Subjetivação da rampa

Impondo-se sobe as águas, o MAC flutua como quem procura novos ares. Se enche do novo a cada movimento. Movimento esse que traça a partir dos nossos olhos em um caminhar sinuoso e quase circular as suas formas e espaços, encontrando assim outro ponto de vista mais carregado de surpresa, que faz presente seu domínio (território) e, no mesmo instante, a abrangência de quem não possui fronteiras. Assim, expande a ideia de presença e sua ubiqüidade no recorte, uma estrutura que se faz física e metafísica em nossa subjetividade.

Discutir sobre suas formas e sua construção é perceber suas relações e provocações mais básicas com o espaço. Porém, é na rampa que Niemeyer concentra grande parte da força de subjetivação que a estrutura impregna no entorno. Não é correto de nossa parte precisar que esse seja um discurso de concepção, mas que de fato as estruturas nos levam a perceber questões, isso não podemos negar. A rampa, que a grosso modo nos leva para entrar no “raio” do museu, guarda em suas curvas questões muito interessantes.

Ao figurar a rampa como sujeito que nos conduz ao movimento de zig-zag, percorremos a distância não objetiva entre o pátio e a entrada, em círculos ascendentes que nos levam ao ponto de acesso. Os movimentos revelam novos olhares sobre as estruturas do prédio, quando do seu entorno sugere que a relação com a cidade não está somente no branco de suas paredes, nem com o negro espelhado dos vidros, mas sim com o momento presente do MAC e a sua capacidade subliminar de se situar no contemporâneo. Ao perceber que não percorremos a menor distância entre a entrada e o pátio, a seguinte pergunta se constrói: quando e onde começa a experiência de chegada?

Com os olhos atentos as formas, é possível perceber que da grade até a rampa colocamos de volta o questionamento se aquele é de fato o início. Logo, a questão sobre a ladeira da rua até a grade já faz parte de uma construção estrutural que flutua acima do horizonte, e que essa ladeira se apresenta como uma rocha abrupta em meio a beira da baía e, então podemos nos afastar até tudo se tornar memória, fazendo o MAC não mais ser figurado e sim lembrado enquanto essência. Assim, o começo está quando decidimos ir. Perceber que a trajetória do zig-zag está relacionada com a resiliência da memória que transita sobre o tempo em busca de novos significados agindo como um desfoque nas fronteiras do estar, chegar e conhecer.

Essa é uma obra que habita e se ergue na memória, e, acima de tudo, convida a olhar para a escuridão do tempo presente, que propõe transitar novamente em um vai-e-vem expandindo os limites para onde estivermos seguindo. Transformar a rampa em um sujeito criador sobre a sombra do presente é também ser tragado por ela em um movimento de vestir, unir-se-á na palavra contemporâneo propondo um refúgio para a construção de um futuro desconhecido, tal como a cidade que a observa e escreve sua história no esforço da retomada de ar necessária após a subida. Desse modo, a forma de taça brinda a rampa em um encontro harmônico estrutural.


Foto Diego Mere

 

Uma experiência

Esse sentimento convida a olhar para uma data específica: dia 12 de dezembro de 2015, um sábado. O dia em que o último encontro de 2015 do zine na BPN aconteceu. Dia em que fomos levados a pensar sobre experimentação, sobre estar diante de investigações intuitivas, de perceber nossas próprias respostas, sentir novas ideias se formarem tipo ligações elétricas fervilhantes como cócegas desestabilizando a “calma” que aprendemos a ter no dia a dia.

O tema Experimentação, assim como todos os outros assuntos que abordamos em todos esses seis meses, foi uma provocação para expandir e povoar esse espaço onde a criatividade habita. Existem brechas baldias em nosso cotidiano que podem ser ocupadas por comportamentos experimentais, ou melhor, comportamentos de por a mão na massa em busca de gerar possibilidades que podem solucionar problemas que nem se quer foram percebidos ainda. Foi como ouvir o Charles Watson dizer: “etapas incipientes de estruturas úteis” que são capazes de abrir caminhos para grandes soluções. Experimentação como tema de fechamento foi abrir realmente esse grupo como um lugar de convite a experimentar e perceber os processos que nos levam a criar.

Juntos, nesse dia, chegamos a ideia de que experimentar é criar com o corpo, é permitir que outras formas de pensar e “ver” possam atuar em nossos processos de criação, e que a consciência dos sentidos pode ser algo muito rico e que também permite maior facilidade de conexões inusitadas. Quando questionamos a natureza das coisas, os empréstimos tornam-se possíveis e constroem novos ou outros significados para nossos padrões. A busca por consciência permite questões de fronteira e transbordamentos como: quais são os limites das matérias possíveis para se conceber uma escultura? Se por acaso conseguir pensar em algo não material, tenha certeza que está trilhando caminhos novos, ainda poucos experimentados que têm uma grande capacidade de transbordamento. A proposta de agora é olhar para as coisas não com olhos fixos, mas sim dissolvendo certas “fixitudes” em busca de discernimento e fluidez. Esse é o grande aprendizado que estamos conquistando aos poucos.

Diferente dos outros dias de imersão, esse último encontro teve certas particularidades notáveis, como o processo que a Catarina Bijalba passou ao levar seus bolos e cafés para nós. Os bolos, que eram inéditos em seu repertório, foram motivações geradas pelo tema. E melhor do que qualquer um, Catarina podia falar sobre um processo novo de algo que não “dominava” e que acabou se tornando a porta de entrada de uma grande ideia e muitas possibilidades, ideias que levam a outras e outras. Esse foi o fio que conduzia o dia, uma linha de oportunidades.

Em um ponto no meio dessa linha encontramos com o Tito Senna, um dos caras mais inquietos que conhecemos. Tito, que tem sua formação em Design e os pés muito bem colocados nos espaços da arte, falou sobre como os seus 15 anos de amadurecimento como artista se misturaram com o seu comportamento que faz da sua trajetória algo incrível. O processo do grafite, que abre a discussão sobre matéria, plano, formas e tinta, mistura-se com ideias sobre química, física, teologia e até mesmo desafios a pensamentos de reconfiguração dos espaços. Tito, que iniciou o nosso dia colocando fitas vermelhas na parede, abriu o diálogo silencioso e muito provocativo. Cada um que entrava na sala Multimídia da BPN percebia uma nova atmosfera que aquelas fitas espreguiçavam, e a medida que a história era sendo contata e cada conexão, cada escolha que ele teve para construir o que contraiu se justificava aos poucos. Cada um de nós estávamos sendo tragados pela experimentação, tragados pela força de um trabalho que ganhava significado singular e individual. Pode-se ali perceber como uma obra acontece e como a permissão que o Tito conquistou em correr certos riscos fez do seu trabalho algo além da física, química e teologia. Tem a capacidade de ultrapassar espaços físicos, de demarcar espacialidade em uma matemática gestual de formas simples e de ideias possíveis. Assistir suas fitas e ignorar as condições físicas de impedimentos reais foi experimentar um certo tipo de realidade que se abre para um mundo que desconhecemos as premissas do real e dá lugar ao fantástico, de pequinesas, de infinitudes onde somos livres para transitar se quisermos um mundo que está logo ao lado mas que observamos com timidez e pudor.

De certa forma, Tito concluiu o grupo de estudos abrindo espaço para discutirmos sobre esses lugares, brechas baldias, como disse antes, que estamos ocupando e investigando suas fronteiras. O campo imantado que existe nesse espaço, nessa geografia, é fruto do fazer, fruto do nosso apego/afeto por causas comuns aos que desejam falar de criatividade. Assim, o projeto de imersão sobre processo criativo na PBN foi uma grande experimentação do Sopa em um novo ambiente de atuação, que de certa forma explorou com mais potência o que acreditamos. Por esse motivo, estamos hoje desenhando novas formas de existência nesse espaço, onde possamos tanto oferecer o que já adquirimos quanto multiplicar todas essas intenções.

Obrigado e esperamos te encontrar nas próximas imersões.

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