GabaritoReverbe

Mundo Codificado

O homem é um animal ‘alienado’ (verfremdet), e vê-se obrigado a criar símbolos e a ordená-los em códigos, caso queira transpor o abismo que há entre ele e o ‘mundo’. Ele precisa ‘mediar’ (vermitteln), precisa dar um sentido ao ‘mundo’. - Vilem Flusser

Como é arriscado começar um texto com esse título, ainda mais sabendo que não leva o crédito necessário para ser uma referência. Porém, talvez essa seja a grande sacada de se falar sobre metáforas, de torná-las vivas para que o conhecimento possa ser transmitido.

Ao estudar sobre processo criativo, muito se discute sobre a evolução do homem e suas criações, mas nada se assemelha a nossa capacidade de metaforizar o mundo, ou seja, manipular nosso entendimento e deslocar significativamente um rótulo para pegar emprestado a sua essência. Esse tipo de percepção foi o guia para a construção do segundo encontro do ZineDisfunção na BPN. No dia 08 de agosto voltamos para a sala que quase podemos chamar de nossa, e novamente com o Blueberry Pie, montamos nosso palco, dessa vez com cadeiras diferentes, mais rústicas e pertinentes ao tema.

A proposta do dia era falar sobre codificação, tal como Vilem Flusser já havia comentado por muitas vezes em seus ensaios. Reunimos meia dúzias de provocações para o clima acontecer e, de fato, ele aconteceu. O assunto surgiu com um resgate sobre o que rolou no primeiro dia, mas sobre isso vamos deixar para que você volte no post A profundidade do primeiro mergulho e descubra o que discutimos. Voltando ao evento, logo o tema se mostrou enigmático; arriscamos descobrir a diferença entre olhar o futuro e o passado em busca de nos percebermos no presente. Foi assim que definimos o problema e o enigma, de modo que cada um dos participantes, com sua particularidade, apresentou pontos e preocupações que complexificaram as ideias, porém foi inevitável sentir que um nos força a olhar para o passado para resolver, ou melhor solucionar uma questão de domínio de códigos ou línguas, muitas vezes extintas, a fim de encontrar algo que faltava – isso podemos chamar de enigma, enquanto o outro nos vira em direção ao desconhecido. Falar sobre problemas de ordem criativa é olhar para o futuro em busca de perceber como ele se constrói, levando em consideração estruturas complexas que incentivam a imersão no assunto desta forma.

Uma ótima definição que chegamos em meio a tantos papos foi esta: códigos são estruturas complexas de símbolos organizados e normatizados com o objetivo de comunicação de qualquer natureza. Logo, podemos dizer também que: para que possamos ser criativos, antes é necessário perceber os códigos que configuram determinados conhecimentos e, de fato, conseguir manipulá-los, propondo alternativas inéditas e otimizadas – que podemos chamar de criativas sobre determinado aspecto de uma demanda.

Criatividade não é apenas novo, tampouco algo espontâneo, mas sim algo que é validado e comprovado como mudança para muito melhor, que traz consigo um sorrir de tanta surpresa, que mesmo ao falar sobre assuntos sérios seria inevitável reagir de outra forma ao seu brilhantismo. Em certo momento do grupo de estudos, era notável que todos estávamos perseguindo o mesmo objetivo: recortar um código para que fosse possível discernir alguma métrica, seja ela o café, como a Agnes Lima comentou sobre seu envolvimento e a criação de uma identidade para o café que nos serviu, seja ela a literatura, como a Luiza Rezende esclareceu sobre seus contos e estudos.

O Coffee No Break, como no primeiro dia, foi fundamental para que todos se encostassem e para libertar ideias das cabeças. Em questão de segundos a sintonia tomou conta do quadrado, até sentarmos novamente para ouvir a Luiza contar um pouco (nem tão pouco assim) sobre literatura fantástica. Mas antes de falar sobre a palestra, é interessante explicar como foi o processo de feitura da mesma, que é tão importante quanto o ato.

Mais ou menos uma semana antes do dia “D”, fomos ensaiar com a Luiza o que ela canalizou para sua apresentação e, para nossa felicidade, as expectativas de conteúdo foram tão superadas que ficamos confusos sobre como editar tanta informação valiosa. Luiza dissertou com tanta vida por quase 2h, destacando pontos críticos e momentos-chave num balé contemporâneo de gestos e envolvimento. As ideias fluíram como se estivessem sendo coreografadas por ela.

Havíamos acordado que a palestra teria apenas 30 minutos e, com muita cautela, tivemos que cortar e enxugar tudo que podíamos. Aos poucos, os cortes fizeram o teor do conteúdo realmente florescer no discurso. Percebemos que fatores limitadores também compõem os códigos de um mundo que se comunica intensamente, e assim conseguimos falar sobre tudo. Luiza falou sobre o surgimento da literatura fantástica e todos os seus desdobramentos para exemplificar as alternativas percebidas por autores que empurravam as fronteiras para mais longe, tornando o gênero fantástico muito maior do que o próprio nome consegue comportar.

O dia foi longo, mas muito rico. Entre códigos, café e literatura, todos nós saímos muito acordados e por dias recebemos mensagens de pessoas que ainda estavam elétricas por conta de tantas novas possibilidades. A proposta dessa imersão em processo e criatividade é justamente nos fazer sentir no presente e perceber quando estamos adiando atividades que podem fazer diferença para nossas vidas agora, como talvez começar a pintar.

Enfim, esse post é um convite a estudar conosco nos próximos dias e também para adiantar que, um pouco mais a frente, compartilharemos a bibliografia da palestra da Luiza aqui no Reverbe. E se mantenha acordado, o próximo encontro será no dia 12 de setembro.

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  • Laura Yunes

    Contagem regressiva para o próximo já…

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