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03/12/2015
por Luiza Rezende
Categorias: Zine Disfunção

Empréstimos eficientes

Empréstimos eficientes

A ideia de Pasteur sobre estar preparado para o acaso serve para manter nossos olhos abertos e atentos, assim como nossas mãos em trabalhar constante e arduamente. É nessa configuração que tornamos possível uma rotina favorável as criações de insights.

O tema da vez não é acaso, mas falar a partir dessa ótica de trabalho em busca de oportunidade é tão pertinente quanto o tema em si. Estamos falando de empréstimos, de oportunidade, de transitar entre diversas áreas do conhecimento e de nos apropriar do que for necessário para que o relacionamento com o mundo possa ser construído com outras possibilidades. No encontro de número 5 da imersão em processo criativo na Biblioteca Pública de Niterói, falamos justamente sobre essa temática dos empréstimos, ou melhor das exaptações, como apresentado, em 1971, por Elisabeth Vrba e Stephen Jay Gould, pesquisadores e paleontólogos americanos em seu ensaio “Exaptation – a missing term in the science of form”. Um exemplo que se tornou um clássico foram as penas das aves, onde os estudos dizem que foram desenvolvidas para regular a temperatura dos corpos dos dinossauros não voadores no período Cretáceo. Porém, quando alguns dos seus descendentes começaram a fazer experiências com voos as penas se revelaram úteis para controlar o fluxo do ar sobre a superfície das asas, permitindo assim as primeiras aves a plainar. Outro grande exemplo foi a construção da prensa tipográfica de Gutenberg, que não foi uma grande invenção, mas sim uma grande junção de partes já existentes como papiro, prensa de uvas e os tipos chineses que foram adaptados em um novo uso. Ou até mesmo o caça inglês Harrier, que é capaz de parar no ar como se tivesse freios. Esse trânsito de funções emprestadas são tão eficientes nessas novas funções quanto em seus objetivos iniciais. A questão agora é se as ideias tem esse mesmo comportamento. Será que estamos aplicando as nossas ideais no lugar certo? Ou melhor, da melhor maneira?

Esses foram alguns dos pontos onde construímos as provocações para que o papo fluísse pelas cabeças dos presentes no último encontro. A ideia é que cada um desses conceitos seja construído a partir das percepções do grupo, de tal forma que cada um seja dono de sua própria verdade, do seu próprio processo, e a coletividade consiga dar forma a esses conceitos de maneira acessível e realmente influente em seu cotidiano. A ideia que foi fisgada sobre exaptação foi de um empréstimo, algo que é apropriado e se desenvolve a partir desse gesto.

Haviam cerca de 30 integrantes nesse dia, entre brasileiros e argentinos, de 20 a 60 anos, de áreas completamente diferentes, um real grupo de diversidade que se propunha discutir e construir conceitos, dedicar algumas horas em mergulhar em um só tema e se aproximar dele para o melhor uso no seu processo, assim como as asas em certo momento serviram para voar. Mas o grupo de estudos não se limita somente as provocações, tivemos o “No Break” com a Catarina e a Chali Bijalba e seus cookies e café, que conseguiram roubar mais atenção do que qualquer dinossauro que poderia passar pela janela da BPN. A pausa foi levada pela ideia de um grande acaso, como a história do surgimento dos cookies e de futuras histórias que essas duas podem vir a contar – mas isso já é um especulação/desejo da nossa parte.

Como esse grupo é parte do Sopa, não poderíamos deixar de engrossar o caldo. O convidado ao papo do dia foi o Rafael Franco, que é, entre muitas funções, o biólogo marinho chefe do AquaRio. Ele falou por quase uma hora sobre a experiência da construção de um aquário tão grande quanto o do AquaRio, e de como o termo exaptação está presente em seu cotidiano, tanto em ideias quanto em práticas biólogas. O papo foi rico de minúcias e de uma motivação incrível ao percebermos o quanto estar conectado com o que gostamos pode nos levar a milhões de outros lugares. Foi nesse clima de conexão com o fazer e o pensar que Rafael nos deixa um alerta para os corais, que estão morrendo por toda parte e que nós podemos, sim, fazer algo para melhorar essa questão se pensarmos criativamente.

E foi mais ou menos assim que o tema exaptação foi discutido, propondo ideias e sugerindo reações. No próximo encontro, dia 12 de dezembro, o tema será experimentação e o convidado da vez é o artista plástico Tito Senna. Estamos aprontado uma novidade e esperamos vocês por lá.

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