Dia Nacional do Escritor

Sina soez

Que sorte a dele. Com aqueles olhos suplicando um cinza remexido pelos dias do ano. Velho, pesado dentro daquele corpo que dizia muita coisa sem que soubesse as conjunções apropriadas. Um homem manchado em sua cor de terra, os cabelos afetados pelos pronomes do giz. Passou a vida toda olhando as ondas daquela baía, desmanchando seu tempo num banco que lhe dava algumas poucas histórias para ler no mundo. Sorte, pode-se dizer. Que prazer este senhor deve ter de tocar a comida com pouco caso, porque é a mesma de ontem e de dez anos atrás, feita em sua própria cozinha. Sentia o paladar de qualquer jeito, sem que tivesse o desprazer de comer ovos querendo algo mais enriquecido; se soubesse entender a palavra “enriquecido”, ao menos.

Andava pela praça, de tarde, falando pouca coisa aos vizinhos, ignorando as estruturas programadas daqueles padrões dos últimos dias: coisas sobre gastar dinheiro, ter uma profissão, uma avidez por conhecer algum outro país que não aquele de insultos políticos e morais onde vivia. Mas tinha sorte, não entendia dessas coisas. Apenas lhe agradava o costume de ver a tarde nadar pelas cores e dominar as próprias despedidas. Via isso mesmo; era poeta no estômago. Sentia calafrios toda vez que percebia o sol esbarrar numa nuvem mais clara, manchando umas tintas vermelhas com outras azuis. Gostava quando era espontâneo o momento de um pescador jogar uma rede ao mesmo tempo que os pássaros voejavam juntos do asfalto para o céu, mexendo com as estruturas do dia contado por horas. Via os esforços de uma vida entre seus pés dentro daquelas formigas espremidas sob as folhas que arrastavam. Sorria para o molejo dos barcos, apertando os dedos contra o fígado que doía todos os dias no mesmo horário, às duas e quarenta e sete. Piorava se fosse terça, que era dia mais bonito. Se chovesse, o velho abria a janela de casa e ficava de lá mesmo, revirando os olhos para o retrato empoeirado da senhora de branco. Eram belezas equivalentes, todas fenecidas ao fim do dia, despedidas para que houvesse validez no sustento do tempo e das coisas que nele se perdem e morrem. Lembrou ainda daquele seu cachorro, um homem forte – era um homem aquele cachorro – que certa vez salvou um rapaz das maldades de outro homem – esse sim era bicho – que ninguém sabia de onde havia chegado, mas que havia vindo pra furar a prosperidade de uma gente boa que tentava viver por ali quase que escondida. Justo naquele bairro, que nem a chuva fazia maldade. Mas era sortudo o homem. Tinha ternura nas águas dentro da vista, e nem dava importância aos problemas. Os poucos dentes que resistiram às cachaças ainda abriam uma graça ou outra pelos sorrisos. Isso quando ria, que era mais difícil a cada mês. Lembrava talvez com mais ternura que todas as demais lembranças do nascimento daquele filho de cabeça chata e olhos de jabuticaba, como os da moça no retrato. E toda vez que o mar remexia quando alongava as horas no banco da rua, emergia na memória aquele parto que vasculhou o canto apertado de sua mulher. Foram vinte horas de agonia. O dia que o cinza de seus olhos empalideceram, assim como a pele daquela dama de branco, da mesma fotografia, mulher e dona do filho ali vivo, diferente dela. Um ano difícil foi aquele, perdido entre os papéis que foram muitos, mais do que todos os outros. E não sabia mais se aquela recordação era triste ou feliz, mas nunca a perdia pelos escombros sujos do cérebro. Ficava sempre ali provocando os dias calmos.

Criou o menino no meio de peixe e saveiro. Ele gostava de catar os tatuís das praias, e aprendeu cedo a fazer nós complicados daquele pescadores obcecados pela maresia. Mas aprendeu por aprender, porque fazia pouco de pescar como os outros. Gostava mesmo do chão, de fazer correr carrinhos de rolimã e de catar sucata pra montar objetos de mentira. Uma vez inventou um telefone com um pedaço de tubo velho que haviam descartado e alguns cadarços esquecidos na gaveta. Passava o dia todo falando no instrumento de mentira. O pai achava graça, pensava que aquilo dizia alguma felicidade sobre o futuro daquele cabeça chata com olhos frutíferos. Até deu frutos; mas levou com ele. Aos dezoito o menino, diferente dele, sentiu a coceira de olhar a vida pelo outro lado da terra. Mudou-se para uma cidade cujo nome pouco fazia diferença e nunca mais deu sinal de respirar, nem mesmo pelo telefone. Mas tinha sorte o homem, porque aquilo lhe parecia ser coisa comum de acontecer. Filho, quando vira gente, deixa de ter apegos e vai embora mesmo…que esteja com a vida boa, a barriga cheia e acompanhado por alguma mulher que tire de si uns filhos; mais de quatro, pensava, mais do que aquele único que ele teve e não tinha mais. Só que pouco lhe apertava o peito toda essa história, e preferia desse jeito, embora o silêncio da tristeza operasse em si como um gás danoso que se espalha sem que seja visto, cobrindo o seu corpo com uma cor azulada de quem morre ainda vivo. Percebeu durante um dos campeonatos de damas na praça que estava surdo de um pulmão; sentia ainda, por vezes, uns músculos dos olhos remexerem com ansiedade, e acostumou-se com aquela secura falando na boca. A crise maior foi quando chegou no bairro um pipoqueiro que lia as verdades do futuro nos caminhos de restos de milho. Era um homem simples,  acumulando idade pelos cabelos brancos. Tinha a coluna curvada e um nariz saliente que lhe ofereciam propriedade e aparência de mago, vidente entre as sobras de milho e sal. Ficava na mesma praça do campeonato, e fazia pouco tempo desde que havia chegado quando inquietou a concentração dos homens naquele dia. Ofereceu um pequeno pacote a cada um e disse que levassem para que ele lesse as migalhas depois. Não pareceu ser muita coisa o que disse aos demais jogadores, ou talvez tenha sido a sensibilidade daquelas recorrentes poesias no estômago do velho que fez com que vibrasse mais do que as demais aquela história que o pipoqueiro leu em seus vestígios: disse ver uma sorte intocada, mas não intocada de prosperidade, e sim por jamais ter sido descoberta, como um presente que nunca foi aberto. O milho sozinho circulado pelo rastro de sal é excesso de mudez, e os restos nessa mancha maior de gordura são desperdícios da sorte: o que sua boca não diz e sua mente não pensa viram calos nos nervos, estalos no fígado e essa silenciosa morte do coração. Depois desse dia que as rugas do velho se esticaram da testa até as orelhas e suas mãos passaram a tremer mesmo depois do frio. Ficava repetindo a si mesmo aquela predição que parecia invalidar o pouco caso que dava para os percursos do futuro. Não entendia muito dessas coisas enigmáticas, mas era verdade que o peito doída mais com o passar dos aniversários que chagavam a contragosto.

Também contra a sua vontade chegou aquele mês frio que fez a dor piorar e se despedir do seu banco de sempre até o hospital público. Sentia lá dentro que a dor parecia encontrar seu bafejo e doer mais ainda. O velho chegou apontando de onde vinham as agulhadas para um enfermeiro que pouco ligou e mandou que sentasse. Por falta de mar para olhar e desconforto do assento, distraiu-se contando o tempo espalhado no relógio da parede; passava em círculos como aquelas voltas que a brisa dava na sujeira das folhas no chão da rua. As horas chegavam acompanhadas por pessoas diferentes; crianças aos prantos e outros velhos que, como ele, chegavam sozinhos segurando as dores por debaixo da roupa, como se pudessem tocar suas partes mais ocultas. E foi naquela reflexão sobre dores encafuadas que se deu conta da vigésima hora de espera. O número chegava já abrasando suas lembranças com a força daquelas pontadas no peito, e junto com elas o chamado do médico. Pelo o exame dos olhos, boca, nariz e joelhos, o doutor interpretava o que diziam as escrituras do seu corpo. Você tem insipiência, desgraça que reflete no coração. Precisa ficar de repouso por alguns dias, comer bem e mastigar melhor os acontecimentos, e leve esse remédio aqui. Mas tinha a sorte de pouco entender de doenças. Nem sabia o que significava aquela, o que fez com que desse pouca importância; até porque se fosse doença de matar, não teria levantado com tanta rapidez. Ordenou os dias seguintes no repouso indicado, comendo cumbucas fundas de feijão preto e tomando o tal remédio. O complicado foi mastigar acontecimentos, já que não sabia como fazer aquilo e tampouco quis perguntar como era. Parecia difícil. Pensou que talvez fosse pra refletir sobre o desperdício da sorte contada pelo pipoqueiro, ou que pudesse ter alguma coisa a ver com a poética do seu estômago. Só que não lhe parecia ter muito o que mastigar, somente a vista de sempre, com a quitanda estendendo as caixas de fruta do lado de fora pela manhã, umas crianças correndo entre as amendoeiras, os jogadores de damas em suas posições de sempre. Decidiu ir para o seu banco e refletir durante o cheiro de marisco preparado ali na areia mesmo pelos pescadores. Por vezes o silêncio era invadido por risadas de passantes, e junto com eles o velho observava a chegada dos cachorros de rua manchados de solidão nas patas, vagando entre um carinho ou outro que garantisse a sonolência do dia. O velho se deu conta da poesia no pensamento que logo culpou o estômago, percebendo a chegada das dores que lhe diziam sobre ser refugado no mundo, o que pouco dava importância antes. E pela primeira vez, depois de anos de olhos jogados pelo marasmo da baía, sentiu dentro de si uma tempestade que alagou seu corpo todo, fazendo vazar água de seus olhos. Curvou-se no banco e ali despencou as vinte horas, os olhos de fruta, o homem em forma de cão. A madeira do banco exalava um cheiro adocicado pela água que dele escorria. Madrugou ali mesmo, naquele dia em que seus olhos cinza pálidos murcharam nos cantos, doendo a forma com manchas vermelhas que nunca mais deixaram aqueles contornos rentes aos cílios.

A claridade da manhã foi tomando seu rosto como um despertador barulhento. Chegavam ainda algumas vozes por perto. Uma menina mostrava à mãe o que havia encontrado pela rua: uma lagartixa que, para a sua professora, significava sorte. Para mãe pouco importava as simbologias daquele bicho, achava nojento de qualquer modo. Larga, menina! Tem coisa mais bonita que dá mais sorte do que isso aí. O velho só ouviu a palavra sorte, encarando a criatura deixada pela menina na calçada logo em frente ao banco. Foi então que sua memória trabalhou algo mais que as ruínas de sempre, remontando a frase sombria daquele pipoqueiro que disse sobre sorte intocada e nunca descoberta. Sentiu-se descobrindo-a; nunca pensou que seria capaz de ver aquilo com seus próprios olhos, um acontecimento que de jeito algum lhe coube entre os sonhos mais profundos, nem quando o estômago decantava versinhos. Prolongando mais ainda os conselhos dos últimos dias, deparou-se com a recomendação do médico para que mastigasse melhor os acontecimentos, e sentiu compreender o que deveria fazer agora. Catou o bicho do chão e ali mesmo o enfiou na boca. Sentiu a textura gelatinosa e fria da criatura vasculhar a mucosa de sua boca buscando uma saída dentro daquele breu, agitava suas patas contra as bochechas do velho, mordiscando o céu de sua boca como se tentasse furar a coragem do predador com vigor de onça. Mas o velho mastigou e mastigou com a intensidade da prescrição recomendada. E logo o bicho virou massa pastosa, coisa que fez a fome se dar conta de estar afoita. Engoliu com gosto, pensando ser a sorte elixir que se absorve pelo esôfago, matéria que se instala por dentro e ali vibra pelo tempo de todos os demais estados. Confortava-se com a ideia de ter garantido a sua sorte por dentro, o que durou alguns minutos até que sentisse o estômago revirar suas poesias, desta vez perambulando o desfalecimento das criaturas, falando sobre morte, a dama de branco, os olhos perpetuamente fechados. O velho sentia pulsar os desbraves daquela dor revistando sua história como se houvesse ali coisa bonita de se poetizar. Foi então que teve o despropósito de pensar na relação dos acontecimentos: havia matado a sorte pelos dentes, assim como as entranhas mataram a dama, e os homens matavam outros homens pelos cursos. Havia matado para tornar seu o que se pega emprestado do mundo, assim como se estraga água e se quebra a terra. Era sorte, mas estava morta, assim como tudo aquilo que fazia pouco caso de entender, mas, por um descuido, naquele momento entendia. Levantou-se trêmulo, parecendo visualizar aqueles desastres bem diante de si, estudando a crueldade dos fatos como se fosse história nova, nunca antes acontecida. Mas tinha sorte o homem, porque aquilo lhe parecia ser coisa da imaginação – podia até ser delírio. Ninguém mandou logo ele pensar demais. Comi a sorte, e daí? Outro descuido. As bondades do mundo duram o tempo de um grito. Pouco pensou pelo resto do dia, preferindo dormir já em sua casa. O dia seguinte era de campeonato de damas. Os homens arrumavam as peças quando o velho ouviu a voz do pipoqueiro sussurrar dentro do seu ouvido algo sobre a sorte que deveria encontrar. Foi então que suspirou, infiltrado em seu desperdício: a sorte está dentro de mim, só que morreu, porque o médico mandou mastigar bem e eu mastiguei.


Foto: Luiza Rezende

Um fenômeno chamado G.T.

Nem mesmo entre os armários da cozinha; no vão entre a poltrona e o sofá da sala; entre os cantos escuros dos azulejos do banheiro; pelas diversas gavetas da estante no escritório; dentro do emaranhado dos pêlos do cachorro; na dispensa, encolhido entre os sacos de feijão e farinha. Nada. Não estava nem onde poderia estar caso tivesse perdido pelo caminho de chegada em casa. Uns quatro passos após a porta de entrada, mais uns cinco até a cozinha, entre a geladeira e a pia, outro mais até a mesa de jantar. Havia sumido. Sentia a falta a qualquer momento asfixiando seu vocabulário sem que houvesse algo a ser feito. Seu início estava desaparecido, foragido sem que soubesse como fá-lo retornar. Evaporado entre as palavras, aquela letra seria um buraco exclamando para sempre uma ausência nas suas escrituras.

E mais do que isso! – um desespero lhe assustou o pulmão – justo com ela, professora de português há tantos anos contados por suas rugas. Alfabetizara muitos quando nova, as palavras frescas brotando entre seus galhos novos. Sentia a força das frases, a intensidade dos adjetivos. Tinha orgulho de trabalhar com os ornamentos do que se quer dizer. Mais adiante, lecionara para colégios exigentes, insistindo no bem entender dos versos alexandrinos que dizia Machado. E depois, no desmembramento das formas pelo bem da poética e dos instintos, foi que chegou a professora universitária, efetuando aulas meticulosas para se compreender a importância de cada letra expressiva nas palavras distribuídas pelos textos. E justo com ela aquele descuido.

Aconteceu logo naquela tarde, ou pelo menos foi quando se deu conta do tal sumiço. Fumava sentada no sofá com seu cachorro deitado no chão ao seu lado, mirando ela vez ou outra para verificar sua total concentração naquele livro chamado Dicionário. Rabiscava algumas notas num papel solto, e por vezes parava a leitura para dar mais um trago longo e mirar o que diziam as imagens na televisão configurada para o mudo. E novamente se preparava para voltar à leitura das palavras iniciadas por “C”, quando sentiu a luz se apequenar com lentidão até findar-se num estalo oco que parecia vir das quenturas das lâmpadas. Queimaram pela segunda vez naquela semana. Todas juntas, desgraça! Sentiu o breu estranhamente lhe invadir o escuro interno, parecendo farejar algo, não sabia exatamente o quê. Poderia também ser coisa da sua cabeça, um medo do escuro que por vezes a gente descobre. Trocou as lâmpadas queimadas e logo tudo estava iluminado. Seguiu, então, a leitura novamente pela letra “C”; foi quando viu a palavra adiante fatalmente descuidada, tremelicando um vazio pelas sílabas. Estava escrito “c b n ” onde deveria ser “cabana”, aquela ela já havia passado os olhos. Mais abaixo leu “c beç ” onde antes estava “cabeça”. Eram os “ás” – todos eles haviam sumido. Revirou as páginas do dicionário e nada via. O “a” havia sumido como se precisasse apenas de segundos para se extinguir, como se nunca tivesse existido. Mas ele estava logo ali um pouco antes, certeza que os vira. Não, não conseguia organizar os pensamentos. Um dicionário sem “a”; quanto descuido!

Preferia não insistir naquela confusão e foi até o banheiro jogar uma água no rosto, talvez escovar os dentes e se manter acordada, até porque podia ser o sono ou coisa do tipo. Mas ao pegar a escova no armário escondido detrás do espelho, desequilibrou-se acometida pela surpresa. Ali também havia espaços frios pelas palavras: ” gu  boric d ” ; “P st  de dente”; “S bonete”. O que será que tinha acontecido com a letra “a”? Silenciosa, refletindo a composição das palavras que avistava pelo caminho, destrinchando a morfologia do que sabia compreender do complexo português, foi percebendo que estava diante de um fenômeno raro que poucas vezes ouviu falar e jamais havia presenciado. Tratava-se do fenômeno de G.T., em que uma determinada letra parece sumir do vocabulário da pessoa, atingindo não somente os olhos, que não são mais capazes de a enxergar, mas voz, audição e escrita. Ainda que exista e que saiba da sua existência, o Fenômeno de G.T –  abreviação de Gira Trunco – impossibilita o contato da pessoa com aquela letra. Os casos mais frequentes acontecem com uma vogal, que deverá ser para sempre esquecida pelo vocabulário de quem outrora a conheceu. Identificando o caso, sentou-se no sofá fatigada. Seria o suficiente acomodar-se àquele “tarde demais” que a mente insistia? Talvez existisse um “a” ali num canto qualquer, como que caído pelo esquecimento de seus bolsos pequenos. Talvez o encontrasse. Nada teria a perder se ao menos vasculhasse os segredos daquele apartamento.

E não havia frase que dissesse qualquer auxílio para encontrar aquele “a”. Pela casa não estava, e o perdia mais ainda de seus últimos resquícios quando avistava as palavras tremelicando seus defeitos nos papéis distribuídos pela mesa. E, invadida por um descuido do desespero, seguiu até sua estante bufando o medo que permitia ser acomodado em suas têmporas, suando o calor daquele dia incomum e de poucas palavras. Jogava os livros no chão assim que percebia não existir um “a” sequer nem nos títulos, nem nas folhas de rosto. Por toda parte, nada restava daquela letra inaugural, da vogal que faz nascer as delongas do que se diz de mais simplório, de onomatopéia a substantivo. Suplicava a cada folha, gemia, insistia na possível forma daquele “a” escondido, talvez de cabeça para baixo, talvez entre uma folha e outra ou, isso!, na brochura! Mas nem que rasgasse todos aqueles livros o encontraria. Qualquer que fosse o “a”, ele estava tão perdido quanto o tempo contava novos minutos, que, prolongando-se, iam desabrochando novos efeitos daquele ruído G.T.. Foi o que compreendeu assim que arriscou um berro. Forçava gritar um “ahhhhhh” que expelisse de si o assombro daqueles instantes, mas tampouco isso. Já não conseguia dizer mais a letra nem que a infiltrasse secretamente entre os fonemas. Nada saía. Quando tentava, surgia sobre o som do que dizia um silêncio bizarro que parecia uma surdez momentânea, e logo em seguida compreendia os sons dos “vês”, “gês” e “erres”. O som piscava algumas palavras sem sentido. Teria que se readaptar ao que ouvia; acostumar-se a deduzir antes mesmo da palavra ser dita que, dentro dela, um “a” surdo se escondia. Inquietava-se. Por que com ela? Buliçosa por letras e palavras, pela construção e desconstrução do que se conta. Logo ela, amante do que diz e faz dizer. Perdia uma parte do que definia seus propósitos, um pedaço daquilo que queria ao menos ter a possibilidade de expressar.

E se escrevesse!? Supôs no pensamento entravado pela dúvida. Era uma possibilidade. Talvez redigido conseguiria avistar a vogal pela última vez. Poderia se despedir de seus contornos, ao menos. Olhava o tempo prevendo a morte quase completa daquele “a” que já pouco existia dentro dela, ainda que insistisse em rabiscar futuras esperanças. Suas mãos tremiam contra o papel, a caneta frouxa fazia riscos deslizando pelos dedos suados. Aquela era a sua última esperança. Augurava um “a” que fosse, ao menos um que a fizesse alumbrar o arrojo daquela letra que alenta alvores e adventos, ao menos um “a” que lhe acalmasse a angústia, a ausência do que jamais algum dia havia atentado o afastamento ou admitido o aniquilamento assim tão áspero e acabrunhado. Foi testando a caneta no papel, fez umas letras, uns rabiscos e pensou na própria assinatura – seu nome tinha o que procurava. Muito bem, escreveria Ágata na rapidez de sempre. Faria o primeiro “a” comprido, esbarrando nas linhas debaixo, do jeito que ficava mais bonito. Isso, faria assim. E fechou os olhos e fez. A assinatura durou o tempo habitual, já acostumado com o movimento da caneta. Sentia-se mais calma. Talvez não sofresse todos os sintomas. Este, ao menos, lhe parecia intacto. Sorria pelas mãos, pelos dedos dançando o trajeto do nome, divagava sobre a possibilidade de dar um jeito naquilo tudo. Abriu os olhos tranquila até ler seu nome com vazios decorados, o papel dizendo apenas ” g t ” no lugar de Ágata. G.T.. Lia e relia; não conseguia desgrudar os olhos arregalados da coincidência de possuir em seu nome, e desde sempre, o tal fenômeno engolidor de vogais. Transformara-se, chamaria-se G.T., um nome obtuso de forma e sentido. Não seria mais ela. Atestando o fato, faltou-lhe voz, sentiu a cabeça girar com dores agudas que apagavam suas esperanças uma por uma como velas equilibradas em seus instintos. Encolheu o corpo sobre a cadeira e chorou durante um tempo prolongado pelas conjunções imperfeitas.

Foi tomada pelo desespero sem que houvesse outro rumo. Compreendia o seu destino de ser incapaz de dizer o que lhe falam os “ás”. Nenhum mais. Sem que ao menos pudesse entender o que falaria o “a” dos outros. E seria complicado demais reformular uma maneira de ler, ouvir, dizer. Nada faria muito sentido nem mesmo aos artigos. Muito menos em suas aulas, ou nos textos lidos. Aposentaria, por certo; não haveria o que fazer senão isto. Teria que pensar em algo que a deixasse em funções mudas. Talvez uma produtora de dobraduras, pintora de insetos ou jardineira nas casas de pedra. Sentia-se pressionada por tantos pensamentos e tantos por vezes isentos de “ás”, o que lhe obrigava a revisar tudo que refletia diversas vezes, num processo novo e já cansativo. Estava tão angustiada com toda aquela mudança repentina que transformava seus morfemas e formigava em sua pele uma sensação de esquecimento das devidas pontuações. A solidão chegava em passos discretos, como nunca antes havia chegado. Pelo silêncio daquela deformação, a professora G.T. sentia invadir o que bem queria dizer, reprimindo não somente seus “ás” mas tudo aquilo que dizia ela ao seu redor, como os cômodos, móveis, plantas, luz. E pouco a pouco não sobrou um “a” sequer; pouco   pouco n o foi existindo m is um jeito de dizer seus intentos, seus entendimentos, n d . Tornou-se um descuido no meio de t ntos furos nos dizeres. Desisti , n o f l v  q se n d  j . Est v  t o  b tid  por n o  comp nh r  s t lh s  bob lh d s d s p l vr s que surgiu em si um silêncio revestido pelos prenúncios d  mudez, onde repousou seus chi dos pelos verbos seguintes.

10 de junho, Dia Internacional da Língua Portuguesa

Fronteiras Vivas

1.333km seriam desfilados do lado de fora do carro em direção às fronteiras vivas. Em linha reta o mundo parece organizado. A ordem das cenas por vezes se perde quando acumulamos fatos. Deslizar por aqueles pedaços de terra provocou um descolamento da alma, de onde quer que ela estivesse colada. Invadimos vias e veias com o único intuito de chegar. A sensação de perceber o corpo em movimentos fez um sorriso discreto na avidez de cada um. Éramos 13, plantados na curva da vida às cinco horas da manhã, dialogando com o breu daquele início de viagem. Acordadas as ruas sonolentas, costuramos a estrada com pernas livres.

O céu ascendia devagar; contornava a estrada com pequenos pedaços de plenitude. O tempo estava bom para decifrar nuvens e invadir montanhas com olhos de fotografia. E pelo sopro de poucas curvas, tínhamos a leve sensação de que aquela viagem guardava mensagens nas sombras. Oscilando entre os ventos enfileirados, percebemos entre nós o impulso de uma discreta euforia. O momento indicava o início da natureza absoluta; era mais Sul a cada quilômetro azulado. O tempo abria caminho até um silêncio que nos recebia com sede.

A primeira parada foi o Vale Lagaver, um lugar isolado e de brisa espontânea que brotava pelos ângulos dos olhos. Ficamos guardados entre paredes de pedras; até a cachoeira, bastavam 325 passos exatos de pés médios. Acampamos perto de uma casa de madeira com caminhos de musgos na entrada. Quando vista de longe, parecia um grande animal confortavelmente deitado sobre um cobertor, com um sono que deslizava a consciência até um estado sublime rodeado por pequenos segundos de paz. Por vezes, descobríamos vagalumes guardados nos bolsos como se fossem ouro bruto cintilando sua raridade prestes a voar.

No quintal da casa havia o bosque dos labirintos, onde era possível avistar um caminho em cada extremidade, todos idênticos. Os gatos que por ali passavam voltavam duplicados. Ao indagarmos sobre o fato aos moradores da região, disseram se tratar de um espelho que ficava bem no meio do labirinto, capaz de duplicar mistérios; e assim cada gato ganhava um novo ele que, ainda que vinculado ao original, vagava como sendo vivo. “Foi daí que surgiu a lenda das sete vidas dos gatos”, esclareceu um senhor. Os duplicados pareciam redescobrir o mundo pelas frestas, deslumbravam-se estáticos observando as folhas menearem pelo ar.

Talvez ninguém quisesse nunca mais sair de Lagaver, mas era preciso. No dia seguinte andamos mais 440km numa estrada vazia por mais umas oito horas. Saímos no horário do almoço, sonolentos por causa do peso do sol. A luz invadia o carro esquentando os incômodos e desvirtuando a nossa visão granulada. Clareava o percurso pintando de branco cercas e flores; ao longe, as casas pareciam manchadas de grandes doses de leite derramadas por jatos que vinham do céu. Comprometidos pelos olhos cansados e acabrunhados pela fome mastigando os desejos, paramos no posto logo em frente.

Por termos falado alto ou simplesmente porque éramos muitos, ali sentados como itinerantes e dispersos no mundo, foi atraído até nós um homem grande e bem gordo, carregando consigo uma grande garrafa de cachaça e um cigarro de palha bambeando na boca. Seu chapéu ocre parecia maltratado pelas estradas fronteiriças. Os olhos amarelados e seu perfume de tabaco lhe davam um aspecto de homem sem lugar, gasto pela melancolia dos faróis mudos. Chegou até nós projetando uma tosse enfestada de pigarro que silenciou nossa conversa. “Vão pra fronteira do Sul?”, invadiu, “Fica mais rápido cruzar pelo atalho. Economiza gastos e ainda pega a costa até as terras invadidas pela grama selvagem. Vocês já ouviram falar de Mosfrágum? É lá. Coberta pelo incômodo discreto da natureza. É triste de olhar, mas bonito quando realmente se vê, um lugar imperdível. Eu sou caminhoneiro, passo sempre por lá e vejo cada coisa que me arrepia as angustias; essas estradas são um calabouço aberto”.

Estremecidos pela curiosidade que a alma diagnosticava, decidimos ir pelas ruínas de grama da tal cidade cujo nome nos sumia da lembrança a todo tempo. Mosfrácio, Mostrátum, Mosfrá..gum! Em linha reta, a cor do dia descamava no horizonte. Sentíamos o cheiro da maresia cada vez mais próximo, e era curioso perceber que perdíamos a companhia de outros carros. Éramos nós com menos destinos, o mar projetando sua imensidão monocromática e vazia em nossa consciência. Era uma paz costurada; ouvíamos nela uma serenidade que a estremecia, pois, sendo só, tinha uma plenitude solitária.

Placas quase ilegíveis diziam a curva e última entrada. Despejados numa estrada de cantos curtos, nossa estrada agora parecia infinita graças ao silêncio que todas aquelas plantas empurravam sobre nós. Dois horizontes de grama, um de cada lado, encaravam nossos carros como se fôssemos intrusos numa terra vazia. Não se via um único ser vivo, de modo que saltávamos para desviar de um buraco ou outro que aquele asfalto velho acumulara no tempo de poucas visitas. Mas uma virada brusca no volante nos garantiu que o desvio dessa vez não era por conta dos buracos, mas sim de um gambá, mesclando sua forma com a das crateras escuras do percurso. Foi quando vimos surgir cada vez mais animais pelo andar da estrada: vacas, bois, ovelhas, bodes, capivaras, patos. Uma terra de animais, supusemos, decorada com tantas criaturas que quase parávamos de tão lentos, distraídos com a profunda beleza da paz monótona dos bichos. Ali pausamos no tempo fracionado. Sentíamos como se o mundo tivesse ido embora de nós – a liberdade nos assaltara.

“Olha só aquela casa!”, avistamos ao longe, perdida entre o mar de verde, um casebre que parecia possuir apenas um quarto de tão pequeno. Tinha cor de terra seca e murchava uma existência envelhecida, engolido quase que completamente pela grama. As janelas perdiam a forma para as plantas, parecendo ele todo uma ruína mumificada. Vivas mesmo talvez fossem apenas as árvores, cujos tamanhos eram ridiculamente desproporcionais, também quase completamente engolidas pelo mato. Era a confirmação de que havíamos chegado em Mosfrágum, um lugar que desconhecia os motivos das iras naturais, e que, engolido por elas, permaneceu estático; os animais camuflados pelos troncos, alguns opacos e dispersos como pedras – trocados de lugar pela vaidade gramínea.

Mosfrágum passou cortando todos os olhos, que mesmo vidrados pela catástofe curiosa, sua presença arfava sombria. A vista nos fez chegar ao fim daquela cidade com a alma gasta, exaustos. Era ali a cidade mais próxima da fronteira. Chamava-se Julão, apenas, uma cidade enferrujada. As casas pareciam perdidas no tempo, assim como o chão que acumulava histórias de faroestes, o que justificava o fato de todas as ruas formarem diagonais compridas, cheias de desvios entre ruelas e cachorros abandonados no meio das ventanias de areia que ora ou outra surgiam.

O lugar espantava a tranquilidade e nossa noite acumulou pesadelos em todas as cabeças. Curioso mesmo foi juntar as histórias e perceber que, misteriosamente, encaixadas faziam uma saga única de um tal rapaz que, montado num cavalo negro, apresentava-se como Craustin, cavalgando pelas ruas de Julão até o fim da cidade, onde lançava três disparos para o céu com a sombra das árvores malhando o rosto sisudo. Os homens da cidade explicaram ser ele o protetor da região que por muitos anos se apresentava em sonho aos viajantes atraídos pelas fronteiras mais vivas do Sul. Alguns deixavam presentes na praça; chapéus, esporas, charutos e botas pareciam brotar do solo com as raízes ainda firmes na terra. Escutamos vazios de respostas, os pulmões arrepiaram quando sentimos a ventania de areia mais uma vez espirrar em nossos olhos.

Mais 423km e chegaríamos na fronteira. Seguimos logo pela manhã com a ansiedade já salivando o momento. E recebidos pelo túnel de eucaliptos, cruzamos uma cidade confusa de nome, língua e povo. As casas trocavam as telhas e costumes; plantas decoravam uma vegetação já exclamando aspas estrangeiras; as enormes plantações que desenhavam as beiradas da estrada comprovavam presença e cuidado humano. Grandes piscinas naturais surgiam ao longe emolduradas por oratórios de pinheiros. Faziam ali o desfecho triunfal daquela terra em despedida.

Já avistávamos uma dobra singela na paisagem separando verdes de outros verdes. Agitava o peito, e perto demais do crível nos infiltramos nas fronteiras vivas, ali respirando pelas bocas do vento, deitadas ao lado do sono manso das vias, rasgadas pelas rodas, decoradas pela audácia grudada em nossos peitos. A mudez do sorriso de cada um sublimou a descoberta fronteiriça ali viva, afastada e firme em sua imensidão que tocava as beiradas de cada terra em silêncio, pulsando aquilo que ferve quando o momento encontra, embasbacado, a descoberta.


Foto: Luiza Rezende.

 

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