Otto2
06/03/2015
por Luiza Rezende
Categorias: Curiosidades, Sopa
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Um papo com Otto

Um papo com Otto

Faz um tempo que tivemos um papo com o Otto para uma entrevista que entraria na última edição da revista Alazã, que acabou não sendo publicada. Mas o tempo passou e o assunto continua valioso - e com muitas ideias para pensar.

 

Falar sobre a revista a Alazã é voltar no tempo e na história que o Sopa vem construindo, ainda mais quando os papos que tecemos por aqui ficam mais intrigantes quando “envelhecidos” pelo tempo (ainda que curto!). A revista Alazã foi um dos primeiros projetos do Sopa e, assim como toda primeira manobra, teve a vida curta, mas deixou alguns ensinamentos que nos possibilitam resgatar bons insights.


 Otto fala sobre o clipe “O Que Dirá o Mundo”, onde representa um cavalo e a sua relação com a música.

Sopa: No clipe da sua música “O Que Dirá o Mundo”, você aparece nu, preso em um estábulo, de joelhos e se contorce ao receber uma rajada de água. Qual o significado dessa representação?

Otto: O cavalo representa o homem e o homem, o cavalo. A questão do paralelo é denunciar a forma como tratamos animais e pessoas; porque não deve existir diferenças neste tratamento. A falta de respeito com o animal reflete diretamente na falta de respeito com nós mesmos. Devemos refletir sobre a vida, sobre a importância de respeitar todos os seres vivos. Existe alma em todo ser; existem sentimentos.

Sopa: Você fala nas suas músicas sobre diversos temas atuais, sempre com o objetivo de informar, transmitir alguma mensagem que possa resultar numa atitude positiva. De onde veio essa vontade de propor uma reflexão acerca dos assuntos que rodeiam o mundo?

Otto: Acho que esse é meu dever como artista, sabe? Antecipar, digerir e informar através da arte minha visão sobre as questões do mundo. Tenho uma mente inquieta e vivo dos meus pensamentos; amplifico as vozes populares. Penso em manifestar através da minha arte os desejos humanos e contribuir, assim, pra o futuro, de forma otimista, esperançosa e humana. É deste modo que construo meu discurso, meus versos: no amor e na convivência…Quero o melhor para o meu mundo; quero harmonia!

Sopa: A letra da faixa “O Que Dirá o Mundo” critica o caos urbano e passa o sentimento da “vida de cavalo” de uma cidade grande. O que realmente você quis metaforizar e que forma encontrou para dizer e mostrar isso?

Otto: A relação vem do grande escritor russo Liev Tolstói, no seu conto “Khostolme: a história de um cavalo”, sobre um equino de nome Khostolme relatando a sua vida: desde puro sangue, corredor, depois um belo reprodutor, até ficar velho, arrastando uma carroça na fazenda. É uma comparação com a vida humana. Um conto fantástico! E tive a ideia de virar um cavalo no clipe para levantar essa crítica, essa relação. Sem contar que o universo dos cavalos é extraordinário, vigoroso. Adoro a plástica do cavalo.

Sopa: Nos seus shows você se abre para o público e extravasa suas aflições de forma catártica. Como é estar no palco?

Otto: Cara, arte pra mim são todos os sentidos reunidos pela inspiração, pela pulsação dos sentimentos, pela interpretação. No palco eu me sinto perto de Deus, perto da minha alma. Nele eu sinto equilíbrio, esforço e perfeição natural. É como se entregar à luz, à verdade.

Sopa: Na letra da música “O Que Dirá o Mundo”, você fala que divide a angústia e o pão. Que divisão é essa e com quem está sendo feita? Com o mundo, com a cidade, com as pessoas, com os animais?

Otto: Quando falo sobre dividir a angústia e o pão, quero apontar para a importância de sermos gente, de estarmos abertos para compreendermos as certezas e incertezas do estado humano, seus amores e dores; estamos aqui pra tudo isso! E temos que aprender a dividir, suportar e nos alimentar, porque viver é um exercício de muita paciência e compreensão, que mesmo nas adversidades precisamos estar prontos para reagir, ajudar e apoiar o que é importante. Não está escrito em nenhum lugar que a vida é perfeita, pelo contrário. A vida é pra ser vivida e evoluída.

Sopa: Essa mistura de sons e ritmos com que você convive, com um pouco de drum and bass (ritmo eletrônico) misturado ao maracatu e ao samba, é uma das suas características mais marcantes. Como você explica esse seu estilo próprio?

Otto: Meu estilo é um pouco das coisas que ouvi. Sou um homem contemporâneo, que busca viver o mundo de hoje e absorver o novo. Posso dizer que tenho uma música muito original, e sempre cobro o novo na minha alma. Gosto de misturar o desconhecido, aquilo que faz meu mundo e minha música avançar, com as tradições regionais: Pernambuco, nordeste e Brasil.

Sopa: Acontece durante o clipe a transição entre o homem e o cavalo. Você não começa sendo um cavalo e nem termina sendo um, mas passa por este momento cavalo. Como foi essa construção na narrativa da música?

Otto: Estes animais nos ensinam o tempo todo. Interagir com eles foi uma experiência inesquecível. A energia do momento da roda em que eles rodam ao meu comando me mostrou a grandeza que eles possuem e afabilidade que sentimos diante de tanta perfeição. Os cavalos realmente ajudaram muito o homem durante a história, como máquinas de guerra e transporte; o cavalo realmente é o símbolo ideal da força e do equilíbrio.

Sopa: Pensamos que o momento da dança no seu clipe seria aquele de maior entendimento do homem, já que dançar é uma característica humana – emocional e racional. Porém, você só consegue chegar nessa fase depois de passar pelo momento cavalo (animal). Qual ideia você estava querendo propagar ali?

Otto: Quando danço homenageio Lars von Trier, o grande cineasta dinamarquês, e seu filme “Melancolia”, que retrata o fim do mundo. Penso que dançar é uma afirmação de entrega ao momento presente e que o vive até o fim. É isso! Tolstói, Lars von Trier, cavalos e dança. O começo meio e fim de um pensamento sobre a eternidade.

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Autores

  • Júlia da Matta

    Sabedoria de Otto… que se multiplique!!!

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