Uma experiência

Esse sentimento convida a olhar para uma data específica: dia 12 de dezembro de 2015, um sábado. O dia em que o último encontro de 2015 do zine na BPN aconteceu. Dia em que fomos levados a pensar sobre experimentação, sobre estar diante de investigações intuitivas, de perceber nossas próprias respostas, sentir novas ideias se formarem tipo ligações elétricas fervilhantes como cócegas desestabilizando a “calma” que aprendemos a ter no dia a dia.

O tema Experimentação, assim como todos os outros assuntos que abordamos em todos esses seis meses, foi uma provocação para expandir e povoar esse espaço onde a criatividade habita. Existem brechas baldias em nosso cotidiano que podem ser ocupadas por comportamentos experimentais, ou melhor, comportamentos de por a mão na massa em busca de gerar possibilidades que podem solucionar problemas que nem se quer foram percebidos ainda. Foi como ouvir o Charles Watson dizer: “etapas incipientes de estruturas úteis” que são capazes de abrir caminhos para grandes soluções. Experimentação como tema de fechamento foi abrir realmente esse grupo como um lugar de convite a experimentar e perceber os processos que nos levam a criar.

Juntos, nesse dia, chegamos a ideia de que experimentar é criar com o corpo, é permitir que outras formas de pensar e “ver” possam atuar em nossos processos de criação, e que a consciência dos sentidos pode ser algo muito rico e que também permite maior facilidade de conexões inusitadas. Quando questionamos a natureza das coisas, os empréstimos tornam-se possíveis e constroem novos ou outros significados para nossos padrões. A busca por consciência permite questões de fronteira e transbordamentos como: quais são os limites das matérias possíveis para se conceber uma escultura? Se por acaso conseguir pensar em algo não material, tenha certeza que está trilhando caminhos novos, ainda poucos experimentados que têm uma grande capacidade de transbordamento. A proposta de agora é olhar para as coisas não com olhos fixos, mas sim dissolvendo certas “fixitudes” em busca de discernimento e fluidez. Esse é o grande aprendizado que estamos conquistando aos poucos.

Diferente dos outros dias de imersão, esse último encontro teve certas particularidades notáveis, como o processo que a Catarina Bijalba passou ao levar seus bolos e cafés para nós. Os bolos, que eram inéditos em seu repertório, foram motivações geradas pelo tema. E melhor do que qualquer um, Catarina podia falar sobre um processo novo de algo que não “dominava” e que acabou se tornando a porta de entrada de uma grande ideia e muitas possibilidades, ideias que levam a outras e outras. Esse foi o fio que conduzia o dia, uma linha de oportunidades.

Em um ponto no meio dessa linha encontramos com o Tito Senna, um dos caras mais inquietos que conhecemos. Tito, que tem sua formação em Design e os pés muito bem colocados nos espaços da arte, falou sobre como os seus 15 anos de amadurecimento como artista se misturaram com o seu comportamento que faz da sua trajetória algo incrível. O processo do grafite, que abre a discussão sobre matéria, plano, formas e tinta, mistura-se com ideias sobre química, física, teologia e até mesmo desafios a pensamentos de reconfiguração dos espaços. Tito, que iniciou o nosso dia colocando fitas vermelhas na parede, abriu o diálogo silencioso e muito provocativo. Cada um que entrava na sala Multimídia da BPN percebia uma nova atmosfera que aquelas fitas espreguiçavam, e a medida que a história era sendo contata e cada conexão, cada escolha que ele teve para construir o que contraiu se justificava aos poucos. Cada um de nós estávamos sendo tragados pela experimentação, tragados pela força de um trabalho que ganhava significado singular e individual. Pode-se ali perceber como uma obra acontece e como a permissão que o Tito conquistou em correr certos riscos fez do seu trabalho algo além da física, química e teologia. Tem a capacidade de ultrapassar espaços físicos, de demarcar espacialidade em uma matemática gestual de formas simples e de ideias possíveis. Assistir suas fitas e ignorar as condições físicas de impedimentos reais foi experimentar um certo tipo de realidade que se abre para um mundo que desconhecemos as premissas do real e dá lugar ao fantástico, de pequinesas, de infinitudes onde somos livres para transitar se quisermos um mundo que está logo ao lado mas que observamos com timidez e pudor.

De certa forma, Tito concluiu o grupo de estudos abrindo espaço para discutirmos sobre esses lugares, brechas baldias, como disse antes, que estamos ocupando e investigando suas fronteiras. O campo imantado que existe nesse espaço, nessa geografia, é fruto do fazer, fruto do nosso apego/afeto por causas comuns aos que desejam falar de criatividade. Assim, o projeto de imersão sobre processo criativo na PBN foi uma grande experimentação do Sopa em um novo ambiente de atuação, que de certa forma explorou com mais potência o que acreditamos. Por esse motivo, estamos hoje desenhando novas formas de existência nesse espaço, onde possamos tanto oferecer o que já adquirimos quanto multiplicar todas essas intenções.

Obrigado e esperamos te encontrar nas próximas imersões.

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Restrição como possibilidade

Como abordar o tema restrição sem ser muito abrangente? Essa questão propõe elaborar algumas fronteiras para nortear esse post e manter o foco. Em primeiro lugar, o que desenvolvemos é pinçado sob a ótica da criatividade com base nas pesquisas que fazemos nos últimos anos e também assumindo alguns pontos que geramos juntos nos encontros do grupo de estudos ZineDisfunção na BPN. Esse primeiro recorte ajuda a visualizar a fronteira e ao mesmo tempo propõe um primeiro entendimento da ideia de restrição, como uma delimitação de espaço para que possamos compreender o todo. Estabelecendo esse acordo, que um processo independe do seu complemento criativo, artístico, acadêmico e por aí vai, possui uma aparência similar a de uma cebola, onde camadas e camadas de ideias e/ou possibilidades (fronteiras entre espaços) agrupam-se orbitando em um centro comum que chamamos de “o cerne da questão”, e todas as camadas se relacionam, de certo modo, com a ideia central configurando assim um único corpo no espaço.

A ideia da cebola, “fronteiras”, define-se da seguinte maneira, como diz o priberam: “Zona de território imediata à raia que separa duas nações”, essa afirmação favorece o discurso de limite, mas não um limite de entendimento, mas de espaço/corpo que pode ser “infinito” em possibilidades. E assim surge a questão: do que se compõe um espaço? Creio que por esse caminho perderemos o foco da definição de restrição, mas podemos pensar que restringir é um recorte espacial, um parâmetro que usamos para compreender um todo e seus elementos. É compreender que essa palavra carrega pré-conceitos que dificultam seu entendimento – afinal restringir não pode ser algo bom, já que nos impede de ir. Abordar esse tema, enquanto processo criativo, é lidar com a famosa caixa que devemos pensar fora. Afinal, como podemos resolver um problema pensando fora dele? Foram esses os pontos que discutimos no último encontro do grupo de estudos, dia 03 de outubro, e que esse post tenta resgatar as fagulhas de um dia restritamente plural.

A discussão começou com uma tentativa de definir a palavra restrição e perceber onde ela se apresenta de uma maneira pontual. De forma espontânea, começamos com recortes muito abrangentes, como o planeta que é uma restrição do espaço, e em seguida a sociedade que é uma restrição de comportamento, mas a medida que os exemplos foram se acabando fomos forçados a nos aproximar do centro da questão, e nessa hora todos já concebiam a ideia de uma “cebola de territórios”. Cada um com suas fronteiras espaciais, até que o corpo passa a ser uma restrição para nós e com os limites físicos do nosso corpo fomos capazes de pensar soluções que transformam nosso mundo de forma radical. Por exemplo, se não fosse nossa incapacidade de locomoção rápida nunca precisaríamos domesticar animais como os cavalos, logo os carros não existiriam dessa maneira, e assim podemos pensar que as cidades assumiriam outra configuração, ou até mesmo os guindastes que substituem nossos braços de forma limitada em possibilidade, mas exponencial em força, trariam outras formas para nossas construções. Estamos sempre em busca de superar ou lidar com as restrições que se impõem em nosso caminho construindo pontes que fazem trafegar entre diversas camadas dessa cebola.

Todas essas questões trazem uma integração ao indagarmos que restrições são fatores limitadores. Sim, de fato são, mas acima de tudo são fatores delimitadores e só assim somos capazes de compreender e decidir como agir ou reagir a um estímulo. E como não poderia faltar, o tempo é sim um fator limitador que se impõe sobre as condições do trabalho, porém devemos nos atentar ao que o enunciado está dizendo. Ao lidar com uma demanda, todos os fatores podem ser, ao mesmo tempo, limitadores ou estimulantes para uma nova maneira de abordar a questão. E assim dizendo, uma ótima ferramenta para delimitar uma trajetória, que utilizada de forma consciente, abre mais espaço para possibilidades do que impede o desenvolvimento. Ou seja, a forma como lidamos com a ideia de restrição é o diferencial.

O dia na Biblioteca Pública de Niterói se desenvolveu com essas provocações e a incrível participação do designer Walter Mattos, que por mais de 40 minutos falou sobre seu processo de trabalho e em como trabalhar com um nível muito alto de restrições possibilita a concepção de um trabalho justificado e muito eficiente a nível plástico e conceitual. Walter é um dos designers mais influentes no Rio de Janeiro e hoje, com seu portal waltermattos.com, ele apresenta vídeos sobre o uso de ferramentas e análises gráficas com base no uso de grids e estruturas hierárquicas baseadas em geometria e matemática. Ouvir sua palestra foi voltar a um racionalismo Phi das coisas, ao mesmo tempo que nos abriu a cabeça para maneiras de trabalhar e justificar nossas escolhas de forma consciente. Não adianta só fazer, tem que saber o porque está fazendo. Foi com frases desse estilo que ele nos provocou a perceber que o mundo, de fato, está codificado em nossa frente e, como a cebola, tem camadas. O nosso cotidiano é feito de cascas de conhecimento e relacionamentos que podem ser um grande provedor de estímulos criativos, se formos atentos a ele.

Foi assim que o 4º dia de estudos se fechou, com todos trafegando em um universo de possibilidades ao se deparar com uma restrição abrupta, isso foi notável já nos papos pós palestra. Pensar restrições abre e não fecha. Essa é a moral obvia do post, mas só é possível chegar nesse entendimento consciente depois de definir a ideia. Ficamos muito satisfeitos com a ressonância que esses encontros estão proporcionado. O próximo será no dia 14 de novembro e quem chega como palestrante é o biólogo Rafael Franco.

 

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Fotos: Diego Mere, Laura Yunes e Luiza Rezende.

Um dia de caos

Uma rede. É dessa forma que acredito que as ideias e palpites povoam nossa consciência, construindo e transitando entre redes. Difícil saber se esse é realmente um comportamento dos dias de hoje ou se já somos assim desde o início. Recordo quando criança, sem muito o que me preocupar a não ser inventar brincadeiras, que as ideias eram quase uma linha, fato após fato. Claro que sempre me levavam a lugares desconhecidos, lugares de descobertas, mas tudo fazia parte da diversão. Olhar hoje para aquela época faz parecer óbvio não saber o fim da história.

Ter hoje consciência do objetivo, faz transitar pelos palpites, chamo de palpites os fragmentos incipientes das ideias de forma não linear e ansiosa. Não saber mais onde estão os espaços que o acaso pode agir faz tudo ficar mais confuso; a sensação de caos aponta para um fim não de projeto, mas de energia de agir. A sensação do nada é mais forte do que o movimento, esvazia onde deveria encher, e assim constrói, consequentemente, paradigmas que impedem nossos movimentos.

Movimentar-se enquanto criativo é transitar nas maiores distâncias entre dois corpos, é empregar energia em descobertas e estar conectado com o que se faz isento de grandes objetivos, mas construindo gradativamente percepções e diálogos com o fazer seguinte. Essas ideias foram construídas no grupo de estudos do dia 12 de setembro. Nesta imersão, buscávamos discutir sobre o Caos e o Acaso, perceber seus movimentos e ganhos ao ouvir relatos sobre a ação do caos no cotidiano.

O caos é imanente ao nosso pensar

Diferente do que fizemos nos últimos 2 encontros, esse teve uma particularidade: as cadeiras que sobravam (uma ou duas, mas sobravam) cederam espaço para os sofás e poltronas; haviam menos lugares, mas tudo foi proposital. Construimos também uma divisão muito clara entre o lugar de ouvir e o lugar de falar, e, assim como criança investindo nas brincadeiras, começamos a nossa troca de ideias. A  medida que falávamos, mais pessoas iam chegando e os lugares acabando; até que o inevitável aconteceu. Abrimos espaço para o acaso agir: os atrasados que chegavam se deparavam com uma sala confortavelmente cheia, e cada novo corpo no espaço agia com certo desconforto sobre os outros que não sabiam o que fazer, já que no fundo estavam uma pilha de cadeira. Por algumas vezes o problema de espaço foi solucionado pelo chão, que aos poucos se tornou assento e roda. O clima ficava cada vez mais informal, até que o chão não comportava mais e no desconforto do outro, sem saber onde se acolher, e também por perceber que ali existia algo de valor que todos deveriam ouvir, o caos aconteceu e a troca de ideias foi interrompida por um dos ouvintes: “licença, mas precisamos colocar aquelas cadeira aqui! Acho que vai ficar mais confortável para eles”.

Nesse momento todos se moveram. Um grande estímulo gerou reações inesperadas e, mesmo sendo uma reação comum, do estilo típico do dia a dia, todos perceberam que aquilo estava conversando com eles de alguma maneira, que o tema do dia fazia mais sentido do que antes. E nessa hora o comentário sobre estar com um olhar atento foi inevitável. Perceber as minúcias das coisas que nos cercam faz do jargão “o acaso só favorece as mentes preparadas” pertinente.

Logo em seguida, com todos já em seus lugares e com as antenas ligadas, o segundo ato foi uma inversão de papeis. O lugar que antes era de quem aprensentava ficou vazio deixando espaço para quem quisesse falar sobre qualquer assunto, afinal o tema era acaso, caos e também sobre etapas incipientes de estruturas úteis. No início, a timidez foi mais forte e a troca de olhares em tal vazio intensa. Era fácil perceber que mesmo o nada pode ser muito rico em expectativa e em propostas, pois, nesse tempo que precede o ato, as ideias fervilham com grande intensidade. O silencio não se manteve assim por muito tempo, tivemos uma das trocas mais inesperadas que poderíamos desejar. Foram tantas coisas que mal posso replicar, mas que tenho certeza que estou ganhando corpo em meus pensamentos.

Um bom tempo para não parar

Como de costume, o café do Blueberry estava presente e fez a diferença. Dessa vez o café que costuma agitar a galera conseguiu centrar e aliviar a pressão. Quem veio participar do encontro foi a Cat (Catarina Bijalba), que junto com a feitura de  café, mergulha no mestrado em biologia. Nada mais pertinente ter entre nós uma dessas pessoas que, de fato, representa a pluralidade de todos. Porém, naquele momento foi quase icônico ouvir as particularidade de um café que despertava o assuntos. Cat conseguiu a atenção de todos ao falar das particularidades da plantação, e sobre como foi importante a curiosidade de um pastor ao perceber que suas ovelhas, após comerem certo tipos de frutas, ficavam enérgicas e saltitantes. Nada mais pertinente para uma história de acaso que perceber no café o fruto desse acaso. E, como era previsto, esta foi a hora em que o papo e as trocas fluíram intensamente.

Seguindo o evento, a terceira parte foi um convite ao sonho quântico com o neurologista Messias Reis, que falou quase abstratamente sobre a relação de evoluir e a que ponto que conseguimos sonhar, e que nesse sonho consciente estão algumas das leis da física quântica capazes de nos levar a um segundo momento da evolução. Quando disse “em um sonho somos nós e somos o outro, somos as cadeiras, nuvens, tudo ao mesmo tempo”, fez pensar que somos nós mesmos e somos o caos que controlamos e não controlamos nessa realidade. Elevou a percepção de que mesmo em nós existem partes naturais do acaso e que, se tivermos consciência disso, seremos mais eficientes em controlar ansiedades e nos manter como potências de agir.

A próxima imersão será no dia 03 de outubro e, dessa vez, os super poderes do designer Walter Mattos e seus grides vão compor um dia que falaremos sobre restrições.

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Obras e códigos

Um pouco depois do evento, conversei com o Christiano e com a Laura sobre os pedidos para que divulgasse a bibliografia da palestra que apresentei no segundo encontro do grupo de estudos sobre processo criativo na Biblioteca Pública de Niterói, dia 8/8. Como foram de fato muitos autores, alguns com a intenção de destacar seus comentários teóricos e outros pelos seus trabalhos literários, decidimos compartilhar a lista de autores e obras através deste post.

Fiz uma divisão deste modo: primeiro os autores cujas teorias foram discutidas, depois outro grupo com aqueles que desenvolveram obras voltadas para suas experiências durante o processo criativo, e, por fim, um terceiro grupo com autores que nos serviram de exemplos literários.

Separei em três tópicos essa bibliografia, considerando que apresentei apenas os nomes dos autores do grupo de literatura para que façam seus próprios percursos dentro da obra de cada um.

 

Autores (teoria):

Tzvetan Todorov – Introdução à Literatura Fantástica;

Jean-Paul Sartre – Situações I – Críticas Literárias;

Fayga Ostrower – Criatividade e Processo de Criação;

Vilém Flusser – O Mundo Codificado;

Mikhail Bakhtin – Estética da Criação Verbal;

Roland Barthes – O Rumor da Língua (discutimos o texto “A Morte do Autor”);

Paul Valéry – Variedades (discutimos o ensaio “Poesia e Pensamento Abstrato”).

 

Autores e o processo criativo:

Rainer Maria Rilke – Cartas a um jovem poeta;

Virginia Woolf – Um teto todo seu;

James Joyce – Retrato do artista quando jovem;

Henry Miller – A sabedoria do coração (discutimos o texto “Reflexões sobre a arte de escrever”).

 

Autores (literatura):

E. T. A. Hoffmann;

Nikolai Gogol;

Edgar Allan Poe;

Henry James;

Fiódor Dostoiévski;

Gabriel García Marquez;

Mia Couto;

Jorge Luis Borges;

Julio Cortázar;

Machado de Assis;

Murilo Rubião;

Carlos Trigueiro;

Guimarães Rosa;

José Cândido de Carvalho;

Manoel de Barros.

 

Então, lembrando que refletimos os caminhos da literatura fantástica, o que evidenciei com os autores, romances, contos e novelas mencionados. Mas chegamos também em assuntos que apontam para teorias literárias, além dos processos criativos de autores que pouco se limitam ao gênero fantástico.

Que estas leituras abram seus olhares para novas percepções dos códigos.

SOPA + Biblioteca Pública de Niterói

Foi na forma de convite que tivemos a oportunidade de imergir no assunto. Nos longos papos na Semana do Livro Infantil da Biblioteca Pública de Niterói, onde fizemos o lançamento do livro Me dá um abraço? – primeiro lançamento de um livro digital dentro de uma biblioteca – que as ideias começaram a criar forma. E desse modo, entre as paredes da BPN, conversando com os “mandachuvas”, que nossos sensores para papo aguçaram, e saímos dali com a oferta de ministrar uma palestra sobre a palavra digital e o futuro do livro; me arrisco até a dizer, futuro das bibliotecas diante desse momento digital do livro.

Planejamos tudo com duas a três semanas de antecedência, como seria o nosso dia 22 de maio a partir das 16h. Reunindo nossas melhores referências, desenvolvemos as telas e ensaiamos uma palestra. Ensaiamos, ensaiamos e ensaiamos, até que todos aqui no Sopa estivessem repetindo as mesmas frases: “o livro impresso e o digital não competem, seria como comparar um carro com uma moto”; ou “precisamos entender o processo que o livro está sofrendo para propor soluções mais interessantes”. E, assim, fomos desenvolvendo os trilhos para nossa palestra.

O que mais nos desafiava era fazer o pensamento de abstração proposto pela palavra “digital” ser captado por todos. Para isso, contamos com as reflexões do livro Objeto Ansioso de Harold Rosenberg e seus ensaios sobre o Expressionismo Abstrato para fazer uma conexão entre retratar a realidade e as interferências que o digital propõe, conectando ideias com perguntas e observações mais instigantes do que tudo que poderíamos tentar dizer naquele momento. Ainda nas refreadas para trocas de ideias e pensamentos, que as percepções de Vilém Flusser nunca fizeram tanto sentido: todas aquelas superfícies que reconhecemos no ambiente eram de papéis sendo arranhados por lápis nervosos de ouvintes atentos, ávidos por salvar ideias e criarem suas opiniões para formar partidos sobre o futuro do livro e seus espaços.

Foi uma experiência e tanto poder trocar essas questões e ouvir outras sobre como as pessoas estão se relacionando com o livro e o seu futuro. Nós, do Sopa, gostamos muito de instigar esse tipo de diálogo – e eu mais ainda de falar sobre arte e processo criativo.

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Estamos muito animados com as futuras possibilidades que serão construídas nesta parceria SOPA + BPN.

Semana do Livro Infantil

- Agora eu vou ler o livro pra vocês enquanto ele vai passando naquela tela, ok?

Apresentavam-se diante de nós, na quarta-feira do dia 15 de abril, cerca de 200 crianças de dois colégios distintos, animadas com a curiosa leitura que fariam naquele lugar enorme, cheio de salas, estantes e pessoas de caras enfiadas em livros; os silêncios pedidos para serem guardados sempre nos bolsos, para que não atrapalhassem a concentração daquelas paredes compenetradas. A Biblioteca Parque de Niterói recebia a leitura do livro “Me dá um abraço?” da autora Clara Gavilan, leitura essa registrável como a primeira de um livro digital numa biblioteca pública. E talvez tenha sido esse o motivo para tanta curiosidade que vagava pelas bocas e ouvidos daqueles meninos e meninas já entendidos de seus próprios sonhos.

Preferiam sentar no chão, porque cadeiras atrapalham a sensibilidade – coisa que só criança pode concordar. Amontoados diante da autora, alguns olhares arregalavam-se ao ver diante deles uma autora a passar as páginas do livro pela tela do iPad, ao mesmo tempo em que a história se reproduzia na grande projeção com seus personagens numa floresta em movimento, com vento que desfolha árvores e desenrola brisa pelo cenário. Acontecia diante de nós uma pergunta nova, uma dúvida entre o que já existe e o que poderia cada vez mais existir: é também um livro a folha digital que pede o toque, a descoberta pelas páginas e a leitura interativa? Sentíamos o impulso do sim no silêncio do virar de cada página, nos diálogos enfeitando cada personagem de repente compreendido.

Ao final da história, aplausos de mãos pequenas; algumas pareciam querer a releitura, outras esperavam o que vinha adiante, naquele misterioso papel enfeitando a mesa da autora:

Já que o livro é digital, quero presentear vocês com um cartaz e uma ilustração do personagem que vocês mais gostaram. Quem quer!? Formem uma fila aqui na minha frente!

Um estalo e a fila já estava feita; e mais uma vez só crianças podem compreender o valor que existe em sentir-se eufórico com um papel enfeitado por dedicatória e desenhos, coisa boba essa animação que durante a vida deixamos que a água leve a cada banho. Mas não somente se entusiasmavam, como detinham nas mãos questionamentos justificáveis para a autora e para o Sopa: “Posso comprar o livro do meu celular?”; “Como faço para publicar um livro?”; “Você fez os desenhos com lápis ou foi no computador mesmo?”; “Um dia eu ainda vou escrever um livro!”, “Eu também!”.

De traços ligeiros, a autora entregava cada cartaz para uma nova criança ansiosa. O primeiro olhar sobre o presente dizia o carinho e a importância do que entendiam por leitura já tão cedo.

E para fechar o presente com a melhor cereja no bolo, Clara convidava cada criança a um agrado singelo de mesmo nome do livro: “Me dá um abraço?”.

Foram olhos deslumbrados e sorrisos largos, divididos entre cada um daqueles que pareciam infinitos abraços.

A mesma leitura aconteceu também sexta-feira, no Telecentro da Oficina do Parque de Niterói, para crianças do espaço e demais escolas e creches da comunidade do Maceió. De pés descalços e acomodadas num tapete emborrachado, os olhos dos pequenos eram sempre focados na televisão a passar a história acompanhada pela voz da Clara. Sentimos que o envolvimento da leitura foi além da intimidade que o ambiente conduzia, quando mais uma vez a fila para o cartaz logo se fez entre passos saltitantes; e não somente sobre cartazes que a fila crescia, mas também para pedir uma foto com a autora; um papo sobre outro livro que leu; uma história dividida; um abraço a mais. E depois foi um corre-corre, gargalhadas e brincadeiras para validar a euforia que dizia aquela tarde inserida na memória de cada uma deles, a vagar entre as lembranças infantis que gostamos tanto de, ora ou outra, saudar com um abraço.


Fotos na Biblioteca Pública de Niterói

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Fotos no Telecentro da Oficina do Parque de Niterói

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Fotos: Diego Mere e Luiza Rezende

Entre triângulos e planos

Traduzir as ideias para um texto, que logo de cara tem o compromisso com esse pensamento do Hans Hoffmann, que tanto admiro, nos coloca na obrigação de escolhermos as palavras com tanto cuidado que só é possível com as pontas dos dedos em pequenos gestos circulares em busca da textura certa.

Foi assim que desenvolvi minha resposta ao aceitar o convite do Lui Azevedo para participar do segundo dia do projeto Triângulo. O desafio era montar uma palestra e compor um debate sobre o tema interface, e junto com Marlus Araujo e Pedro Segreto formávamos o triângulo da noite. O objetivo maior era apresentar discussões sobre o passado, o presente e, principalmente, o futuro das interfaces, uma oportunidade perfeita para compartilhar alguns insights que venho amadurecendo aos poucos. Gosto de pensar na relação entre o movimento abstrato das artes plásticas, em particular o Expressionismo abstrato, e as novas interfaces com a pluralização de gadgets e novos formatos, como o livro digital.

Ao olhar para esses acontecimentos, pude notar que o mesmo movimento que deu origem as abstrações, mesmo que de forma simplificada, se repetem nos dias de hoje nas interfaces dos usuários e nos canvas dos projetistas. Tentarei situar esse papo no descompromisso conquistado de representar a realidade. Para exemplificar de forma grosseira: seria algo como quando a fotografia assumiu a responsabilidade de representar o real pelo seu efeito instantâneo de captura de um frame, que, consequentemente, proporcionou aos pincéis a “liberdade subjetiva” que existe por detrás das ideias. Um grande exemplo desse movimento são os touros do Picasso, uma série de desenhos feitos ao longo de seus anos. Picasso se auto retratava como sendo um minotauro e essas garatujas ganham forma simplificada no início e vão se complexificando a medida que o próprio consegue se perceber, o que traduz nessa assinatura as minúcias da sua percepção. Na medida que o tempo cumpre o seu papel, a sabedoria somada a experiência faz com que gradativamente o desenho se liberte da realidade e encontre a simplicidade, e a cada nova tentativa só o necessário floresce entre as linhas. Quando juntos, todos esses desenhos, fica claro que o último é infinitamente mais simples que o primeiro, porém infinitamente mais rico.

Não existe arte abstrata. Sempre se deve começar com algo para depois remover todos os traços da realidade. E assim, a ideia do objeto terá deixado uma marca indestrutível – Pablo Picasso

Na sequência das garatujas, o que mais chama a atenção é a forma como o último desenho não está mais impregnado com a realidade. Ele simplesmente abstrai o resto pictórico que existia do touro, porém a essência ainda está lá, formando a assinatura do próprio Picasso e se configurando como sujeito sem forma, que mesmo assim ainda é o touro.

Sendo interface o lugar onde essa conversa deve se manter, volto a olhar para as pinturas do Action Painting. E dessa vez, com um olhar mais amplo sobre a pintura abstrata. Todos sabemos e percebemos que mesmo não havendo uma forma definida, cada gesto escolhido pelo pintor nos leva a uma reação. Vamos de obras pálidas, com pouca intonação e que requerem mais tempo de observação para se ter uma reação, e também de obras mais fortes, que mal cabem em nossos olhos. Esta segunda nos leva a respostas instantâneas e muitas vezes intuitivas. Toda essa teoria, se transportada para as interfaces, se desenvolvem com a naturalidade de um cursor ou um scroll. Pego um exemplo aleatório, o ícone composto por uma nuvem e uma seta para cima ou para baixo, “enviar um arquivo” ou “receber um arquivo”o nível de pictoriedade desse desenho está quase abstraído, porém o entendimento é lógico e claro. Mas olhe novamente, nuvem somada a uma indicação de sentido/direção não representa muito, ou quase nada, no mundo físico.

Assim é a forma como costumo pensar ao me deparar com um novo projeto de interface, principalmente falando de livro digital – que de livro só possui a essência. Se cortarmos o desnecessário, abre-se aí muito espaço para o novo. Por aqui, costumo falar que não mais preciso de uma lixeira com cara de lixeira para que eu descubra onde devo “jogar” meu lixo.

Essa é a maior provocação que encontro escondida no cerne de um novo projeto e de uma nova ideia, é a partir dessa intuição que construímos as interações com os usuários, leitores ou qualquer maneira que queira descrevê-los. Mas saiba que, no final das contas, tudo está interligado e cada escolha, cada minúcia, sugere uma reação. O caminho das possibilidades está a cada dia mais plural, ou seja, um castelo infinito de oportunidades inusitadas, basta apenas ter coragem de escolher o caminho e conseguir se justificar nele.

Foi assim que conclui minha participação no Triângulo, tentando olhar para as mesmas coisas que vemos todos os dias com o desejo de encontrar novos caminhos para discutir sobre as fronteiras dos rótulos que impomos a nós mesmos.

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