Milho
25/07/2015
por Luiza Rezende
Categorias: Conto, Curiosidades
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Dia Nacional do Escritor

Dia Nacional do Escritor

Seria muito pretensioso resumir, logo no Dia Nacional do Escritor, o que percebemos e acreditamos ao falar sobre autores e seus processos. Porém, produzir com essa responsabilidade é ter pano para muitas metáforas. E é assim que a Luiza Rezende tece o conto "Sina soez”, que nos convida a embarcar no ritmo e tempo das suas percepções sobre a construção do autor.

Sina soez

Que sorte a dele. Com aqueles olhos suplicando um cinza remexido pelos dias do ano. Velho, pesado dentro daquele corpo que dizia muita coisa sem que soubesse as conjunções apropriadas. Um homem manchado em sua cor de terra, os cabelos afetados pelos pronomes do giz. Passou a vida toda olhando as ondas daquela baía, desmanchando seu tempo num banco que lhe dava algumas poucas histórias para ler no mundo. Sorte, pode-se dizer. Que prazer este senhor deve ter de tocar a comida com pouco caso, porque é a mesma de ontem e de dez anos atrás, feita em sua própria cozinha. Sentia o paladar de qualquer jeito, sem que tivesse o desprazer de comer ovos querendo algo mais enriquecido; se soubesse entender a palavra “enriquecido”, ao menos.

Andava pela praça, de tarde, falando pouca coisa aos vizinhos, ignorando as estruturas programadas daqueles padrões dos últimos dias: coisas sobre gastar dinheiro, ter uma profissão, uma avidez por conhecer algum outro país que não aquele de insultos políticos e morais onde vivia. Mas tinha sorte, não entendia dessas coisas. Apenas lhe agradava o costume de ver a tarde nadar pelas cores e dominar as próprias despedidas. Via isso mesmo; era poeta no estômago. Sentia calafrios toda vez que percebia o sol esbarrar numa nuvem mais clara, manchando umas tintas vermelhas com outras azuis. Gostava quando era espontâneo o momento de um pescador jogar uma rede ao mesmo tempo que os pássaros voejavam juntos do asfalto para o céu, mexendo com as estruturas do dia contado por horas. Via os esforços de uma vida entre seus pés dentro daquelas formigas espremidas sob as folhas que arrastavam. Sorria para o molejo dos barcos, apertando os dedos contra o fígado que doía todos os dias no mesmo horário, às duas e quarenta e sete. Piorava se fosse terça, que era dia mais bonito. Se chovesse, o velho abria a janela de casa e ficava de lá mesmo, revirando os olhos para o retrato empoeirado da senhora de branco. Eram belezas equivalentes, todas fenecidas ao fim do dia, despedidas para que houvesse validez no sustento do tempo e das coisas que nele se perdem e morrem. Lembrou ainda daquele seu cachorro, um homem forte – era um homem aquele cachorro – que certa vez salvou um rapaz das maldades de outro homem – esse sim era bicho – que ninguém sabia de onde havia chegado, mas que havia vindo pra furar a prosperidade de uma gente boa que tentava viver por ali quase que escondida. Justo naquele bairro, que nem a chuva fazia maldade. Mas era sortudo o homem. Tinha ternura nas águas dentro da vista, e nem dava importância aos problemas. Os poucos dentes que resistiram às cachaças ainda abriam uma graça ou outra pelos sorrisos. Isso quando ria, que era mais difícil a cada mês. Lembrava talvez com mais ternura que todas as demais lembranças do nascimento daquele filho de cabeça chata e olhos de jabuticaba, como os da moça no retrato. E toda vez que o mar remexia quando alongava as horas no banco da rua, emergia na memória aquele parto que vasculhou o canto apertado de sua mulher. Foram vinte horas de agonia. O dia que o cinza de seus olhos empalideceram, assim como a pele daquela dama de branco, da mesma fotografia, mulher e dona do filho ali vivo, diferente dela. Um ano difícil foi aquele, perdido entre os papéis que foram muitos, mais do que todos os outros. E não sabia mais se aquela recordação era triste ou feliz, mas nunca a perdia pelos escombros sujos do cérebro. Ficava sempre ali provocando os dias calmos.

Criou o menino no meio de peixe e saveiro. Ele gostava de catar os tatuís das praias, e aprendeu cedo a fazer nós complicados daquele pescadores obcecados pela maresia. Mas aprendeu por aprender, porque fazia pouco de pescar como os outros. Gostava mesmo do chão, de fazer correr carrinhos de rolimã e de catar sucata pra montar objetos de mentira. Uma vez inventou um telefone com um pedaço de tubo velho que haviam descartado e alguns cadarços esquecidos na gaveta. Passava o dia todo falando no instrumento de mentira. O pai achava graça, pensava que aquilo dizia alguma felicidade sobre o futuro daquele cabeça chata com olhos frutíferos. Até deu frutos; mas levou com ele. Aos dezoito o menino, diferente dele, sentiu a coceira de olhar a vida pelo outro lado da terra. Mudou-se para uma cidade cujo nome pouco fazia diferença e nunca mais deu sinal de respirar, nem mesmo pelo telefone. Mas tinha sorte o homem, porque aquilo lhe parecia ser coisa comum de acontecer. Filho, quando vira gente, deixa de ter apegos e vai embora mesmo…que esteja com a vida boa, a barriga cheia e acompanhado por alguma mulher que tire de si uns filhos; mais de quatro, pensava, mais do que aquele único que ele teve e não tinha mais. Só que pouco lhe apertava o peito toda essa história, e preferia desse jeito, embora o silêncio da tristeza operasse em si como um gás danoso que se espalha sem que seja visto, cobrindo o seu corpo com uma cor azulada de quem morre ainda vivo. Percebeu durante um dos campeonatos de damas na praça que estava surdo de um pulmão; sentia ainda, por vezes, uns músculos dos olhos remexerem com ansiedade, e acostumou-se com aquela secura falando na boca. A crise maior foi quando chegou no bairro um pipoqueiro que lia as verdades do futuro nos caminhos de restos de milho. Era um homem simples,  acumulando idade pelos cabelos brancos. Tinha a coluna curvada e um nariz saliente que lhe ofereciam propriedade e aparência de mago, vidente entre as sobras de milho e sal. Ficava na mesma praça do campeonato, e fazia pouco tempo desde que havia chegado quando inquietou a concentração dos homens naquele dia. Ofereceu um pequeno pacote a cada um e disse que levassem para que ele lesse as migalhas depois. Não pareceu ser muita coisa o que disse aos demais jogadores, ou talvez tenha sido a sensibilidade daquelas recorrentes poesias no estômago do velho que fez com que vibrasse mais do que as demais aquela história que o pipoqueiro leu em seus vestígios: disse ver uma sorte intocada, mas não intocada de prosperidade, e sim por jamais ter sido descoberta, como um presente que nunca foi aberto. O milho sozinho circulado pelo rastro de sal é excesso de mudez, e os restos nessa mancha maior de gordura são desperdícios da sorte: o que sua boca não diz e sua mente não pensa viram calos nos nervos, estalos no fígado e essa silenciosa morte do coração. Depois desse dia que as rugas do velho se esticaram da testa até as orelhas e suas mãos passaram a tremer mesmo depois do frio. Ficava repetindo a si mesmo aquela predição que parecia invalidar o pouco caso que dava para os percursos do futuro. Não entendia muito dessas coisas enigmáticas, mas era verdade que o peito doída mais com o passar dos aniversários que chagavam a contragosto.

Também contra a sua vontade chegou aquele mês frio que fez a dor piorar e se despedir do seu banco de sempre até o hospital público. Sentia lá dentro que a dor parecia encontrar seu bafejo e doer mais ainda. O velho chegou apontando de onde vinham as agulhadas para um enfermeiro que pouco ligou e mandou que sentasse. Por falta de mar para olhar e desconforto do assento, distraiu-se contando o tempo espalhado no relógio da parede; passava em círculos como aquelas voltas que a brisa dava na sujeira das folhas no chão da rua. As horas chegavam acompanhadas por pessoas diferentes; crianças aos prantos e outros velhos que, como ele, chegavam sozinhos segurando as dores por debaixo da roupa, como se pudessem tocar suas partes mais ocultas. E foi naquela reflexão sobre dores encafuadas que se deu conta da vigésima hora de espera. O número chegava já abrasando suas lembranças com a força daquelas pontadas no peito, e junto com elas o chamado do médico. Pelo o exame dos olhos, boca, nariz e joelhos, o doutor interpretava o que diziam as escrituras do seu corpo. Você tem insipiência, desgraça que reflete no coração. Precisa ficar de repouso por alguns dias, comer bem e mastigar melhor os acontecimentos, e leve esse remédio aqui. Mas tinha a sorte de pouco entender de doenças. Nem sabia o que significava aquela, o que fez com que desse pouca importância; até porque se fosse doença de matar, não teria levantado com tanta rapidez. Ordenou os dias seguintes no repouso indicado, comendo cumbucas fundas de feijão preto e tomando o tal remédio. O complicado foi mastigar acontecimentos, já que não sabia como fazer aquilo e tampouco quis perguntar como era. Parecia difícil. Pensou que talvez fosse pra refletir sobre o desperdício da sorte contada pelo pipoqueiro, ou que pudesse ter alguma coisa a ver com a poética do seu estômago. Só que não lhe parecia ter muito o que mastigar, somente a vista de sempre, com a quitanda estendendo as caixas de fruta do lado de fora pela manhã, umas crianças correndo entre as amendoeiras, os jogadores de damas em suas posições de sempre. Decidiu ir para o seu banco e refletir durante o cheiro de marisco preparado ali na areia mesmo pelos pescadores. Por vezes o silêncio era invadido por risadas de passantes, e junto com eles o velho observava a chegada dos cachorros de rua manchados de solidão nas patas, vagando entre um carinho ou outro que garantisse a sonolência do dia. O velho se deu conta da poesia no pensamento que logo culpou o estômago, percebendo a chegada das dores que lhe diziam sobre ser refugado no mundo, o que pouco dava importância antes. E pela primeira vez, depois de anos de olhos jogados pelo marasmo da baía, sentiu dentro de si uma tempestade que alagou seu corpo todo, fazendo vazar água de seus olhos. Curvou-se no banco e ali despencou as vinte horas, os olhos de fruta, o homem em forma de cão. A madeira do banco exalava um cheiro adocicado pela água que dele escorria. Madrugou ali mesmo, naquele dia em que seus olhos cinza pálidos murcharam nos cantos, doendo a forma com manchas vermelhas que nunca mais deixaram aqueles contornos rentes aos cílios.

A claridade da manhã foi tomando seu rosto como um despertador barulhento. Chegavam ainda algumas vozes por perto. Uma menina mostrava à mãe o que havia encontrado pela rua: uma lagartixa que, para a sua professora, significava sorte. Para mãe pouco importava as simbologias daquele bicho, achava nojento de qualquer modo. Larga, menina! Tem coisa mais bonita que dá mais sorte do que isso aí. O velho só ouviu a palavra sorte, encarando a criatura deixada pela menina na calçada logo em frente ao banco. Foi então que sua memória trabalhou algo mais que as ruínas de sempre, remontando a frase sombria daquele pipoqueiro que disse sobre sorte intocada e nunca descoberta. Sentiu-se descobrindo-a; nunca pensou que seria capaz de ver aquilo com seus próprios olhos, um acontecimento que de jeito algum lhe coube entre os sonhos mais profundos, nem quando o estômago decantava versinhos. Prolongando mais ainda os conselhos dos últimos dias, deparou-se com a recomendação do médico para que mastigasse melhor os acontecimentos, e sentiu compreender o que deveria fazer agora. Catou o bicho do chão e ali mesmo o enfiou na boca. Sentiu a textura gelatinosa e fria da criatura vasculhar a mucosa de sua boca buscando uma saída dentro daquele breu, agitava suas patas contra as bochechas do velho, mordiscando o céu de sua boca como se tentasse furar a coragem do predador com vigor de onça. Mas o velho mastigou e mastigou com a intensidade da prescrição recomendada. E logo o bicho virou massa pastosa, coisa que fez a fome se dar conta de estar afoita. Engoliu com gosto, pensando ser a sorte elixir que se absorve pelo esôfago, matéria que se instala por dentro e ali vibra pelo tempo de todos os demais estados. Confortava-se com a ideia de ter garantido a sua sorte por dentro, o que durou alguns minutos até que sentisse o estômago revirar suas poesias, desta vez perambulando o desfalecimento das criaturas, falando sobre morte, a dama de branco, os olhos perpetuamente fechados. O velho sentia pulsar os desbraves daquela dor revistando sua história como se houvesse ali coisa bonita de se poetizar. Foi então que teve o despropósito de pensar na relação dos acontecimentos: havia matado a sorte pelos dentes, assim como as entranhas mataram a dama, e os homens matavam outros homens pelos cursos. Havia matado para tornar seu o que se pega emprestado do mundo, assim como se estraga água e se quebra a terra. Era sorte, mas estava morta, assim como tudo aquilo que fazia pouco caso de entender, mas, por um descuido, naquele momento entendia. Levantou-se trêmulo, parecendo visualizar aqueles desastres bem diante de si, estudando a crueldade dos fatos como se fosse história nova, nunca antes acontecida. Mas tinha sorte o homem, porque aquilo lhe parecia ser coisa da imaginação – podia até ser delírio. Ninguém mandou logo ele pensar demais. Comi a sorte, e daí? Outro descuido. As bondades do mundo duram o tempo de um grito. Pouco pensou pelo resto do dia, preferindo dormir já em sua casa. O dia seguinte era de campeonato de damas. Os homens arrumavam as peças quando o velho ouviu a voz do pipoqueiro sussurrar dentro do seu ouvido algo sobre a sorte que deveria encontrar. Foi então que suspirou, infiltrado em seu desperdício: a sorte está dentro de mim, só que morreu, porque o médico mandou mastigar bem e eu mastiguei.


Foto: Luiza Rezende

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