SOPA + Biblioteca Pública de Niterói

Foi na forma de convite que tivemos a oportunidade de imergir no assunto. Nos longos papos na Semana do Livro Infantil da Biblioteca Pública de Niterói, onde fizemos o lançamento do livro Me dá um abraço? – primeiro lançamento de um livro digital dentro de uma biblioteca – que as ideias começaram a criar forma. E desse modo, entre as paredes da BPN, conversando com os “mandachuvas”, que nossos sensores para papo aguçaram, e saímos dali com a oferta de ministrar uma palestra sobre a palavra digital e o futuro do livro; me arrisco até a dizer, futuro das bibliotecas diante desse momento digital do livro.

Planejamos tudo com duas a três semanas de antecedência, como seria o nosso dia 22 de maio a partir das 16h. Reunindo nossas melhores referências, desenvolvemos as telas e ensaiamos uma palestra. Ensaiamos, ensaiamos e ensaiamos, até que todos aqui no Sopa estivessem repetindo as mesmas frases: “o livro impresso e o digital não competem, seria como comparar um carro com uma moto”; ou “precisamos entender o processo que o livro está sofrendo para propor soluções mais interessantes”. E, assim, fomos desenvolvendo os trilhos para nossa palestra.

O que mais nos desafiava era fazer o pensamento de abstração proposto pela palavra “digital” ser captado por todos. Para isso, contamos com as reflexões do livro Objeto Ansioso de Harold Rosenberg e seus ensaios sobre o Expressionismo Abstrato para fazer uma conexão entre retratar a realidade e as interferências que o digital propõe, conectando ideias com perguntas e observações mais instigantes do que tudo que poderíamos tentar dizer naquele momento. Ainda nas refreadas para trocas de ideias e pensamentos, que as percepções de Vilém Flusser nunca fizeram tanto sentido: todas aquelas superfícies que reconhecemos no ambiente eram de papéis sendo arranhados por lápis nervosos de ouvintes atentos, ávidos por salvar ideias e criarem suas opiniões para formar partidos sobre o futuro do livro e seus espaços.

Foi uma experiência e tanto poder trocar essas questões e ouvir outras sobre como as pessoas estão se relacionando com o livro e o seu futuro. Nós, do Sopa, gostamos muito de instigar esse tipo de diálogo – e eu mais ainda de falar sobre arte e processo criativo.

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Estamos muito animados com as futuras possibilidades que serão construídas nesta parceria SOPA + BPN.

Entre triângulos e planos

Traduzir as ideias para um texto, que logo de cara tem o compromisso com esse pensamento do Hans Hoffmann, que tanto admiro, nos coloca na obrigação de escolhermos as palavras com tanto cuidado que só é possível com as pontas dos dedos em pequenos gestos circulares em busca da textura certa.

Foi assim que desenvolvi minha resposta ao aceitar o convite do Lui Azevedo para participar do segundo dia do projeto Triângulo. O desafio era montar uma palestra e compor um debate sobre o tema interface, e junto com Marlus Araujo e Pedro Segreto formávamos o triângulo da noite. O objetivo maior era apresentar discussões sobre o passado, o presente e, principalmente, o futuro das interfaces, uma oportunidade perfeita para compartilhar alguns insights que venho amadurecendo aos poucos. Gosto de pensar na relação entre o movimento abstrato das artes plásticas, em particular o Expressionismo abstrato, e as novas interfaces com a pluralização de gadgets e novos formatos, como o livro digital.

Ao olhar para esses acontecimentos, pude notar que o mesmo movimento que deu origem as abstrações, mesmo que de forma simplificada, se repetem nos dias de hoje nas interfaces dos usuários e nos canvas dos projetistas. Tentarei situar esse papo no descompromisso conquistado de representar a realidade. Para exemplificar de forma grosseira: seria algo como quando a fotografia assumiu a responsabilidade de representar o real pelo seu efeito instantâneo de captura de um frame, que, consequentemente, proporcionou aos pincéis a “liberdade subjetiva” que existe por detrás das ideias. Um grande exemplo desse movimento são os touros do Picasso, uma série de desenhos feitos ao longo de seus anos. Picasso se auto retratava como sendo um minotauro e essas garatujas ganham forma simplificada no início e vão se complexificando a medida que o próprio consegue se perceber, o que traduz nessa assinatura as minúcias da sua percepção. Na medida que o tempo cumpre o seu papel, a sabedoria somada a experiência faz com que gradativamente o desenho se liberte da realidade e encontre a simplicidade, e a cada nova tentativa só o necessário floresce entre as linhas. Quando juntos, todos esses desenhos, fica claro que o último é infinitamente mais simples que o primeiro, porém infinitamente mais rico.

Não existe arte abstrata. Sempre se deve começar com algo para depois remover todos os traços da realidade. E assim, a ideia do objeto terá deixado uma marca indestrutível – Pablo Picasso

Na sequência das garatujas, o que mais chama a atenção é a forma como o último desenho não está mais impregnado com a realidade. Ele simplesmente abstrai o resto pictórico que existia do touro, porém a essência ainda está lá, formando a assinatura do próprio Picasso e se configurando como sujeito sem forma, que mesmo assim ainda é o touro.

Sendo interface o lugar onde essa conversa deve se manter, volto a olhar para as pinturas do Action Painting. E dessa vez, com um olhar mais amplo sobre a pintura abstrata. Todos sabemos e percebemos que mesmo não havendo uma forma definida, cada gesto escolhido pelo pintor nos leva a uma reação. Vamos de obras pálidas, com pouca intonação e que requerem mais tempo de observação para se ter uma reação, e também de obras mais fortes, que mal cabem em nossos olhos. Esta segunda nos leva a respostas instantâneas e muitas vezes intuitivas. Toda essa teoria, se transportada para as interfaces, se desenvolvem com a naturalidade de um cursor ou um scroll. Pego um exemplo aleatório, o ícone composto por uma nuvem e uma seta para cima ou para baixo, “enviar um arquivo” ou “receber um arquivo”o nível de pictoriedade desse desenho está quase abstraído, porém o entendimento é lógico e claro. Mas olhe novamente, nuvem somada a uma indicação de sentido/direção não representa muito, ou quase nada, no mundo físico.

Assim é a forma como costumo pensar ao me deparar com um novo projeto de interface, principalmente falando de livro digital – que de livro só possui a essência. Se cortarmos o desnecessário, abre-se aí muito espaço para o novo. Por aqui, costumo falar que não mais preciso de uma lixeira com cara de lixeira para que eu descubra onde devo “jogar” meu lixo.

Essa é a maior provocação que encontro escondida no cerne de um novo projeto e de uma nova ideia, é a partir dessa intuição que construímos as interações com os usuários, leitores ou qualquer maneira que queira descrevê-los. Mas saiba que, no final das contas, tudo está interligado e cada escolha, cada minúcia, sugere uma reação. O caminho das possibilidades está a cada dia mais plural, ou seja, um castelo infinito de oportunidades inusitadas, basta apenas ter coragem de escolher o caminho e conseguir se justificar nele.

Foi assim que conclui minha participação no Triângulo, tentando olhar para as mesmas coisas que vemos todos os dias com o desejo de encontrar novos caminhos para discutir sobre as fronteiras dos rótulos que impomos a nós mesmos.

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