão – justo com ela, professora de português há tantos anos contados por suas rugas. Alfabetizara muitos quando nova, as palavras frescas brotando entre seus galhos novos. Sentia a força das frases, a intensidade dos adjetivos. Tinha orgulho de trabalhar com os ornamentos do que se quer dizer. Mais adiante, lecionara para colégios exigentes, insistindo no bem entender dos versos alexandrinos que dizia Machado. E depois, no desmembramento das formas pelo bem da poética e dos instintos, foi que chegou a professora universitária, efetuando aulas meticulosas para se compreender a importância de cada letra expressiva nas palavras distribuídas pelos textos. E justo com ela aquele descuido.

Aconteceu logo naquela tarde, ou pelo menos foi quando se deu conta do tal sumiço. Fumava sentada no sofá com seu cachorro deitado no chão ao seu lado, mirando ela vez ou outra para verificar sua total concentração naquele livro chamado Dicionário. Rabiscava algumas notas num papel solto, e por vezes parava a leitura para dar mais um trago longo e mirar o que diziam as imagens na televisão configurada para o mudo. E novamente se preparava para voltar à leitura das palavras iniciadas por “C”, quando sentiu a luz se apequenar com lentidão até findar-se num estalo oco que parecia vir das quenturas das lâmpadas. Queimaram pela segunda vez naquela semana. Todas juntas, desgraça! Sentiu o breu estranhamente lhe invadir o escuro interno, parecendo farejar algo, não sabia exatamente o quê. Poderia também ser coisa da sua cabeça, um medo do escuro que por vezes a gente descobre. Trocou as lâmpadas queimadas e logo tudo estava iluminado. Seguiu, então, a leitura novamente pela letra “C”; foi quando viu a palavra adiante fatalmente descuidada, tremelicando um vazio pelas sílabas. Estava escrito “c b n ” onde deveria ser “cabana”, aquela ela já havia passado os olhos. Mais abaixo leu “c beç ” onde antes estava “cabeça”. Eram os “ás” – todos eles haviam sumido. Revirou as páginas do dicionário e nada via. O “a” havia sumido como se precisasse apenas de segundos para se extinguir, como se nunca tivesse existido. Mas ele estava logo ali um pouco antes, certeza que os vira. Não, não conseguia organizar os pensamentos. Um dicionário sem “a”; quanto descuido!

Preferia não insistir naquela confusão e foi até o banheiro jogar uma água no rosto, talvez escovar os dentes e se manter acordada, até porque podia ser o sono ou coisa do tipo. Mas ao pegar a escova no armário escondido detrás do espelho, desequilibrou-se acometida pela surpresa. Ali também havia espaços frios pelas palavras: ” gu  boric d ” ; “P st  de dente”; “S bonete”. O que será que tinha acontecido com a letra “a”? Silenciosa, refletindo a composição das palavras que avistava pelo caminho, destrinchando a morfologia do que sabia compreender do complexo português, foi percebendo que estava diante de um fenômeno raro que poucas vezes ouviu falar e jamais havia presenciado. Tratava-se do fenômeno de G.T., em que uma determinada letra parece sumir do vocabulário da pessoa, atingindo não somente os olhos, que não são mais capazes de a enxergar, mas voz, audição e escrita. Ainda que exista e que saiba da sua existência, o Fenômeno de G.T –  abreviação de Gira Trunco – impossibilita o contato da pessoa com aquela letra. Os casos mais frequentes acontecem com uma vogal, que deverá ser para sempre esquecida pelo vocabulário de quem outrora a conheceu. Identificando o caso, sentou-se no sofá fatigada. Seria o suficiente acomodar-se àquele “tarde demais” que a mente insistia? Talvez existisse um “a” ali num canto qualquer, como que caído pelo esquecimento de seus bolsos pequenos. Talvez o encontrasse. Nada teria a perder se ao menos vasculhasse os segredos daquele apartamento.

E não havia frase que dissesse qualquer auxílio para encontrar aquele “a”. Pela casa não estava, e o perdia mais ainda de seus últimos resquícios quando avistava as palavras tremelicando seus defeitos nos papéis distribuídos pela mesa. E, invadida por um descuido do desespero, seguiu até sua estante bufando o medo que permitia ser acomodado em suas têmporas, suando o calor daquele dia incomum e de poucas palavras. Jogava os livros no chão assim que percebia não existir um “a” sequer nem nos títulos, nem nas folhas de rosto. Por toda parte, nada restava daquela letra inaugural, da vogal que faz nascer as delongas do que se diz de mais simplório, de onomatopéia a substantivo. Suplicava a cada folha, gemia, insistia na possível forma daquele “a” escondido, talvez de cabeça para baixo, talvez entre uma folha e outra ou, isso!, na brochura! Mas nem que rasgasse todos aqueles livros o encontraria. Qualquer que fosse o “a”, ele estava tão perdido quanto o tempo contava novos minutos, que, prolongando-se, iam desabrochando novos efeitos daquele ruído G.T.. Foi o que compreendeu assim que arriscou um berro. Forçava gritar um “ahhhhhh” que expelisse de si o assombro daqueles instantes, mas tampouco isso. Já não conseguia dizer mais a letra nem que a infiltrasse secretamente entre os fonemas. Nada saía. Quando tentava, surgia sobre o som do que dizia um silêncio bizarro que parecia uma surdez momentânea, e logo em seguida compreendia os sons dos “vês”, “gês” e “erres”. O som piscava algumas palavras sem sentido. Teria que se readaptar ao que ouvia; acostumar-se a deduzir antes mesmo da palavra ser dita que, dentro dela, um “a” surdo se escondia. Inquietava-se. Por que com ela? Buliçosa por letras e palavras, pela construção e desconstrução do que se conta. Logo ela, amante do que diz e faz dizer. Perdia uma parte do que definia seus propósitos, um pedaço daquilo que queria ao menos ter a possibilidade de expressar.

E se escrevesse!? Supôs no pensamento entravado pela dúvida. Era uma possibilidade. Talvez redigido conseguiria avistar a vogal pela última vez. Poderia se despedir de seus contornos, ao menos. Olhava o tempo prevendo a morte quase completa daquele “a” que já pouco existia dentro dela, ainda que insistisse em rabiscar futuras esperanças. Suas mãos tremiam contra o papel, a caneta frouxa fazia riscos deslizando pelos dedos suados. Aquela era a sua última esperança. Augurava um “a” que fosse, ao menos um que a fizesse alumbrar o arrojo daquela letra que alenta alvores e adventos, ao menos um “a” que lhe acalmasse a angústia, a ausência do que jamais algum dia havia atentado o afastamento ou admitido o aniquilamento assim tão áspero e acabrunhado. Foi testando a caneta no papel, fez umas letras, uns rabiscos e pensou na própria assinatura – seu nome tinha o que procurava. Muito bem, escreveria Ágata na rapidez de sempre. Faria o primeiro “a” comprido, esbarrando nas linhas debaixo, do jeito que ficava mais bonito. Isso, faria assim. E fechou os olhos e fez. A assinatura durou o tempo habitual, já acostumado com o movimento da caneta. Sentia-se mais calma. Talvez não sofresse todos os sintomas. Este, ao menos, lhe parecia intacto. Sorria pelas mãos, pelos dedos dançando o trajeto do nome, divagava sobre a possibilidade de dar um jeito naquilo tudo. Abriu os olhos tranquila até ler seu nome com vazios decorados, o papel dizendo apenas ” g t ” no lugar de Ágata. G.T.. Lia e relia; não conseguia desgrudar os olhos arregalados da coincidência de possuir em seu nome, e desde sempre, o tal fenômeno engolidor de vogais. Transformara-se, chamaria-se G.T., um nome obtuso de forma e sentido. Não seria mais ela. Atestando o fato, faltou-lhe voz, sentiu a cabeça girar com dores agudas que apagavam suas esperanças uma por uma como velas equilibradas em seus instintos. Encolheu o corpo sobre a cadeira e chorou durante um tempo prolongado pelas conjunções imperfeitas.

Foi tomada pelo desespero sem que houvesse outro rumo. Compreendia o seu destino de ser incapaz de dizer o que lhe falam os “ás”. Nenhum mais. Sem que ao menos pudesse entender o que falaria o “a” dos outros. E seria complicado demais reformular uma maneira de ler, ouvir, dizer. Nada faria muito sentido nem mesmo aos artigos. Muito menos em suas aulas, ou nos textos lidos. Aposentaria, por certo; não haveria o que fazer senão isto. Teria que pensar em algo que a deixasse em funções mudas. Talvez uma produtora de dobraduras, pintora de insetos ou jardineira nas casas de pedra. Sentia-se pressionada por tantos pensamentos e tantos por vezes isentos de “ás”, o que lhe obrigava a revisar tudo que refletia diversas vezes, num processo novo e já cansativo. Estava tão angustiada com toda aquela mudança repentina que transformava seus morfemas e formigava em sua pele uma sensação de esquecimento das devidas pontuações. A solidão chegava em passos discretos, como nunca antes havia chegado. Pelo silêncio daquela deformação, a professora G.T. sentia invadir o que bem queria dizer, reprimindo não somente seus “ás” mas tudo aquilo que dizia ela ao seu redor, como os cômodos, móveis, plantas, luz. E pouco a pouco não sobrou um “a” sequer; pouco   pouco n o foi existindo m is um jeito de dizer seus intentos, seus entendimentos, n d . Tornou-se um descuido no meio de t ntos furos nos dizeres. Desisti , n o f l v  q se n d  j . Est v  t o  b tid  por n o  comp nh r  s t lh s  bob lh d s d s p l vr s que surgiu em si um silêncio revestido pelos prenúncios d  mudez, onde repousou seus chi dos pelos verbos seguintes.

10 de junho, Dia Internacional da Língua Portuguesa

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  • Laura Yunes

    Fiquei tão angustiada quanto a Ágata!

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