Em memória de fogo e passarinho

O texto abaixo foi publicado neste zine buscando desbravar a construção da memória literária de Manoel de Barros e Eduardo Galeano, escritores apegados ao tema, que republicaremos hoje para avivar o que não pode ser esquecido.


 

Memória e suas criações exuberantes  

Uma viagem ao mundo das lembranças recordadas e reinventadas de Manoel de Barros e Eduardo Galeano: escritores quem veem na memória um prato cheio para a criação

‘’Recordar: Do latim re-cordis, voltar a passar pelo coração’’. Assim começa O Livro dos Abraços, de Eduardo Galeano, refletindo sobre o recordar, este ato por vezes silencioso que nos confidencia o que vemos e aprendemos ao longo dos dias. Uma capacidade inata e adquirida. Um substantivo abstrato como tantos outros que classifica aquilo que, acumulado na nossa mente, caminha sorrateiro. Muitas vezes esquecido, vive escondido entre os cantos escuros da mente até o dia em que decide ser aclamado e acordado pela nossa lembrança. Todos nós a temos e cultivamos inconscientemente, do mesmo modo que a usamos para nos entendermos e entendermos o mundo. Mais do que isso, a análise sobre registros da memória pode ser bem mais profunda quando pensamos sobre a origem das ideias, já que muitas vezes – na maioria delas – é na memória que se escondem as grandes criações. Seja através de uma história ou recordações da infância, uma descoberta ou um fato marcante durante a vida, todas as experiências acumuladas pelo homem vão para este mesmo ‘’lugar’’. Na associação dessas várias recordações surge, por vezes, a fala diferente e inovadora da criação.

Grandes representantes deste ato criativo de dialogar com as recordações marcaram a literatura latino-america do século XX com obras cujo principal aspecto é a descrição das lembranças guardadas na memória, sejam elas reais ou adaptadas. Autores como Eduardo Galeano e Manoel de Barros, um uruguaio polêmico e um brasileiro encantador, parecem não ter muita coisa em comum, embora sejam caçadores natos de recordações inspiradoras, que podem ser encontradas num prego estático na parede de uma casa velha ou na triste morte de um poeta espanhol.

Parecendo nos guiar até uma pequena casa escondida na última esquina do mundo, O Livro Sobre Nada, de Manoel de Barros, relata as mais sublimes minúcias dos nadas que, de acordo com a realidade inventada do autor, seriam flores, insetos, rios, pedras, animais, entre outras peças da natureza esquecidas dos olhos desligados e acomodados com a velocidade da rotina. ‘‘Inventar é uma coisa que serve para aumentar o mundo’’, explica. Sua literatura é uma viagem na desconstrução da realidade a fim de renovar o olhar acostumado do leitor. Os fatos contados em poemas e textos breves parecem mais reflexões infantis e despropositais; lembranças de um verão qualquer rabiscadas num papel. É inventor de palavras e de todo o idioleto manoelês, classificado por ele como o dialeto que os idiotas usam para falar com paredes e moscas, além de estudioso do nada e da essência das coisas. Manoel recria o mundo com palavras a fim de provocar algo novo, uma percepção alternativa do real; ‘’Não quero dar informações, quero dar encantamento’’. Consagrado como um dos maiores poetas brasileiros, Barros descreve pequenos detalhes em torno de si como se os olhasse pela primeira vez, com olhos curiosos e infantis.

“Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo’’ – Manoel de Barros 

No documentário de Pedro Cezar sobre a vida e obra do poeta, Só Dez Por Cento é Mentira, Manoel confessa resgatar nas memórias da sua infância as lembranças para criar toda a essência de sua poesia. Ele conta que o livro ‘’Poemas Rupestres’’ fala sobre um lugar bucólico e afastado de tudo, onde não tinha nada. Lugar este inspirado na região onde o próprio autor foi criado quando criança, onde não tinha televisão, rádio e nem mesmo vizinhos. Neste lugar vazio e sem assunto, as pessoas eram obrigadas a criar histórias e inventar coisas. ‘’A poesia nasce do não existir. Você tem que inventar’’.

Sei que meus desenhos verbais nada significamNadaMas se o nada desaparecer, a poesia acaba. Eu sei. Sobre o nada eu tenho profundidades.” – Manoel de Barros

Para o poeta não há fonte mais rica em poesia do que a infância. Considera tudo que escreve como resquícios de sua visão infantil, onde as frases são desconstruídas e palavras são inventadas, trocando e renovando sentidos. Deslumbrado com esse olhar de criança, Manoel conta em Só Dez Por Cento é Mentira que, instigado pela fala criativa da criança, colocava seu filho no colo e o fazia perguntas com um bloquinho em mãos. O contato diário entre pai e filho deu origem ao livro Poeminhas pescados numa fala de João, repleto de relatos sobre o mundo a partir do olhar e do entendimento ingênuo do seu filho. Fabricar brinquedo com palavras é seu lema e sair do lugar-comum com encantamento é sua aventura favorita:

‘’Carrego meus primórdios num andor.
Minha voz tem um vício de fontes.
Eu queria avançar para o começo.
Chegar ao criançamento das palavras.
Lá onde elas ainda urinam na perna.
Antes mesmo que sejam modeladas pelas mãos.
Quando a criança garatuja o verbo para falar o que não tem.
Pegar no estame do som.
Ser a voz de um lagarto escurecido.
Abrir um descortínio para o arcano’’

Trecho do Livro Sobre nada.

Mais que um inventor, Manoel de Barros é também uma grande inspiração para os diversos criativos cativados pela sua poesia. Paulo, que trabalha consertando eletrodomésticos, aparece no documentário contando que, após ler a obra de Manoel, se viu inspirado pelas suas expressões profundas e surreais. Decidiu, então, materializá-las criando aparelhos que completam o universo do autor, como o ‘’Prego que Farfalha’’, o ‘’Esticador de Horizontes’’ e o ‘’Aparelho de Ser Inútil’’. Este constante diálogo entre obra e leitor resulta em diversas interpretações e reações, sendo indiscutível a propriedade inspiradora da relação entre obras prontas e o processo criativo de outras, como o caso do próprio Manoel, que foi alimentado criativamente pela obra do Padre Antônio Vieira.

Manuel

Outro inspirador de criadores ambulantes é o uruguaio Eduardo Galeano, consagrado pelo polêmico livro Veias Abertas da América Latina que discute de maneira crítica e polêmica a história da América Latina desde o colonialismo ao século XX. Escritor e jornalista, Galeano foi alvo incontestável no período da ditadura e golpes na américa, o que resultou em exílios sucessivos. Sua agitada história de vida estimulada pelo seu ativismo moral contribuiu para o acúmulo de lembranças intensas e sua verbalização através de uma temática crítica e reflexiva. Em O Livro dos Abraços, o autor relata alguns acontecimentos políticos, sociais, místicos, cotidianos e pessoais que, aparentemente, assistiu com os próprios olhos e foi capaz de descrevê-los graças à memória, apropriando a elas o tom lúdico e fabuloso.

“Como trágica ladainha, a memória boba se repete. A memória viva, porém, nasce a cada dia, porque ela vem do que foi e é contra o que foi. ’’ – Eduardo Galeano 

Para Galeano, não basta recordar os acontecimentos, é preciso que eles cortem; que fira, inspire e estimule algo diferente dentro de cada um. Algumas histórias presentes no livro apresentam inicialmente uma temática triste – sobre mortes, pobreza e depressão – , contudo, num súbito momento, a leitura parece seguir para uma reviravolta destes sentimentos através de sensações mais suaves, como encantamento, amor e fé. Sua reflexão não somente aponta para uma perspectiva positiva, de quem tem prazer em viver buscando a constante reversão do que não está bom, como metaforiza perfeitamente o desenvolvimento do processo criativo, sempre denso, intenso e trabalhoso, mas, ainda assim, produtivo e válido. Desse modo, a obra de Galeano sugere que é preciso entender os dois lados da história: bater e abraçar, lembrar e esquecer, sentir raiva e amor, para, enfim, ser capaz de modificar comportamentos, concepções e costumes. Em entrevista ao programa Sangue Latino, do Canal Brasil, Galeano afirma que ‘’são as histórias que a gente conta, escuta, recria e multiplica que permitem transformar o passado em presente e que também permitem transformar o distante em próximo, possível e visível’’.

Aproxima-se de Manoel de Barros quando certa vez declarou, também durante a entrevista, apreciar o dom poético e ingênuo das crianças. Aproveita o assunto para fazer uma amarga crítica sobre a incorreta concepção de evolução de uma sociedade já habituada a uma realidade confusa, que converte e distorce a criativa e deslumbrada mente infantil durante seu amadurecimento. ‘’Quando criança somos todos pagãos, e, nessa idade, somos todos poetas. Depois o mundo se ocupa de apequenar nossa alma. Isso que chamamos de crescimento e desenvolvimento’’.

Dialogam ainda mais quando buscam a simplicidade narrativa para alcançar reflexões além do próprio tema. Ambos preocupam-se com pequenezas cujo valor invade espaços com pouca voz e muito o que ser dito. Manoel de Barros aproveita seus nadas de insignificâncias abrangentes para saltar sobre nós a importância de perceber no vazio de pedras, galhos, rios e passarinhos, profundezas da natureza que insistem em dialogar com nossos instintos. Do mesmo modo, Eduardo Galeano revive povos antigos já silenciados pelo tempo e acende na memória as pequenas mensagem de pessoas afundadas por injustiças e descasos que atravessam a história. Manoel e Eduardo falam sobre o mesmo pequeno enorme assunto, o mesmo fato escondido entre as beiradas dos nossos olhos, mas ainda assim tão evidentes e prestes a gritar intentos e virtudes.

Mas, em toda a obra de Galeano, talvez, mais importante do que a memória seja a desmemória dos fatos. Suas reflexões sobre os mais variados temas apontam para um assunto em comum: o acordar das lembranças. Galeano nos alerta para alguns acontecimentos históricos e sociais de suma importância para a sociedade que foram esquecidos, jogados para baixo do tapete da nossa reflexão. Assuntos como guerra, escravidão, colonialismo, exploração de povos, raças e classes sociais, e outros temas mais recentes com intensas críticas à qualidade da educação, saúde e voz popular, recheiam seu material literário como se fossem grandes exclamações na folha de papel. Seu apelo é para que não seja esquecido aquilo que de fato importa. Sua observação faz com que o leitor abra os olhos para o que não deve jamais ser esquecido, seja um importante acontecimento de sua vida ou aquilo que algum dia viu, leu e aprendeu; convida a prática da recordação, o registro dos fatos cotidianos, seus valores culturais, morais, inspiradores e filosóficos, para que seja descoberto, assim, a grande ideia escondida na desmemória da mente.

“Na minha escrita quero ser capaz de olhar o que não se olha, mas que merece ser olhado. As pequenas, as minúsculas coisas de gente anônima, da gente que os intelectuais costumam desprezar. […]’’ – Eduardo Galeano

Fronteiras Vivas

1.333km seriam desfilados do lado de fora do carro em direção às fronteiras vivas. Em linha reta o mundo parece organizado. A ordem das cenas por vezes se perde quando acumulamos fatos. Deslizar por aqueles pedaços de terra provocou um descolamento da alma, de onde quer que ela estivesse colada. Invadimos vias e veias com o único intuito de chegar. A sensação de perceber o corpo em movimentos fez um sorriso discreto na avidez de cada um. Éramos 13, plantados na curva da vida às cinco horas da manhã, dialogando com o breu daquele início de viagem. Acordadas as ruas sonolentas, costuramos a estrada com pernas livres.

O céu ascendia devagar; contornava a estrada com pequenos pedaços de plenitude. O tempo estava bom para decifrar nuvens e invadir montanhas com olhos de fotografia. E pelo sopro de poucas curvas, tínhamos a leve sensação de que aquela viagem guardava mensagens nas sombras. Oscilando entre os ventos enfileirados, percebemos entre nós o impulso de uma discreta euforia. O momento indicava o início da natureza absoluta; era mais Sul a cada quilômetro azulado. O tempo abria caminho até um silêncio que nos recebia com sede.

A primeira parada foi o Vale Lagaver, um lugar isolado e de brisa espontânea que brotava pelos ângulos dos olhos. Ficamos guardados entre paredes de pedras; até a cachoeira, bastavam 325 passos exatos de pés médios. Acampamos perto de uma casa de madeira com caminhos de musgos na entrada. Quando vista de longe, parecia um grande animal confortavelmente deitado sobre um cobertor, com um sono que deslizava a consciência até um estado sublime rodeado por pequenos segundos de paz. Por vezes, descobríamos vagalumes guardados nos bolsos como se fossem ouro bruto cintilando sua raridade prestes a voar.

No quintal da casa havia o bosque dos labirintos, onde era possível avistar um caminho em cada extremidade, todos idênticos. Os gatos que por ali passavam voltavam duplicados. Ao indagarmos sobre o fato aos moradores da região, disseram se tratar de um espelho que ficava bem no meio do labirinto, capaz de duplicar mistérios; e assim cada gato ganhava um novo ele que, ainda que vinculado ao original, vagava como sendo vivo. “Foi daí que surgiu a lenda das sete vidas dos gatos”, esclareceu um senhor. Os duplicados pareciam redescobrir o mundo pelas frestas, deslumbravam-se estáticos observando as folhas menearem pelo ar.

Talvez ninguém quisesse nunca mais sair de Lagaver, mas era preciso. No dia seguinte andamos mais 440km numa estrada vazia por mais umas oito horas. Saímos no horário do almoço, sonolentos por causa do peso do sol. A luz invadia o carro esquentando os incômodos e desvirtuando a nossa visão granulada. Clareava o percurso pintando de branco cercas e flores; ao longe, as casas pareciam manchadas de grandes doses de leite derramadas por jatos que vinham do céu. Comprometidos pelos olhos cansados e acabrunhados pela fome mastigando os desejos, paramos no posto logo em frente.

Por termos falado alto ou simplesmente porque éramos muitos, ali sentados como itinerantes e dispersos no mundo, foi atraído até nós um homem grande e bem gordo, carregando consigo uma grande garrafa de cachaça e um cigarro de palha bambeando na boca. Seu chapéu ocre parecia maltratado pelas estradas fronteiriças. Os olhos amarelados e seu perfume de tabaco lhe davam um aspecto de homem sem lugar, gasto pela melancolia dos faróis mudos. Chegou até nós projetando uma tosse enfestada de pigarro que silenciou nossa conversa. “Vão pra fronteira do Sul?”, invadiu, “Fica mais rápido cruzar pelo atalho. Economiza gastos e ainda pega a costa até as terras invadidas pela grama selvagem. Vocês já ouviram falar de Mosfrágum? É lá. Coberta pelo incômodo discreto da natureza. É triste de olhar, mas bonito quando realmente se vê, um lugar imperdível. Eu sou caminhoneiro, passo sempre por lá e vejo cada coisa que me arrepia as angustias; essas estradas são um calabouço aberto”.

Estremecidos pela curiosidade que a alma diagnosticava, decidimos ir pelas ruínas de grama da tal cidade cujo nome nos sumia da lembrança a todo tempo. Mosfrácio, Mostrátum, Mosfrá..gum! Em linha reta, a cor do dia descamava no horizonte. Sentíamos o cheiro da maresia cada vez mais próximo, e era curioso perceber que perdíamos a companhia de outros carros. Éramos nós com menos destinos, o mar projetando sua imensidão monocromática e vazia em nossa consciência. Era uma paz costurada; ouvíamos nela uma serenidade que a estremecia, pois, sendo só, tinha uma plenitude solitária.

Placas quase ilegíveis diziam a curva e última entrada. Despejados numa estrada de cantos curtos, nossa estrada agora parecia infinita graças ao silêncio que todas aquelas plantas empurravam sobre nós. Dois horizontes de grama, um de cada lado, encaravam nossos carros como se fôssemos intrusos numa terra vazia. Não se via um único ser vivo, de modo que saltávamos para desviar de um buraco ou outro que aquele asfalto velho acumulara no tempo de poucas visitas. Mas uma virada brusca no volante nos garantiu que o desvio dessa vez não era por conta dos buracos, mas sim de um gambá, mesclando sua forma com a das crateras escuras do percurso. Foi quando vimos surgir cada vez mais animais pelo andar da estrada: vacas, bois, ovelhas, bodes, capivaras, patos. Uma terra de animais, supusemos, decorada com tantas criaturas que quase parávamos de tão lentos, distraídos com a profunda beleza da paz monótona dos bichos. Ali pausamos no tempo fracionado. Sentíamos como se o mundo tivesse ido embora de nós – a liberdade nos assaltara.

“Olha só aquela casa!”, avistamos ao longe, perdida entre o mar de verde, um casebre que parecia possuir apenas um quarto de tão pequeno. Tinha cor de terra seca e murchava uma existência envelhecida, engolido quase que completamente pela grama. As janelas perdiam a forma para as plantas, parecendo ele todo uma ruína mumificada. Vivas mesmo talvez fossem apenas as árvores, cujos tamanhos eram ridiculamente desproporcionais, também quase completamente engolidas pelo mato. Era a confirmação de que havíamos chegado em Mosfrágum, um lugar que desconhecia os motivos das iras naturais, e que, engolido por elas, permaneceu estático; os animais camuflados pelos troncos, alguns opacos e dispersos como pedras – trocados de lugar pela vaidade gramínea.

Mosfrágum passou cortando todos os olhos, que mesmo vidrados pela catástofe curiosa, sua presença arfava sombria. A vista nos fez chegar ao fim daquela cidade com a alma gasta, exaustos. Era ali a cidade mais próxima da fronteira. Chamava-se Julão, apenas, uma cidade enferrujada. As casas pareciam perdidas no tempo, assim como o chão que acumulava histórias de faroestes, o que justificava o fato de todas as ruas formarem diagonais compridas, cheias de desvios entre ruelas e cachorros abandonados no meio das ventanias de areia que ora ou outra surgiam.

O lugar espantava a tranquilidade e nossa noite acumulou pesadelos em todas as cabeças. Curioso mesmo foi juntar as histórias e perceber que, misteriosamente, encaixadas faziam uma saga única de um tal rapaz que, montado num cavalo negro, apresentava-se como Craustin, cavalgando pelas ruas de Julão até o fim da cidade, onde lançava três disparos para o céu com a sombra das árvores malhando o rosto sisudo. Os homens da cidade explicaram ser ele o protetor da região que por muitos anos se apresentava em sonho aos viajantes atraídos pelas fronteiras mais vivas do Sul. Alguns deixavam presentes na praça; chapéus, esporas, charutos e botas pareciam brotar do solo com as raízes ainda firmes na terra. Escutamos vazios de respostas, os pulmões arrepiaram quando sentimos a ventania de areia mais uma vez espirrar em nossos olhos.

Mais 423km e chegaríamos na fronteira. Seguimos logo pela manhã com a ansiedade já salivando o momento. E recebidos pelo túnel de eucaliptos, cruzamos uma cidade confusa de nome, língua e povo. As casas trocavam as telhas e costumes; plantas decoravam uma vegetação já exclamando aspas estrangeiras; as enormes plantações que desenhavam as beiradas da estrada comprovavam presença e cuidado humano. Grandes piscinas naturais surgiam ao longe emolduradas por oratórios de pinheiros. Faziam ali o desfecho triunfal daquela terra em despedida.

Já avistávamos uma dobra singela na paisagem separando verdes de outros verdes. Agitava o peito, e perto demais do crível nos infiltramos nas fronteiras vivas, ali respirando pelas bocas do vento, deitadas ao lado do sono manso das vias, rasgadas pelas rodas, decoradas pela audácia grudada em nossos peitos. A mudez do sorriso de cada um sublimou a descoberta fronteiriça ali viva, afastada e firme em sua imensidão que tocava as beiradas de cada terra em silêncio, pulsando aquilo que ferve quando o momento encontra, embasbacado, a descoberta.


Foto: Luiza Rezende.

 

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