ReverbeFronteirasVivas
13/02/2015
por Luiza Rezende
Categorias: Misc
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Fronteiras Vivas

Fronteiras Vivas

Luiza Rezende é assim, uma pessoa que te faz perceber as coisas que nunca paramos para olhar, uma menina de minúcias tão fantásticas quanto as suas palavras. E é desse jeito que ela vem mostrar as suas percepções ao cair na estrada e ultrapassar as fronteiras vivas do Sul do país. Um conto de detalhes, de linhas, de retas e de encontros com o inusitado. - Christiano Mere

1.333km seriam desfilados do lado de fora do carro em direção às fronteiras vivas. Em linha reta o mundo parece organizado. A ordem das cenas por vezes se perde quando acumulamos fatos. Deslizar por aqueles pedaços de terra provocou um descolamento da alma, de onde quer que ela estivesse colada. Invadimos vias e veias com o único intuito de chegar. A sensação de perceber o corpo em movimentos fez um sorriso discreto na avidez de cada um. Éramos 13, plantados na curva da vida às cinco horas da manhã, dialogando com o breu daquele início de viagem. Acordadas as ruas sonolentas, costuramos a estrada com pernas livres.

O céu ascendia devagar; contornava a estrada com pequenos pedaços de plenitude. O tempo estava bom para decifrar nuvens e invadir montanhas com olhos de fotografia. E pelo sopro de poucas curvas, tínhamos a leve sensação de que aquela viagem guardava mensagens nas sombras. Oscilando entre os ventos enfileirados, percebemos entre nós o impulso de uma discreta euforia. O momento indicava o início da natureza absoluta; era mais Sul a cada quilômetro azulado. O tempo abria caminho até um silêncio que nos recebia com sede.

A primeira parada foi o Vale Lagaver, um lugar isolado e de brisa espontânea que brotava pelos ângulos dos olhos. Ficamos guardados entre paredes de pedras; até a cachoeira, bastavam 325 passos exatos de pés médios. Acampamos perto de uma casa de madeira com caminhos de musgos na entrada. Quando vista de longe, parecia um grande animal confortavelmente deitado sobre um cobertor, com um sono que deslizava a consciência até um estado sublime rodeado por pequenos segundos de paz. Por vezes, descobríamos vagalumes guardados nos bolsos como se fossem ouro bruto cintilando sua raridade prestes a voar.

No quintal da casa havia o bosque dos labirintos, onde era possível avistar um caminho em cada extremidade, todos idênticos. Os gatos que por ali passavam voltavam duplicados. Ao indagarmos sobre o fato aos moradores da região, disseram se tratar de um espelho que ficava bem no meio do labirinto, capaz de duplicar mistérios; e assim cada gato ganhava um novo ele que, ainda que vinculado ao original, vagava como sendo vivo. “Foi daí que surgiu a lenda das sete vidas dos gatos”, esclareceu um senhor. Os duplicados pareciam redescobrir o mundo pelas frestas, deslumbravam-se estáticos observando as folhas menearem pelo ar.

Talvez ninguém quisesse nunca mais sair de Lagaver, mas era preciso. No dia seguinte andamos mais 440km numa estrada vazia por mais umas oito horas. Saímos no horário do almoço, sonolentos por causa do peso do sol. A luz invadia o carro esquentando os incômodos e desvirtuando a nossa visão granulada. Clareava o percurso pintando de branco cercas e flores; ao longe, as casas pareciam manchadas de grandes doses de leite derramadas por jatos que vinham do céu. Comprometidos pelos olhos cansados e acabrunhados pela fome mastigando os desejos, paramos no posto logo em frente.

Por termos falado alto ou simplesmente porque éramos muitos, ali sentados como itinerantes e dispersos no mundo, foi atraído até nós um homem grande e bem gordo, carregando consigo uma grande garrafa de cachaça e um cigarro de palha bambeando na boca. Seu chapéu ocre parecia maltratado pelas estradas fronteiriças. Os olhos amarelados e seu perfume de tabaco lhe davam um aspecto de homem sem lugar, gasto pela melancolia dos faróis mudos. Chegou até nós projetando uma tosse enfestada de pigarro que silenciou nossa conversa. “Vão pra fronteira do Sul?”, invadiu, “Fica mais rápido cruzar pelo atalho. Economiza gastos e ainda pega a costa até as terras invadidas pela grama selvagem. Vocês já ouviram falar de Mosfrágum? É lá. Coberta pelo incômodo discreto da natureza. É triste de olhar, mas bonito quando realmente se vê, um lugar imperdível. Eu sou caminhoneiro, passo sempre por lá e vejo cada coisa que me arrepia as angustias; essas estradas são um calabouço aberto”.

Estremecidos pela curiosidade que a alma diagnosticava, decidimos ir pelas ruínas de grama da tal cidade cujo nome nos sumia da lembrança a todo tempo. Mosfrácio, Mostrátum, Mosfrá..gum! Em linha reta, a cor do dia descamava no horizonte. Sentíamos o cheiro da maresia cada vez mais próximo, e era curioso perceber que perdíamos a companhia de outros carros. Éramos nós com menos destinos, o mar projetando sua imensidão monocromática e vazia em nossa consciência. Era uma paz costurada; ouvíamos nela uma serenidade que a estremecia, pois, sendo só, tinha uma plenitude solitária.

Placas quase ilegíveis diziam a curva e última entrada. Despejados numa estrada de cantos curtos, nossa estrada agora parecia infinita graças ao silêncio que todas aquelas plantas empurravam sobre nós. Dois horizontes de grama, um de cada lado, encaravam nossos carros como se fôssemos intrusos numa terra vazia. Não se via um único ser vivo, de modo que saltávamos para desviar de um buraco ou outro que aquele asfalto velho acumulara no tempo de poucas visitas. Mas uma virada brusca no volante nos garantiu que o desvio dessa vez não era por conta dos buracos, mas sim de um gambá, mesclando sua forma com a das crateras escuras do percurso. Foi quando vimos surgir cada vez mais animais pelo andar da estrada: vacas, bois, ovelhas, bodes, capivaras, patos. Uma terra de animais, supusemos, decorada com tantas criaturas que quase parávamos de tão lentos, distraídos com a profunda beleza da paz monótona dos bichos. Ali pausamos no tempo fracionado. Sentíamos como se o mundo tivesse ido embora de nós – a liberdade nos assaltara.

“Olha só aquela casa!”, avistamos ao longe, perdida entre o mar de verde, um casebre que parecia possuir apenas um quarto de tão pequeno. Tinha cor de terra seca e murchava uma existência envelhecida, engolido quase que completamente pela grama. As janelas perdiam a forma para as plantas, parecendo ele todo uma ruína mumificada. Vivas mesmo talvez fossem apenas as árvores, cujos tamanhos eram ridiculamente desproporcionais, também quase completamente engolidas pelo mato. Era a confirmação de que havíamos chegado em Mosfrágum, um lugar que desconhecia os motivos das iras naturais, e que, engolido por elas, permaneceu estático; os animais camuflados pelos troncos, alguns opacos e dispersos como pedras – trocados de lugar pela vaidade gramínea.

Mosfrágum passou cortando todos os olhos, que mesmo vidrados pela catástofe curiosa, sua presença arfava sombria. A vista nos fez chegar ao fim daquela cidade com a alma gasta, exaustos. Era ali a cidade mais próxima da fronteira. Chamava-se Julão, apenas, uma cidade enferrujada. As casas pareciam perdidas no tempo, assim como o chão que acumulava histórias de faroestes, o que justificava o fato de todas as ruas formarem diagonais compridas, cheias de desvios entre ruelas e cachorros abandonados no meio das ventanias de areia que ora ou outra surgiam.

O lugar espantava a tranquilidade e nossa noite acumulou pesadelos em todas as cabeças. Curioso mesmo foi juntar as histórias e perceber que, misteriosamente, encaixadas faziam uma saga única de um tal rapaz que, montado num cavalo negro, apresentava-se como Craustin, cavalgando pelas ruas de Julão até o fim da cidade, onde lançava três disparos para o céu com a sombra das árvores malhando o rosto sisudo. Os homens da cidade explicaram ser ele o protetor da região que por muitos anos se apresentava em sonho aos viajantes atraídos pelas fronteiras mais vivas do Sul. Alguns deixavam presentes na praça; chapéus, esporas, charutos e botas pareciam brotar do solo com as raízes ainda firmes na terra. Escutamos vazios de respostas, os pulmões arrepiaram quando sentimos a ventania de areia mais uma vez espirrar em nossos olhos.

Mais 423km e chegaríamos na fronteira. Seguimos logo pela manhã com a ansiedade já salivando o momento. E recebidos pelo túnel de eucaliptos, cruzamos uma cidade confusa de nome, língua e povo. As casas trocavam as telhas e costumes; plantas decoravam uma vegetação já exclamando aspas estrangeiras; as enormes plantações que desenhavam as beiradas da estrada comprovavam presença e cuidado humano. Grandes piscinas naturais surgiam ao longe emolduradas por oratórios de pinheiros. Faziam ali o desfecho triunfal daquela terra em despedida.

Já avistávamos uma dobra singela na paisagem separando verdes de outros verdes. Agitava o peito, e perto demais do crível nos infiltramos nas fronteiras vivas, ali respirando pelas bocas do vento, deitadas ao lado do sono manso das vias, rasgadas pelas rodas, decoradas pela audácia grudada em nossos peitos. A mudez do sorriso de cada um sublimou a descoberta fronteiriça ali viva, afastada e firme em sua imensidão que tocava as beiradas de cada terra em silêncio, pulsando aquilo que ferve quando o momento encontra, embasbacado, a descoberta.


Foto: Luiza Rezende.

 

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