Uma experiência

Esse sentimento convida a olhar para uma data específica: dia 12 de dezembro de 2015, um sábado. O dia em que o último encontro de 2015 do zine na BPN aconteceu. Dia em que fomos levados a pensar sobre experimentação, sobre estar diante de investigações intuitivas, de perceber nossas próprias respostas, sentir novas ideias se formarem tipo ligações elétricas fervilhantes como cócegas desestabilizando a “calma” que aprendemos a ter no dia a dia.

O tema Experimentação, assim como todos os outros assuntos que abordamos em todos esses seis meses, foi uma provocação para expandir e povoar esse espaço onde a criatividade habita. Existem brechas baldias em nosso cotidiano que podem ser ocupadas por comportamentos experimentais, ou melhor, comportamentos de por a mão na massa em busca de gerar possibilidades que podem solucionar problemas que nem se quer foram percebidos ainda. Foi como ouvir o Charles Watson dizer: “etapas incipientes de estruturas úteis” que são capazes de abrir caminhos para grandes soluções. Experimentação como tema de fechamento foi abrir realmente esse grupo como um lugar de convite a experimentar e perceber os processos que nos levam a criar.

Juntos, nesse dia, chegamos a ideia de que experimentar é criar com o corpo, é permitir que outras formas de pensar e “ver” possam atuar em nossos processos de criação, e que a consciência dos sentidos pode ser algo muito rico e que também permite maior facilidade de conexões inusitadas. Quando questionamos a natureza das coisas, os empréstimos tornam-se possíveis e constroem novos ou outros significados para nossos padrões. A busca por consciência permite questões de fronteira e transbordamentos como: quais são os limites das matérias possíveis para se conceber uma escultura? Se por acaso conseguir pensar em algo não material, tenha certeza que está trilhando caminhos novos, ainda poucos experimentados que têm uma grande capacidade de transbordamento. A proposta de agora é olhar para as coisas não com olhos fixos, mas sim dissolvendo certas “fixitudes” em busca de discernimento e fluidez. Esse é o grande aprendizado que estamos conquistando aos poucos.

Diferente dos outros dias de imersão, esse último encontro teve certas particularidades notáveis, como o processo que a Catarina Bijalba passou ao levar seus bolos e cafés para nós. Os bolos, que eram inéditos em seu repertório, foram motivações geradas pelo tema. E melhor do que qualquer um, Catarina podia falar sobre um processo novo de algo que não “dominava” e que acabou se tornando a porta de entrada de uma grande ideia e muitas possibilidades, ideias que levam a outras e outras. Esse foi o fio que conduzia o dia, uma linha de oportunidades.

Em um ponto no meio dessa linha encontramos com o Tito Senna, um dos caras mais inquietos que conhecemos. Tito, que tem sua formação em Design e os pés muito bem colocados nos espaços da arte, falou sobre como os seus 15 anos de amadurecimento como artista se misturaram com o seu comportamento que faz da sua trajetória algo incrível. O processo do grafite, que abre a discussão sobre matéria, plano, formas e tinta, mistura-se com ideias sobre química, física, teologia e até mesmo desafios a pensamentos de reconfiguração dos espaços. Tito, que iniciou o nosso dia colocando fitas vermelhas na parede, abriu o diálogo silencioso e muito provocativo. Cada um que entrava na sala Multimídia da BPN percebia uma nova atmosfera que aquelas fitas espreguiçavam, e a medida que a história era sendo contata e cada conexão, cada escolha que ele teve para construir o que contraiu se justificava aos poucos. Cada um de nós estávamos sendo tragados pela experimentação, tragados pela força de um trabalho que ganhava significado singular e individual. Pode-se ali perceber como uma obra acontece e como a permissão que o Tito conquistou em correr certos riscos fez do seu trabalho algo além da física, química e teologia. Tem a capacidade de ultrapassar espaços físicos, de demarcar espacialidade em uma matemática gestual de formas simples e de ideias possíveis. Assistir suas fitas e ignorar as condições físicas de impedimentos reais foi experimentar um certo tipo de realidade que se abre para um mundo que desconhecemos as premissas do real e dá lugar ao fantástico, de pequinesas, de infinitudes onde somos livres para transitar se quisermos um mundo que está logo ao lado mas que observamos com timidez e pudor.

De certa forma, Tito concluiu o grupo de estudos abrindo espaço para discutirmos sobre esses lugares, brechas baldias, como disse antes, que estamos ocupando e investigando suas fronteiras. O campo imantado que existe nesse espaço, nessa geografia, é fruto do fazer, fruto do nosso apego/afeto por causas comuns aos que desejam falar de criatividade. Assim, o projeto de imersão sobre processo criativo na PBN foi uma grande experimentação do Sopa em um novo ambiente de atuação, que de certa forma explorou com mais potência o que acreditamos. Por esse motivo, estamos hoje desenhando novas formas de existência nesse espaço, onde possamos tanto oferecer o que já adquirimos quanto multiplicar todas essas intenções.

Obrigado e esperamos te encontrar nas próximas imersões.

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Restrição como possibilidade

Como abordar o tema restrição sem ser muito abrangente? Essa questão propõe elaborar algumas fronteiras para nortear esse post e manter o foco. Em primeiro lugar, o que desenvolvemos é pinçado sob a ótica da criatividade com base nas pesquisas que fazemos nos últimos anos e também assumindo alguns pontos que geramos juntos nos encontros do grupo de estudos ZineDisfunção na BPN. Esse primeiro recorte ajuda a visualizar a fronteira e ao mesmo tempo propõe um primeiro entendimento da ideia de restrição, como uma delimitação de espaço para que possamos compreender o todo. Estabelecendo esse acordo, que um processo independe do seu complemento criativo, artístico, acadêmico e por aí vai, possui uma aparência similar a de uma cebola, onde camadas e camadas de ideias e/ou possibilidades (fronteiras entre espaços) agrupam-se orbitando em um centro comum que chamamos de “o cerne da questão”, e todas as camadas se relacionam, de certo modo, com a ideia central configurando assim um único corpo no espaço.

A ideia da cebola, “fronteiras”, define-se da seguinte maneira, como diz o priberam: “Zona de território imediata à raia que separa duas nações”, essa afirmação favorece o discurso de limite, mas não um limite de entendimento, mas de espaço/corpo que pode ser “infinito” em possibilidades. E assim surge a questão: do que se compõe um espaço? Creio que por esse caminho perderemos o foco da definição de restrição, mas podemos pensar que restringir é um recorte espacial, um parâmetro que usamos para compreender um todo e seus elementos. É compreender que essa palavra carrega pré-conceitos que dificultam seu entendimento – afinal restringir não pode ser algo bom, já que nos impede de ir. Abordar esse tema, enquanto processo criativo, é lidar com a famosa caixa que devemos pensar fora. Afinal, como podemos resolver um problema pensando fora dele? Foram esses os pontos que discutimos no último encontro do grupo de estudos, dia 03 de outubro, e que esse post tenta resgatar as fagulhas de um dia restritamente plural.

A discussão começou com uma tentativa de definir a palavra restrição e perceber onde ela se apresenta de uma maneira pontual. De forma espontânea, começamos com recortes muito abrangentes, como o planeta que é uma restrição do espaço, e em seguida a sociedade que é uma restrição de comportamento, mas a medida que os exemplos foram se acabando fomos forçados a nos aproximar do centro da questão, e nessa hora todos já concebiam a ideia de uma “cebola de territórios”. Cada um com suas fronteiras espaciais, até que o corpo passa a ser uma restrição para nós e com os limites físicos do nosso corpo fomos capazes de pensar soluções que transformam nosso mundo de forma radical. Por exemplo, se não fosse nossa incapacidade de locomoção rápida nunca precisaríamos domesticar animais como os cavalos, logo os carros não existiriam dessa maneira, e assim podemos pensar que as cidades assumiriam outra configuração, ou até mesmo os guindastes que substituem nossos braços de forma limitada em possibilidade, mas exponencial em força, trariam outras formas para nossas construções. Estamos sempre em busca de superar ou lidar com as restrições que se impõem em nosso caminho construindo pontes que fazem trafegar entre diversas camadas dessa cebola.

Todas essas questões trazem uma integração ao indagarmos que restrições são fatores limitadores. Sim, de fato são, mas acima de tudo são fatores delimitadores e só assim somos capazes de compreender e decidir como agir ou reagir a um estímulo. E como não poderia faltar, o tempo é sim um fator limitador que se impõe sobre as condições do trabalho, porém devemos nos atentar ao que o enunciado está dizendo. Ao lidar com uma demanda, todos os fatores podem ser, ao mesmo tempo, limitadores ou estimulantes para uma nova maneira de abordar a questão. E assim dizendo, uma ótima ferramenta para delimitar uma trajetória, que utilizada de forma consciente, abre mais espaço para possibilidades do que impede o desenvolvimento. Ou seja, a forma como lidamos com a ideia de restrição é o diferencial.

O dia na Biblioteca Pública de Niterói se desenvolveu com essas provocações e a incrível participação do designer Walter Mattos, que por mais de 40 minutos falou sobre seu processo de trabalho e em como trabalhar com um nível muito alto de restrições possibilita a concepção de um trabalho justificado e muito eficiente a nível plástico e conceitual. Walter é um dos designers mais influentes no Rio de Janeiro e hoje, com seu portal waltermattos.com, ele apresenta vídeos sobre o uso de ferramentas e análises gráficas com base no uso de grids e estruturas hierárquicas baseadas em geometria e matemática. Ouvir sua palestra foi voltar a um racionalismo Phi das coisas, ao mesmo tempo que nos abriu a cabeça para maneiras de trabalhar e justificar nossas escolhas de forma consciente. Não adianta só fazer, tem que saber o porque está fazendo. Foi com frases desse estilo que ele nos provocou a perceber que o mundo, de fato, está codificado em nossa frente e, como a cebola, tem camadas. O nosso cotidiano é feito de cascas de conhecimento e relacionamentos que podem ser um grande provedor de estímulos criativos, se formos atentos a ele.

Foi assim que o 4º dia de estudos se fechou, com todos trafegando em um universo de possibilidades ao se deparar com uma restrição abrupta, isso foi notável já nos papos pós palestra. Pensar restrições abre e não fecha. Essa é a moral obvia do post, mas só é possível chegar nesse entendimento consciente depois de definir a ideia. Ficamos muito satisfeitos com a ressonância que esses encontros estão proporcionado. O próximo será no dia 14 de novembro e quem chega como palestrante é o biólogo Rafael Franco.

 

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Fotos: Diego Mere, Laura Yunes e Luiza Rezende.

Um dia de caos

Uma rede. É dessa forma que acredito que as ideias e palpites povoam nossa consciência, construindo e transitando entre redes. Difícil saber se esse é realmente um comportamento dos dias de hoje ou se já somos assim desde o início. Recordo quando criança, sem muito o que me preocupar a não ser inventar brincadeiras, que as ideias eram quase uma linha, fato após fato. Claro que sempre me levavam a lugares desconhecidos, lugares de descobertas, mas tudo fazia parte da diversão. Olhar hoje para aquela época faz parecer óbvio não saber o fim da história.

Ter hoje consciência do objetivo, faz transitar pelos palpites, chamo de palpites os fragmentos incipientes das ideias de forma não linear e ansiosa. Não saber mais onde estão os espaços que o acaso pode agir faz tudo ficar mais confuso; a sensação de caos aponta para um fim não de projeto, mas de energia de agir. A sensação do nada é mais forte do que o movimento, esvazia onde deveria encher, e assim constrói, consequentemente, paradigmas que impedem nossos movimentos.

Movimentar-se enquanto criativo é transitar nas maiores distâncias entre dois corpos, é empregar energia em descobertas e estar conectado com o que se faz isento de grandes objetivos, mas construindo gradativamente percepções e diálogos com o fazer seguinte. Essas ideias foram construídas no grupo de estudos do dia 12 de setembro. Nesta imersão, buscávamos discutir sobre o Caos e o Acaso, perceber seus movimentos e ganhos ao ouvir relatos sobre a ação do caos no cotidiano.

O caos é imanente ao nosso pensar

Diferente do que fizemos nos últimos 2 encontros, esse teve uma particularidade: as cadeiras que sobravam (uma ou duas, mas sobravam) cederam espaço para os sofás e poltronas; haviam menos lugares, mas tudo foi proposital. Construimos também uma divisão muito clara entre o lugar de ouvir e o lugar de falar, e, assim como criança investindo nas brincadeiras, começamos a nossa troca de ideias. A  medida que falávamos, mais pessoas iam chegando e os lugares acabando; até que o inevitável aconteceu. Abrimos espaço para o acaso agir: os atrasados que chegavam se deparavam com uma sala confortavelmente cheia, e cada novo corpo no espaço agia com certo desconforto sobre os outros que não sabiam o que fazer, já que no fundo estavam uma pilha de cadeira. Por algumas vezes o problema de espaço foi solucionado pelo chão, que aos poucos se tornou assento e roda. O clima ficava cada vez mais informal, até que o chão não comportava mais e no desconforto do outro, sem saber onde se acolher, e também por perceber que ali existia algo de valor que todos deveriam ouvir, o caos aconteceu e a troca de ideias foi interrompida por um dos ouvintes: “licença, mas precisamos colocar aquelas cadeira aqui! Acho que vai ficar mais confortável para eles”.

Nesse momento todos se moveram. Um grande estímulo gerou reações inesperadas e, mesmo sendo uma reação comum, do estilo típico do dia a dia, todos perceberam que aquilo estava conversando com eles de alguma maneira, que o tema do dia fazia mais sentido do que antes. E nessa hora o comentário sobre estar com um olhar atento foi inevitável. Perceber as minúcias das coisas que nos cercam faz do jargão “o acaso só favorece as mentes preparadas” pertinente.

Logo em seguida, com todos já em seus lugares e com as antenas ligadas, o segundo ato foi uma inversão de papeis. O lugar que antes era de quem aprensentava ficou vazio deixando espaço para quem quisesse falar sobre qualquer assunto, afinal o tema era acaso, caos e também sobre etapas incipientes de estruturas úteis. No início, a timidez foi mais forte e a troca de olhares em tal vazio intensa. Era fácil perceber que mesmo o nada pode ser muito rico em expectativa e em propostas, pois, nesse tempo que precede o ato, as ideias fervilham com grande intensidade. O silencio não se manteve assim por muito tempo, tivemos uma das trocas mais inesperadas que poderíamos desejar. Foram tantas coisas que mal posso replicar, mas que tenho certeza que estou ganhando corpo em meus pensamentos.

Um bom tempo para não parar

Como de costume, o café do Blueberry estava presente e fez a diferença. Dessa vez o café que costuma agitar a galera conseguiu centrar e aliviar a pressão. Quem veio participar do encontro foi a Cat (Catarina Bijalba), que junto com a feitura de  café, mergulha no mestrado em biologia. Nada mais pertinente ter entre nós uma dessas pessoas que, de fato, representa a pluralidade de todos. Porém, naquele momento foi quase icônico ouvir as particularidade de um café que despertava o assuntos. Cat conseguiu a atenção de todos ao falar das particularidades da plantação, e sobre como foi importante a curiosidade de um pastor ao perceber que suas ovelhas, após comerem certo tipos de frutas, ficavam enérgicas e saltitantes. Nada mais pertinente para uma história de acaso que perceber no café o fruto desse acaso. E, como era previsto, esta foi a hora em que o papo e as trocas fluíram intensamente.

Seguindo o evento, a terceira parte foi um convite ao sonho quântico com o neurologista Messias Reis, que falou quase abstratamente sobre a relação de evoluir e a que ponto que conseguimos sonhar, e que nesse sonho consciente estão algumas das leis da física quântica capazes de nos levar a um segundo momento da evolução. Quando disse “em um sonho somos nós e somos o outro, somos as cadeiras, nuvens, tudo ao mesmo tempo”, fez pensar que somos nós mesmos e somos o caos que controlamos e não controlamos nessa realidade. Elevou a percepção de que mesmo em nós existem partes naturais do acaso e que, se tivermos consciência disso, seremos mais eficientes em controlar ansiedades e nos manter como potências de agir.

A próxima imersão será no dia 03 de outubro e, dessa vez, os super poderes do designer Walter Mattos e seus grides vão compor um dia que falaremos sobre restrições.

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Cidadania, Democracia e Novas Tecnologias de Informação e Comunicação

A informação e a comunicação são direitos políticos fundamentais para o exercício da cidadania. Para participar democraticamente, se manifestar e lutar por direitos, é indispensável ter acesso a informações, as mais qualificadas e amplas possíveis. E sem livre comunicação as informações não circulam. Parece que estamos diante de um círculo vicioso de interdependências. Mas onde está o problema? Exatamente no poder de controlar a informação e a comunicação. Em todas as sociedades, em todos os tempos, informação e comunicação são questões de poder. Mais do que com armas e força bruta, para democratizar o poder é mais eficaz o esforço de democratizar a informação e a comunicação. Esta é uma tarefa essencialmente de cidadania, no seio da sociedade civil, que deve ser capaz de produzir e difundir informações estratégicas, motivadoras, criadoras de imaginários agregadores e capazes de gestar movimentos cidadãos irresistíveis.

É em torno a tais questões que se desenvolve na sociedade o debate fundamental da democratização da comunicação. Entre nós, ainda prepondera um poder privado que controla de forma dominante os grandes meios de comunicação e o fluxo de informações, transformando-os na base de um negócio privado. Pior, a liberdade de comunicação se confunde com a liberdade dos donos dos meios de comunicação, ao invés de ser liberdade da cidadania em aceder a informações e se comunicar. Mesmo diante do monopólio, a cidadania soube ser inventiva e criar formas alternativas de comunicação de si e para si. No nosso Brasil, a luta contra a ditadura se fez quase na clandestinidade, na base de panfletos, fitas cassete, vídeos educativos, jornalecos de sindicatos e movimentos. Claro, mesmo sob censura, tivemos Pasquim e Movimento, que ajudaram e muito.

As novas tecnologias e informação e comunicação (NTIC), baseadas na informática e na cultura digital em rede, sobretudo a partir dos anos 90 do século passado, vêm abrindo novas e surpreendentes possibilidades para a cidadania. Aqui se destaca a Internet e seus inúmeros desdobramentos. Estamos diante de uma revolução cultural com grande impacto na política, no modo de ver o mundo e o nosso lugar nele, no modo de nos relacionarmos e criarmos um novo saber, compartilhado no ato mesmo de produzi-lo. Vivemos uma sensação de simultaneidade, de estarmos num lugar, mas conectados praticamente com quem quer que seja, participantes à distância do que se passa em outros lugares. Claro, o grande negócio tenta privatizar e controlar este maravilhoso campo para a sua acumulação. Mas cresce de forma poderosa a ideia de que estamos diante de um bem comum criado que não pode ser mercantilizado. Sua força reside na colaboração, no compartilhamento, na liberdade, na construção de redes sociais, portanto, na manutenção de seu caráter de bem comum, de todas e todos.

Hoje uma frente de luta cidadã que precisa ser a mais radical possível é superar a exclusão digital, pois muita gente ainda não tem acesso às NTIC. Outra frente é a multiplicação de iniciativas autônomas de informação e comunicação, abertas ao mundo. Claro, a língua ainda é uma barreira, mas cada vez mais as novas tecnologias permitem desenvolver softwares tradutores, facilitando uma espécie de comunicação planetária. Aliás, a primeira grande batalha cidadã na era digital iniciou em torno do software livre.

Mas temos um desafio novo: as possibilidades das redes sociais na emergência de novos movimentos, como em grande medida ocorreu entre nós no tal “estouro da cidadania” de junho de 2013. Nova comunicação trará, com ela, novos sujeitos coletivos? Uma questão clara é como articular a necessidade de tornar visível o invisível na agenda pública – aquilo que não é notícia para a mídia negócio? Ao mesmo tempo, como construir e disputar interpretações e sentidos, propostas e direções, capazes de criar movimentos que radicalizem e revitalizem a democracia? São muitos e inspiradores os desafios para organizações de cidadania ativa.

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