ReverbeEditorasDigitais
28/01/2015
por Laura Yunes
Categorias: Curiosidades, eBook, Livros
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“O livro eletrônico é o futuro”

“O livro eletrônico é o futuro”

Há algum tempo, venho discutindo sobre o futuro do livro e em como percebemos essa relação do livro impresso com o livro digital. Isso, muito antes da existência do Sopa. Perceber como a geração de conteúdo e a transmição de conhecimento vem se metamorfoseando com a intensidade de uma boa ideia, essa ideia perambula pelas fronteiras da inovação com a novidade e trazem consigo a sensação de absurdo. E é nesse ambiente que podemos introduzir a Havoc, formada por Alexandre Rola, Leonardo Ignatiuk e Bernardo Charruff, os reponsáveis por todo o jurídico que administramos por aqui. Porém, existe aí uma parceria muito maior do que somente uma prestação de serviço, compartilhamos um olhar similar sobre os moldes que conduzem esse mercado editorial "digital" e convidamos o Leonardo Ignatiuk para expor um pouco mais sobre a sua visão e questões, para que as discussões sobre os livros digitais possam cada vez mais gerar insights mais luminosos que as velas de Thomas Jefferson - Christiano Mere

“O livro eletrônico é o futuro”. Essa é a minha habitual frase de entrada. Repetida inúmeras vezes para um número sempre novo de ouvintes, encontro as mesmas reações mescladas: a fascinação ou a descrença. Infelizmente posso dizer que tenho visto mais da última do que daquela primeira. Talvez seja por ainda ser uma novidade.

Em resposta, os comentários são muitos, em contraponto às expressões. “Os livros físicos jamais perderão seu apelo”, diz um. “Eu gosto da textura e do conforto do papel”, afirma outra. “Um livro não precisa ser recarregado”, diz aquele terceiro. E assim vão, golpes certeiros contra um argumento antes sólido.

“O livro eletrônico é o futuro”, repito, sorrindo.

Não o faço carregado com sarcasmo, nem com desprezo pelo argumento adversário. Não se trata de uma competição; não neste caso. Trata-se de uma convicção obtida sob muito esforço, de quem advogou para dezenas de editoras ao longo dos anos, mas que ainda tem visão e juventude guardados de sobra para se manter fiel ao potencial da tecnologia contemporânea para revolucionar. E, também, amparado em anos de estudo sobre o tema, é claro. Vamos à história?

Falar da história do livro é, de certa forma, tratar um pouco da história dos direitos autorais. Das relações de trabalho às relações humanas mais básicas, o reconhecimento, ainda que intuitivo, de quem é o autor de uma obra acompanha a história da criação humana: da supremacia do seu intelecto sobre o meio ambiente.

Não é de se estranhar, portanto, que o avanço dos séculos, ao trazer o ser humano à Era da Informação do século XXI, tornou ainda mais claro e constante o ritmo de criação humana e a necessidade de se refletir sobre a herança histórica do que se considera autor. Hoje, os trabalhos humanos puramente mecânicos e físicos tornam-se gradativamente menos necessários, entregues ao domínio da mecanização global, permitindo ao ser humano entregar-se às atividades contemporâneas exclusivamente intelectuais – que são exatamente o campo de estudo dos direitos autorais: produções artísticas, manifestações culturais, científicas e, porque não, industriais.

Mas, o que tem tudo isto a ver com o livro, o suporte, em si? Para responder permito-me transcrever um sábio Thomas Jefferson: “aquele que recebe uma ideia de mim, recebe ele mesmo instrução sem diminuir a minha; como aquele que acende sua vela na minha, recebe luz sem me colocar na escuridão”. Em síntese, o conhecimento quer ser livre. É esta a sua natureza.

“aquele que recebe uma ideia de mim, recebe ele mesmo instrução sem diminuir a minha; como aquele que acende sua vela na minha, recebe luz sem me colocar na escuridão”

Então, quando verifico a crise pela qual muitas editoras (algumas, íntimas conhecidas) passam no início deste século que promete, reafirmo: não se trata de uma tendência econômica, mas de uma verdadeira queda de braços entre a evolução tecnológica e social e a necessária (e decerto consciente!) resistência de um modelo econômico que não corresponde mais ao que vem sendo produzido a partir das novas propostas de labor contemporâneo.

Ora, até o século XV, o livro era um bem extremamente valorizado e caro. Pesados, feitos à mão e de forma demorada, transcritos por “especialistas” (que muitas vezes eram valorizados pelas próprias opiniões que inseriam nos escritos originais), os livros eram uma obra de arte – no seu sentido mais estrito. Capas de couro e iluminuras eram comuns de serem encontradas nos poucos exemplares que existiam.

Era neste cenário em que o famoso “Príncipe dos Editores”, Vespasiano da Bisticci, florescia na Itália. Um verdadeiro negociante destas raras obras, Vespasiano era nada menos do que um homem adaptado à tradição, e tornara-se rico com ela. Os homens e mulheres da classe nobre dessa época lhe procuravam quando queriam adquirir uma obra.

Ocorre que felizmente (apenas para nós, é claro), a tradição logo abandonaria o “Príncipe”. A invenção de Johannes Gutenberg daquele século, o tipo mecânico móvel, iniciaria uma revolução que só mudaria de marcha no final do século XX. A partir deste momento, livros não seriam transcritos aos poucos, mas impressos às toneladas. As ideias circulariam o mundo, e com elas, a Renascença, a Reforma e a Revolução Científica.

Penso que é correto estipular que a primeira reação do “Príncipe dos Editores”, ao ver seu primeiro livro impresso seria de desprezo. Mal acabado, sem iluminuras, sem classe. Alguém lhe diria: “isto é o futuro”. Seguir-se-ia um olhar descrente.

Bom, o resto, como dizem, é história. Em poucos anos, Vespasiano da Bisticci estaria falido. O livro escrito à mão não se tornaria nada mais do que uma cara excentricidade, relegada a uma nota de rodapé do mundo moderno. Por mais outros 500 anos, o livro impresso no tipo móvel de Gutenberg ganharia o mundo.

500 anos? Não mais, não menos. Veremos. Afinal, há inúmeras razões para se repensar o uso do papel e construir o novo lugar dos livros impressos. Onde devemos repensar o uso do espaço físico, das árvores, dos químicos na preparação do papel e seus impactos no meio ambiente, das dificuldades na reciclagem. Em contra ponto a energia renovável, a tecnologia, a comodidade, a redução nos custos, os preços menores. A natureza imaterial do conhecimento e da cultura pressionando por uma liberdade maior do que àquela que o suporte impresso pode fornecer. Isso sempre. E, contra todas essas, apenas uma: tradição.

Os muitos homens e mulheres que me cercam com certa descrença hoje não me oferecem mais do que Vespasiano da Bisticci poderia oferecer aos seus contemporâneos visionários. Certamente não oferecem mais aos idealizadores da Editora Sopa do que seus próprios concorrentes presos à tradição.

De visionários, não esperem menos que a loucura. E à beira dela, uma outra Revolução.

Mas, se outrora um príncipe caiu, que seria desses pobres mortais descrentes nesse admirável mundo novo fundado por Bill Gates, Steve Jobs, Larry Page, Sergey Brin, Jeff Bezos e tantos outros gênios?

“O livro eletrônico é o futuro.”

Foi essa a frase que eu ouvi da equipe da Editora Sopa, mais especificamente de Laura Yunes e Christiano Mere, em uma tarde de reunião despretensiosa em nosso escritório.

A eles, ofereci de volta o meu sorriso e minha certeza.

O livro eletrônico é o futuro.

Alea iacta est. A sorte está lançada.

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Autores

  • Contra a falência da SEFAZ-ES

    Concordo com o texto! A tecnologia desenha o futuro e temos que acompanhá-la, inclusive as inovações jurídicas decorrentes dela. O livro eletrônico, com certeza, é o futuro. Parabéns pelo post.

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